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Fim da crítica literária e de artes. Fim do valor literário, da literatura de qualidade no mundo midiático e globalizado. Fim do livro. Fim da poesia. Apocalipses deste final de milênio, tomando o lugar do fim do mundo anunciado para o ano 1.000 da nossa era Mallarmé havia comentado que o mundo terminaria em um belo livro. Talvez nas duas ocasiões, nas duas passagens de milênio, em 1000 e 2000, se estivesse e se esteja anunciando a mesma coisa, uma crise no plano simbólico, afetando as representações do mundo. Como, nos últimos quinhentos anos, o livro se tornou o principal meio de registro e transmissão da matéria simbólica, faz sentido desta vez o Apocalipse incidir sobre ele, ou afetá-lo diretamente. O século XX já foi, todo ele, um final de milênio. Daí que, desde seu início, viesse sendo anunciado o fim do livro, sucessivamente engolido pelo cinema, pela TV, pela Internet. E, ultimamente, pela globalização da economia, conforme os dossiês que têm sido publicados sobre a mudança na composição de capital das editoras, absorvidas por complexos de comunicação. Por exemplo, no Nouvel Observateur da última semana de março, a análise das conseqüências da aquisição da Harper & Collins, americana, pelo grupo Bertelsmann, alemão, esvaziando complemente a editora. A regra do jogo, nesse e em outros casos, é a seguinte: a editora tem que atingir uma margem de lucro de 15%, a qualquer preço, em prejuízo da qualidade. Para tal, programação editorial só de banalidades, best-sellers e livros de interesse geral. E, se não cumprir essa meta, fecha-se a editora, ou passa-se para a frente. O Apocalipse do valor e da alta literatura vem sendo examinado pela ensaísta Leila Perrone-Moisés, entre outros lugares em seu livro Altas Literaturas (Companhia das Letras, 1998) e em um artigo recente no suplemento Mais, do jornal Folha de São Paulo. É associado a mudanças de orientação da crítica e do ensino de Letras pela ascensão das tendências culturalistas, pós-modernas, que estudam Literatura como um campo das comunicações sociais e dos estudos da cultura, no sentido dado ao termo pela Antropologia. Quanto ao fim da poesia, basta lembrar que, a propósito da morte de João Cabral de Mello Neto, uma verdadeira coorte de comentaristas e jornalistas de páginas de variedades e cultura proclamou que não havia mais nenhum poeta de grande estatura no Brasil. Apocalipses contêm a perspectiva de uma ressurreição ou de um renascer das cinzas. É esse o sentido de uma matéria recente na revista Veja, anunciando a volta da crítica, pois a revista passaria, novamente, a ter alguém (quem...?) respondendo pelo registro regular de livros. O diagnóstico de crise do valor e da literatura, provocada por culturalistas pós-modernos, é uma discussão acadêmica que ultrapassa e extrapola seus limites. Confunde o mundo com uma sala de aula, vê o mercado editorial como extensão de departamentos universitários, troca o lugar da infra e superestrutura, entendendo que os currículos e conteúdos de aulas são determinantes, e não um reflexo do que se passa na sociedade. Quanto à crítica, deixou de haver, ou de renovar-se, unicamente por responsabilidade dos grandes jornais e revistas. Quinze ou vinte anos atrás, convocavam um elenco de colaboradores de primeira linha para se ocupar disso. Achando que a ampliação de escala, o aumento de tiragem e leitores de suas publicações os obrigava a um aumento equivalente de banalidade, esvaziaram o setor. Foram eles mesmos que transformaram páginas de resenhas em simples transcrições de releases, ou em lugar para algum mestrando ou doutorando mostrar ao orientador e aos colegas que fez a lição de casa. Diversidade e qualidade são determinantes do crescimento de editoras. Por isso, a cada editora que se burocratizar, absorvida por algum complexo de comunicações, surgirá outra, ocupando o espaço abandonado pelo ex-concorrente. E, na hora em que as principais mediações, ensino e crítica, recuperarem um mínimo de qualidade, o mercado editorial voltará a florescer. Surpresos, jornalistas e professores constatarão um inesperado e inexplicável boom da alta literatura, da poesia de qualidade. Aparentemente alheias a seu próprio fim, desconhecendo o terreno arrasado e salgado em que estariam pisando, cresce a quantidade de revistas literárias no Brasil. Ao menos no Rio de Janeiro e São Paulo, sessões de leitura de poesia proliferam. Oficinas literárias têm filas de espera de inscritos. Sites literários e revistas eletrônicas registram milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares de acessos. Incompetência de alguns editores de páginas culturais na grande imprensa, queda de prestígio de teorias literárias e paradigmas cujo alcance havia sido inflado, erros de programação editorial, ajustes de mercados na área de comunicação - nada disso deve ser confundido com o Apocalipse. O fim do mundo certamente acontecerá, mas ainda vai demorar um pouco. Eternos sobreviventes, prosseguiremos. |
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