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Elaine Pauvolid
Citemos Antonin Artaud em Teatro e seu duplo (tradução de Teixeira Coelho, editora Max Limonad, 1987): "O fato de existirem chaves profundas no pensamento e da ação segundo as quais todo espetáculo é lido é coisa que não diz respeito ao espectador em geral, que não se interessa por isso. Mas de todo modo é preciso que estas chaves ‘estejam aí’, e isso nos diz respeito". As chaves apontadas por Antonin Artaud estão presentes na peça em questão. O ser encarnado pela atriz, o ser humano, prossegue sempre massacrado. Através do massacre da personagem vemos nosso massacre como espécie. Isto só é possível pelas tais chaves escondidas na peça. Não as vemos e nos afetam profundamente. O tema é a opressão sofrida pelo ser humano, em última instância, caracterizada pela dor.
Esta era a função do teatro grego e é esta a função do teatro de Bali a que Artaud refere-se com freqüência no livro referencial. Citemo-lo: " não se devolverá ao teatro os poderes específicos de ação antes de sua linguagem [do teatro] lhe ser devolvida", esta linguagem requisitada, Tereza Amoêdo atualiza. O espetáculo representa também um recorte de humanidade no cenário da arte contemporânea onde todos parecem super-heróis. Onde precisa-se vencer a dor, mostrar-se em combate, dando o exemplo em uma espécie de pedagogia da existência. Tereza não é heroína, sua personagem padece, luta e é vencida pelo caos moderno, cuja filosofia não se diferencia da grande regra da natureza animal, a lei do mais forte. No caso da apresentação, a personagem perde, é tragada, engolida, não sem lutar, não sem berrar. Quanto ao aspecto técnico, Tereza demonstra apuro. Não realiza movimentos jamais feitos, nem tampouco seu corpo representa algo sobre-humano - itens a gerar pontos, rotineiramente, a favor de peças contendo expressão corporal como linguagem. No entanto, alguns momentos valem por toda uma peça conduzida pelos maiores coreógrafos e diretores vivos. São o reflexo das tais chaves mencionadas acima.
Lembre-se que este tipo de teatro não costuma atrair, atualmente, grandes multidões como antes acontecia na Grécia. Talvez porque o público ainda não conheça seu efeito instantâneo de catarse, talvez nem mesmo conheça a catarse e então temos que citar Antonin Artaud quando em seu primeiro manifesto do Teatro da Crueldade, acerca do público, fala que antes de falar deste tópico "é preciso que o teatro exista". Se ele pudesse assistir à peça de Tereza, diria que já existe. |
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