.
|
|
|
|
|
Mário
Cesariny
Que sabiam de surrealismo ou de dadá todos aqueles que apareciam jovens no Café Hermíneos no dealbar da década de 40? Absolutamente nada. Nem era só de surrealismo ou de dadá que não sabiam. O que a inteligência ou ininteligência do lugar e da época lhes dava para ser sabido constituía amostra bastantemente hórrida daquilo que ainda estava por saber. Sabíamos (vagamente) da guerra mundial; da arte que se expunha no Secretariado de Propaganda Nacional; da arte mais ou menos da Sociedade Nacional de Belas Artes; dos cortejos de Leitão de Barros; de Alexandre e de Clotilde Sakaroff; da pintura de Antonio Pedro e de matemática elementar. Ainda era cedo para se saber de Pessoa, de Sá-Carneiro, de Souza-Cardoso, de Vieira da Silva. Sabíamos de Régio, de Torga, de Casais, mas não gostávamos tanto. Apanhados numa desjuntura sinistra (de gerações, de poéticas, de políticas), juntávamos a custo o próprio corpo. O aparecer de um livro de Ruy Cinatti, Nós não somos deste mundo, forneceu uma tarde de gáudio geral: todo o mundo fez ilustrações, após o que o livro foi deitado fora. Também sabíamos da existência de um novo movimento poético, o neo-realismo, reivindicador da revolução pela imagem. […] "Em 1944, escreve Pedro Oom, se pode limitar a fronteira do nosso magnífico isolamento; pois logo a seguir surgiu a imensidade de caras e de gestos que ainda hoje nos assustam". Este hoje refere-se a 1965. É ainda sobre este pano de fundo
que vejo a obra de Cruzeiro Seixas, tateando sempre o terreno-limite onde
liberdade coincide com libertação. Os quinze anos de África
decerto o ajudaram a distanciar a imensidade de caras que assustam, outras
terá encontrado, mas com caminhos de milhares de quilômetros
para a fuga e mates do princípio do mundo para a refração.
Mesmo em Lisboa, era do continente desconhecido que trazia desenhos como
retratos do inominado, esculturas e objetos impossíveis de haver,
de abordar, de adaptar. Embora familiares de livros de Picasso, de Alguns deles chegaram à I Exposição dos Surrealistas, em 49, como à Exposição que os mesmos organizaram, ainda em Lisboa, no ano seguinte. Francamente dizendo, ninguém deu por isso - por eles, pelas exposições, pelas nossas pobres vidas. A não ser José-Augusto França, também é verdade, que embora em atrito direto com o e os expositores, fez crônica sobre eles na Seara Nova, tentando mesmo a consagração de dois.
De qualquer forma, não é hoje mais fácil surgir de olhos limpos a detectar a forma inicial com que Cruzeiros Seixas ironiza a forma e ironiza a sua própria vida, mesmo onde ela seria a mais dramática. Se os desenhos à pena são rumores de catástrofe, braços de bichos cegos, ciclistas despernados, vítimas todos de naufrágio na luz, nos objetos e na pintura, talvez pelo socorro da cor, é sempre de ironia que se trata, comentário à maneira com que o sol se põe. Ou a janela se abre. Ou a perna se estica. Não haverá maneira ainda mais incômoda de habitar o planeta? Suntuoso ou selvagem, amável ou terrível, Cruzeiros Seixas dá a outra hipótese, visão objetiva de quem está mas não vai demorar: não é para nós o consumo das coisas. em arte. Mas todo o ser heteróclito, todo o chapéu-funil, todo o telhado-ovo, todo o peixe-torre realissimamente objetivos da pintura de um Bosch toma o seu chá por estes Vinte bules e dezesseis quadros de Cruzeiro Seixas, acrescidos, aqui, de propostas de vida que podiam levá-los a sair para a rua, deixar as janelas verdes, beber o infinito terrestre. Uma retrospectiva mais sistematizada do que aquela que Rui Mário Gonçalves pôde organizar na Galeria Buchholz, em 1967, mostraria como e a que ponto a pintura de Seixas, sem todavia levar ao esgotamento os rumos delineados - seriam necessários: a) disponibilidades materiais e horários que nunca teve, desde os anos 40 até esta risonha década de 70; b) menos amor à vida, é dizer, aos segundos de vida, de não-trabalho, de não-almoço, de não-dormir escravos que as vinte e quatro horas destes dias nos dão, quando dão, se dão -, tal retrospectiva, dizíamos, mostraria como a obra de Seixas representa entre nós não só confirmação da pintura surrealista que correr até à II Guerra Mundial, como a adivinhação de modos futuros. A presente exposição não deve pois ajudar a limitar esta obra à série de trabalhos que ora expõe. Tal série é devida, primeirissimamente, a Francisco Pereira Coutinho, que, constatada a persistente ausência de mecenas úteis, dispensou por um tempo o empregado e animou o expositor. |
|
|
