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Sânzio
de Azevedo
No Rio de Janeiro de então, centro das letras nacionais, os poetas mais prestigiados eram os parnasianos, como Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, sendo que os ficcionistas mais reverenciados eram Machado de Assis, com seus romances realistas, e Aluísio Azevedo, chefe dos naturalistas em nosso país. Os simbolistas, seguidores de Cruz e Sousa, hostilizavam os ídolos do tempo: Gustavo Santiago, por exemplo, tirava o chapéu para Machado de Assis, não, entanto, como uma homenagem ao literato sem talento e sem obra que vive, por aí, assinando futilidades que se conhecem pelos nomes de Quincas Borba, Memórias de Brás Cubas e D. Casmurro, mas ao funcionário exemplar da Secretaria de Viação, que ele o é (Luís Edmundo, O Rio de Janeiro do meu tempo, s/d). Adolfo Caminha, cearense que, em 1893, havia engrossado as fileiras do Naturalismo com o romance A normalista, publica em 1895 (antes de fazer editar o Bom-Crioulo, desse mesmo ano), seu único livro de críticas, as Cartas literárias, impressas na tipografia Aldina. Logo na abertura do volume há uma expressiva dedicatória: A Isabel C***. Quero que o nome dela fulgure como uma legenda de ouro à primeira página de meu livro… Quem conhece os dados biográficos do escritor, sabe que ele, quando oficial da marinha, na Fortaleza de 1889, se uniu a Isabel Jataí de Paula Barros, que abandonou o marido, um alferes do Exército, o que gerou um escândalo na cidade provinciana e hipócrita, levando o jovem tenente a abandonar a Armada. A dedicatória é assim uma homenagem à mulher que transformou sua vida e como que uma resposta à sociedade que condenou a ambos. Formado por artigos que haviam surgido na Gazeta de Notícias, do Rio, de novembro de 1893 a julho de 1894, aos quais acrescentou o autor pelo menos dois trabalhos aparecidos na Revista Moderna, de Fortaleza, em 1891, o livro revela, como seria de se esperar, mais que os outros, o espírito combativo do escritor. A maior parte dos artigos, no jornal carioca, tinha como assinatura as iniciais C. A., e isso levou Alceu Amoroso Lima (Estudos,1934), por volta de 1925 (antes de conhecer o livro), a atribuí-los a Capistrano de Abreu ou a Constâncio Alves, já que as iniciais eram C. A., e não A. C. Advertido por João Ribeiro sobre a autoria real dos trabalhos, confessou o crítico não haver pensado em Adolfo Caminha por uma razão ainda mais forte: o artigo inicial da série era justamente a apologia de um livro de … Adolfo Caminha.
Percorrendo-se as Cartas literárias, pode-se ver como o ficcionista se comportava no âmbito da crítica e, com isenção, pode-se constatar que o livro apresenta altos e baixos, com inegáveis equívocos ao lado de admiráveis conclusões e até mesmo predições. No primeiro capítulo, Novos e velhos, lamenta Adolfo Caminha o quadro desolador a que, segundo ele, havia chegado a literatura nacional, e fazendo ligeiro retrospecto das letras no Brasil, afirma: Com José de Alencar morria o romance brasileiro, que ele criara cheio de zelo pelas coisas do seu país. É que, para o crítico, os leitores não suportavam mais o sentimentalismo de Macedo: dos contemporâneos de Alencar, para ele, somente Machado de Assis pudera escapar à indiferença pública, e precisamente porque se fora desembaraçando cautelosamente dos velhos moldes e enveredando pela psicologia. Mas o ideal, para Caminha, era o Naturalismo, tanto que, ao tratar das Memórias póstumas de Brás Cubas (a nosso ver um dos pontos mais altos da ficção machadiana), conclui: Não é tudo o que se poderia desejar, mas difere muito dos velhos contos e fantasias. Já O mulato, romance de estréia de Aluísio Azevedo, é, na sua opinião, um primoroso romance de cunho nacional.
É interessante a independência como Adolfo Caminha fala de escritores já consagrados. Ao analisar A Capital Federal, de Coelho Neto, faz-lhe elogios, mas acompanhados de restrições a certas personagens que não têm vida própria, e ao estudar Praga, do mesmo autor, condena-lhe o amaneirado inútil da adjetivação e o emprego desnecessário e mesmo antiestético de vocábulos raros. Comentando o romance Lupe, de Afonso Celso, ataca o jacobinismo em arte e indaga: Por que razão havíamos de negar talento às gerações que nos precederam? E, em Musset e os novos, investe contra os que, empolgados com a arte de Baudelaire, desmerecem nos versos do poeta de Nuits, fazendo esta profecia admirável: As escolas desaparecem, ficam as obras; amanhã, quem sabe? Outro poeta virá, outro gênio com idéias novas, com uma forma absolutamente original; mas nem por isso Baudelaire será esquecido. Três artigos não poderiam ter boa repercussão no Ceará: Uma estréia ruidosa, praticamente o mesmo que, sobre os Versos diversos, de Antônio Sales, fora estampado na Revista Moderna, de Fortaleza, em 1891; A fome, da mesma revista e da mesma época, abordando a estréia de Rodolfo Teófilo no romance; e A Padaria Espiritual, falando da originalíssima agremiação criada por Sales e da qual ele, Caminha, fora um dos fundadores, na Fortaleza de 1892. Há, nesses três artigos, algumas observações interessantes, mas o que predomina neles são os traços de flagrante injustiça, o que levou Antônio Sales (O Pão, n. 25, 01/10/1895), assinando-se M. J. (Moacir Jurema, seu nome de guerra na Padaria Espiritual), a sentenciar: Caminha é arroubado, birrento, rancoroso, e não é dessa massa que se fazem os críticos dignos de tal nome. Até Frota Pessoa (Crítica e polêmica, 1902), grande amigo de Adolfo Caminha, reconheceu que nem sempre sua crítica foi impassível: Algumas vezes exagerou o encômio e outras vezes a censura; mas dentro dela estava inteira a sua alma de lutador vibrante no seu entusiasmo renascente. Em nossos dias Lúcia Miguel-Pereira (Adolfo Caminha, 1960) observou que o autor de A normalista, nas páginas impressionistas de Cartas literárias, deixou vários juízos e depoimentos de interesse para o estudo de sua época, e, sobretudo, para o seu próprio estudo. Nem precisaremos nos alongar mais neste comentário, porque, graças à iniciativa das Edições UFC, está sendo pela primeira vez reeditada essa obra, que há muito se transformou em raridade bibliográfica. |
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