.

Revista de Cultura nº especial
.
Fortaleza/ São Paulo, agosto de 2000
.


SIEGBERT FRANKLIN: O SONHO E A MEMÓRIA DO FAZER
Roberto Galvão
agsiegbert1.JPG (10855 bytes)A primeira vez que escutei o nome Siegbert foi na boca de Bené Fonteles, um importante artista paraense que depois virou baiano, cearense, mato-grossense e, agora, creio, paulistano. O primeiro contato tête-à-tête foi através de José Julião Guimarães, um crítico que muito contribuiu para as artes do Ceará. Julião me apresentou Siegbert em meio a uma feira de arte e artesanato que, na época, havia na Praça Portugal. O que estava no chão sobre um pano escuro, à venda, eram dois ou três desenhos de peixes executados num minucioso pontilhismo que, imediatamente, me remeteu para o trabalho dos artistas "surrealistas" de então, principalmente Batista Sena. Depois o Bené me levou, na galeria que eu dirigia, os desenhos de que havia me falado. Eram desenhos aquarelados profundamente fortes. Cenas de porcos torturando porcos. Isso foi há uns 20 anos, 1978 ou 79, não lembro bem. Gostei tanto que comprei quase a coleção toda.

A partir dessa compra passei a ter um contato, de certo modo, mais estreito com o Siegbert. Inclusive, tivemos atelier conjunto. Essa experiência de trabalhar lado a lado com o Siegbert foi muito enriquecedora. Vi nascer as suas primeiras pinturas. Não posso dizer que ele era meu aluno, seria uma inverdade. O nosso trabalho, apesar de eu ter entrado na estrada das artes uns dez anos antes, era uma experimentação conjunta, onde o meu conhecimento servia apenas para orientar o turbilhão de idéias e desejos que brotavam na mente de Siegbert e, por vezes, a inexperiência dele não permitia realizar. Ele me mostrava uma desesperada capacidade criativa, eu apenas o orientava indicando as possibilidades de como ele poderia expressivamente materializar essa energia.

Mas nada disso tem importância diante da obra atual de Siegbert e somente foi colocado porque me veio à mente no momento exato de iniciar o escrever desse texto, e deixei-me mergulhar em boas recordações.

A UNIDADE

agsiegbert2.JPG (25462 bytes)Quem acompanha as artes plásticas cearenses com um olhar mais perspicaz pode facilmente perceber que as pinturas de Siegbert Franklin, dos últimos quinze anos, têm uma profunda unidade técnica e temática. Apesar de no superficial seus quadros oscilarem entre a figuração e o abstracionismo, na verdade, o motivo é o mesmo. Mesmo há uns vinte anos, no tempo em que o assunto ou pretexto para fazer a sua pintura era o homem urbano, os elementos que servem de sustentação da pintura atual de Siegbert já estavam presentes. Sobre ou sob as figuras de homens no trabalho, de executivos, já haviam as formas e sinais que paulatinamente foram ficando mais explícitos, ganhando força, e hoje dominam a pintura de Siegbert.

OS SÍMBOLOS

Já o colorido depurou bastante. As cores, apesar de continuarem rebeldes, já não possuem a crueza que tinham nas pinturas da exposição da Galeria Chroma, em 1984. "Os elementos lúdicos em cores primárias" que, segundo Jô Balsa, formavam um "balé de objetos, lembrando cata-ventos, balões, brinquedos e ornamentos de cultura popular", ainda continuam. Agora, de modo mais sutil e poético, transcodificados pelas influências do viver mais urbano. Mas, a tradição continua servindo de base para o seu exercício de pintar. Pode não ser de modo tão explícito como em 87, mas, assim como um pêndulo de relógio, essas marcas-símbolos da pintura de Siegbert vão e voltam à superfície dos quadros.

