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Revista de Cultura nº especial
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Fortaleza/ São Paulo, agosto de 2000
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MEMÓRIA NA PRESENÇA: UM DEPOIMENTO DE HÉLIO ROLA




aghelio1.JPG (21716 bytes)Meu nome é Francisco Hélio Rola. Nasci em 1936, em Fortaleza. Quando criança desenhei, como todos os amigos e amigas, nas calçadas da minha vizinhança. Desenhos a carvão, tijolo branco e caco de telha. Depois disso veio uma longa temporada nos estudos e graduação na medicina. Nada de arte, só estudos. Graduação e doutoramento. Nessa época, morava em Nova York, entre 1967 e 1907, e ali encontrei um casal. Ele, pintor; ela, escritora. Me procuraram querendo saber sobre literatura de Lampião e bandoleiros do Nordeste. Daí, uma amizade e logo mais meu novo interesse pela pintura, pelo desenho etc. Como sempre, de tudo o que fazemos muita coisa não é nada até que se encontre em um determinado contexto. É aghelio2.JPG (41869 bytes)isso o que tenho feito, ao lados de outras coisas, como a gravura, por exemplo, na qual venho trabalhando de uns tempos para cá. De repente, por conta de uma mudança intempestiva, vi-me às voltas com um grande embaralhamento de meus trabalhos, principalmente os papéis, os pequenos desenhos, cartões postais etc. os cupins, a humidade, estragaram muitas coisas. E em tal embaralhamento o tempo se foi, se foram as datas. O jeito foi recolher tudo, sem preocupação de data, época, e juntar os fragmentos em um contexto outro.

Os trabalhos apresentados aqui na Agulha são colagens de técnica mista. Utilizo, como muitos outros já o fizeram, fragmentos de desenhos, pinturas e alguns achados gráficos, por sua vez conectados através de pintura, desenho etc. O resultado é uma multiplicidade conectada, que buscam um sentido outro (meu sentido) em seus fragmentos.

aghelio3.JPG (40829 bytes)Há tempos os fragmentos se acumulavam, até que resolvi conectá-los, colando e pintando retalhos de trabalhos antigos e alguns feitos a propósito. Não é só memória, mas também memória na presença, no presente. Futuro não é a proposta. A proposta é não perder a perspectiva do presente, a única dimensão que experimentamos… Passado e futuro são comentários de e sobre um presente avassalador.
 
 

GRAVURA

aghelio4.JPG (41559 bytes)As experiências coletivas surpreendem sempre… Aprendi a pintar pintando muro nas ruas de Fortaleza, com o grupo Aranha, entre 1987 e 1991. A partir de 1993, seduzido pelos amigos que trabalhavam na oficina de gravura no MAUC/UFC (Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará), na época animada pelo Eduardo Eloy, me dediquei à xilogravura e me juntei ao grupo TAUAPE. Na prática da gravura, salvo gravar, o que pode ser feito na nossa intimidade, como acontece com a nossa pintura, o resto é um fazer coletivo onde se vive, ao redor de uma prensa, um clima de procura artística de entre-ajuda e camaradagem. Na co-inspiração criativa, onde todos os palpites são bem-vindas, e não na costumeira rivalidade da cultura patriarcal que nos anima e diminui a criatividade por restringir as circunstâncias da convivência. São esses momentos e a lista de realizações artísticas do grupo TAUAPE, até o momento, o que me anima a progredir no meu fazer artístico trabalhando com gravura.

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