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Roberto
Galvão
A partir dessa compra passei a ter um contato, de certo modo, mais estreito com o Siegbert. Inclusive, tivemos atelier conjunto. Essa experiência de trabalhar lado a lado com o Siegbert foi muito enriquecedora. Vi nascer as suas primeiras pinturas. Não posso dizer que ele era meu aluno, seria uma inverdade. O nosso trabalho, apesar de eu ter entrado na estrada das artes uns dez anos antes, era uma experimentação conjunta, onde o meu conhecimento servia apenas para orientar o turbilhão de idéias e desejos que brotavam na mente de Siegbert e, por vezes, a inexperiência dele não permitia realizar. Ele me mostrava uma desesperada capacidade criativa, eu apenas o orientava indicando as possibilidades de como ele poderia expressivamente materializar essa energia. Mas nada disso tem importância diante da obra atual de Siegbert e somente foi colocado porque me veio à mente no momento exato de iniciar o escrever desse texto, e deixei-me mergulhar em boas recordações. A UNIDADE
OS SÍMBOLOS Já o colorido depurou bastante. As cores, apesar de continuarem rebeldes, já não possuem a crueza que tinham nas pinturas da exposição da Galeria Chroma, em 1984. "Os elementos lúdicos em cores primárias" que, segundo Jô Balsa, formavam um "balé de objetos, lembrando cata-ventos, balões, brinquedos e ornamentos de cultura popular", ainda continuam. Agora, de modo mais sutil e poético, transcodificados pelas influências do viver mais urbano. Mas, a tradição continua servindo de base para o seu exercício de pintar. Pode não ser de modo tão explícito como em 87, mas, assim como um pêndulo de relógio, essas marcas-símbolos da pintura de Siegbert vão e voltam à superfície dos quadros. Em 1990, o crítico Antônio Zago, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, comentando exposição na Galeria Paulo Prado, dizia que esse referencial havia mudado: "Ao invés dos símbolos típicos da cerâmica e da tapeçaria popular, o artista trabalha com formas arquitetônicas e máquinas, artifício que se tornou a natureza que envolve o homem contemporâneo. Siegbert Franklin passa a habitar a galáxia freqüentada por Miró, Klee e Torres-Garcia. A ambigüidade evoluiu. Às vezes temos a impressão de que o artista quer mais sugerir do que mostrar. A meio caminho entre a abstração e a figuração encontramos na presente mostra uma geometria rigorosa no fundo das telas, contrastando com formas caóticas, cores e texturas absolutamente rebeldes, que recusam a ordem estabelecida, transbordando o limite racional da linha." Não concordo integralmente com o crítico paulista. Sei que existem acertos no que diz, mas, na verdade, as pinturas de Siegbert da época do comentário, assim como as atuais, são construções onde ele, manipulando elementos que garimpa no seu inconsciente, estimula o observador a penetrar no seu mundo plástico-pictórico. O SONHO
Fazer sonhar, eis aí a palavra-chave. A pintura de Siegbert, mais do que um exercício de estilo, é sonho. Ele não pinta outra coisa além de suas quimeras, e faz o espectador participar de seu mundo onírico diante de seus quadros. Ele leva o espectador, em imperceptível transe, a um mundo que não é aquele de sonho romântico do final do século passado, mas a uma quimera de formas e cores que possibilitam, como o mito, vária leitura e interpretação. Nesse jogo de sonhos, Siegbert se reporta e nos transporta ao passado e, ao mesmo tempo, ao futuro. Através da arte ele destrói a ilusão do tempo e escapa da linearidade da história. Como espectadores, não sabemos se estamos diante de paisagens do passado ou do futuro ou, ainda, de fragmentos de naturezas mortas que decantaram em nosso inconsciente; não sabemos em que dimensão estamos. O único espaço que existe quando estamos diante de uma obra de Siegbert é o espaço que ele nos oferece. Tornamo-nos escravos do sonho do artista, só ele nos conduz. A MEMÓRIA
O PORTO Se navegar é preciso, se cada homem tem que possuir o seu próprio barco, construir barcos, criar roteiros, fazer mapas, erigir faróis é a função dos artistas. Por isso, Siegbert cria obras que nos lançam ao mar, que exigem uma verdadeira navegação da mente e do olhar. E vários são os faróis e muitos os portos que ele, como timoneiro da travessia, nos deixa em cada quadro, em cada traço, em cada centímetro pintado. |
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