Em 1990, o crítico Antônio Zago, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, comentando exposição na Galeria Paulo Prado, dizia que esse referencial havia mudado: "Ao invés dos símbolos típicos da cerâmica e da tapeçaria popular, o artista trabalha com formas arquitetônicas e máquinas, artifício que se tornou a natureza que envolve o homem contemporâneo. Siegbert Franklin passa a habitar a galáxia freqüentada por Miró, Klee e Torres-Garcia. A ambigüidade evoluiu. Às vezes temos a impressão de que o artista quer mais sugerir do que mostrar. A meio caminho entre a abstração e a figuração encontramos na presente mostra uma geometria rigorosa no fundo das telas, contrastando com formas caóticas, cores e texturas absolutamente rebeldes, que recusam a ordem estabelecida, transbordando o limite racional da linha."

Não concordo integralmente com o crítico paulista. Sei que existem acertos no que diz, mas, na verdade, as pinturas de Siegbert da época do comentário, assim como as atuais, são construções onde ele, manipulando elementos que garimpa no seu inconsciente, estimula o observador a penetrar no seu mundo plástico-pictórico.

O SONHO

agsiegbert3.JPG (26620 bytes)Para explicar o processo criativo do artista, creio que, ainda hoje, teria sentido um depoimento do próprio Siegbert publicado no catálogo de sua individual na Galeria Paulo Prado, em 1987: "Existem espaços entre a vigília e o sonho que sempre me fascinaram, momentos lúdicos, formas luminosas flutuantes, texturas sutis como aquelas percebidas nos estados febris de quando criança, memórias do futuro, plano de vôo sobre a terra do nunca…" A arte de Siegbert é exatamente isso. O próprio Siegbert confirmou em outro momento: "Eu gostaria de falar sobre uma fantástica arquitetura biológica… mas seria criar limites. Enquanto homem percorro outros caminhos, imagino uma topografia fantasma cuja única lógica seria a possibilidade de nos fazer sonhar".

Fazer sonhar, eis aí a palavra-chave. A pintura de Siegbert, mais do que um exercício de estilo, é sonho. Ele não pinta outra coisa além de suas quimeras, e faz o espectador participar de seu mundo onírico diante de seus quadros. Ele leva o espectador, em imperceptível transe, a um mundo que não é aquele de sonho romântico do final do século passado, mas a uma quimera de formas e cores que possibilitam, como o mito, vária leitura e interpretação.

Nesse jogo de sonhos, Siegbert se reporta e nos transporta ao passado e, ao mesmo tempo, ao futuro. Através da arte ele destrói a ilusão do tempo e escapa da linearidade da história. Como espectadores, não sabemos se estamos diante de paisagens do passado ou do futuro ou, ainda, de fragmentos de naturezas mortas que decantaram em nosso inconsciente; não sabemos em que dimensão estamos. O único espaço que existe quando estamos diante de uma obra de Siegbert é o espaço que ele nos oferece. Tornamo-nos escravos do sonho do artista, só ele nos conduz.

A MEMÓRIA

agsiegbert4.JPG (26153 bytes)Outra coisa importante na obra de Siegbert é o registro do fazer. Cada obra traz em si um arquivo do seu modo de construção disfarçado no jogo das cores e das texturas. Qualquer coisa que Siegbert faça, envolvendo tudo, tem essa memória. Parece que para ele é impossível produzir sem deixar o registro do modo como a obra foi elaborada, um dia de Ariadne que pode salvá-lo dos labirintos da criação. Cada obra tem uma memória petrificada do seu fazer, do clima de experimentação e das tentativas de dominar o indomável, o desconhecido, o acidental. No resultado final que o artista quis revelar todos os segredos da luta travada para a construção da obra. Lá estão os testemunhos de cada passo, das vitórias e dos fracassos, na tentativa de obtenção da forma, da cor. Ele revela para o espectador as mesmas surpresas que teve na alquimia do desvelamento das formas e matérias.

O PORTO

Se navegar é preciso, se cada homem tem que possuir o seu próprio barco, construir barcos, criar roteiros, fazer mapas, erigir faróis é a função dos artistas. Por isso, Siegbert cria obras que nos lançam ao mar, que exigem uma verdadeira navegação da mente e do olhar. E vários são os faróis e muitos os portos que ele, como timoneiro da travessia, nos deixa em cada quadro, em cada traço, em cada centímetro pintado.

Início desta página