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Luis Bravo
Suas obras mais atuais aparecem marcadas por uma luz titilante com tonalidades menos sombrias e mais acústicas, como ecos intimistas de vozes que, sendo derivativas, não aspiram a congelar-se em um niilismo paradigmático mas sim a seguir dando testemunho de suas mudanças, de seu mundo interior e de suas óticas. Na noite de 26 de janeiro de 1977, em Tampa Florida, a compositora, performer e guitarrista Patti Smith caiu vários metros do cenário, rompendo duas vértebras do pescoço. O fato marcou o inicio de seu retiro de cena, até 1980, para dedicar-se exclusivamente a escrever: "estava fazendo meu número mais intenso, Ain't it strange, uma canção na qual desafio Deus a me falar de alguma maneira. É uma parte em que giro como um dervixe e digo: Mão de Deus sinto o dedo, mão de Deus começo a girar, mão de Deus não fico tonta, mão de Deus não caiu agora, mas caí…" Smith pode caracterizar-se como uma xamã, ou uma sacerdotisa punk de teatro místico, porém o som de sua banda original (1973/79), integrada por Lanny Kaye (guitarrista e co-produtor em Gone again), Richard Sohl, o baixista checo Iván Kral e o baterista Dee Daugherty, foi definido por ela mesma como "rock de três cordas fundido ao poder das palavras". Efetivamente essa áspera textura de voz urgente vinha inspirada por duas poderosas bandas dos anos 60 (New York Dolls e Van Der Graaf) e principalmente por Velvet Underground (1965/69), que haviam adiantado quase dez anos um som cru e com ênfase em letras arrasadoras, como Heroin, escrita a sangue por Lou Reed. Os Velvet, que tomaram ao acaso seu
nome de um manual de sado-masoquismo apanhado na rua, haviam debutado em
1965 em New Jersey, onde vivia a adolescente Smith. Ouvidos no Café
Bizarre pelo santo patrono da vanguarda-pop, Andy Warhol, este financiou
seu primeiro álbum integrando-os de imediato ao Exploding Plastic
Inevitable, um descacharrante happening sobre rodas. Com atitude
de homem viril, lentes e roupa escura, Lou Reed incorporava naquela época
o rock que logo seria o realismo sujo no mundo literário.
Histórias de rua de violentados e traficantes, onde a magia da loucura
redime imaginariamente os adictos de Segunda geração, alucinados
vagabundos, prostitutas adolescentes, policiais corruptos, no sórdido
marco do sujo Boulevard. Esta olhadela niilista - e por momentos piedosa
-, realista porém provocativa, alarmou os observadores morais garantindo
a resistência do produto no mercado realizado do beat, e o
folk-protesto que faziam ebulição e dólares aos montes
naqueles anos. A banda foi motivo de culto (situação
que Iggy Pop descrevera como "os executivos de tua companhia não
te atendem por telefone, mas chamam por ti, muito loucos, à meia-noite"),
crescendo a admiração e a lenda Velvet entre os mais jovens
artistas durante as duas décadas seguintes. Não por casualidade,
no filme Tão perto, tão longe (1994), Win Wenders,
continuando com o tema dos anjos caídos, de regresso à terra
mão, mostra Reed dando uma suculenta senha a um anjo bêbado
em uma rua de Berlim, enquanto o apalpa e diz: "tu podes", e soa em off
a linha hipnótica, monocorde, de sua guitarra. Formado em piano
clássico, discípulo juvenil do poeta Delmore Schwartz na
Universidade de Syracusa, Reed foi mito reverencial da vanguarda sessentista,
até que reapareceu como fênix após três anos
de ostracismo com o álbum New York (1988). Hoje é
referência insuspeitável dessa difícil amálgama
de literatura e rock, que Smith recolhera como um guante, para seu contundente
discurso poético, prévio ao estalido punk londrino.
O caso é que esses artistas haviam irrompido no cruzamento de épocas
do princípio dos anos 70, entre o encerramento definitivo de The
Factory, base de operações que Warhol teve que desmontar,
e o traslado da cena under para o Club CBGB, onde o rock
marginal crescia, violento e expressivo, deslocando o circuito mais Hip
ou Chic da primeira onda da Pop Art. Em paralelo, surgiam
o Conceptualismo, o Minimalismo, a Arte Povera, e
um estalido de -ismos que se tinha visto desde o princípio
do século.
DEUS, OS SUBÚRBIOS, A GRANDE CIDADE
Mapplethorpe e Smith apoiaram-se um
no outro com uma intensa e boêmia amizade que os levou, através
da miséria, a forjar suas carreiras em uma cidade sobrecarregada
de aspirantes a artistas. Na Serpentine Gallery de Londres - espaço
do lançamento de Gone again, onde Michael Bracewell realizou
a reportagem publicada em The Guardian (22/06/96) de onde foram
extraídos os comentários de Patti Smith aqui reproduzidos
-, Smith anunciou a publicação de seu quinto poemário:
O
mar de coral, uma seqüência de textos em prosa que registram
seu amor e dor pelo amigo fotógrafo, que morrera de AIDS em 1989,
e após o que sua obra se transformou em centro de polêmicas
censuras e siderais cotizações em dólares. Em 1975,
a saída do primeiro LP de Patti Smith Group (Horses, financiado
por John Cale, ex-guitarrista do Velvet), revolucionou a imagem da mulher
no rock por seu lirismo de voz áspera, sem facilismos nas letras
e também pela foto da capa. A imagem captada pela lente de Mapplethorpe
inaugurava o punk-andrógino, cool e desafiante, um glamour
de confrontação que aumentou quando os executivos de Arista
(o marketing apontava: jovem soft e sexy) viram uma fina
linha de véus sobre seu lábio e ela não permitiu que
retocassem a foto. Na realidade, havia se inspirado no retrato que realizara
o fotógrafo Nadar de outro grande poetas francês… "eu pensava
em mim como uma poeta e uma performer. Não tinha dinheiro
e gostava de me vestir como Baudelaire. Vi sua foto com esse penteado e
gravata e uma camisa branca. Robert gostava de tirar fotos com luz natural
e estava tratando de captar um triângulo de luz, que se pende na
imagem. Sei que as pessoas gostariam de pensar que nos juntamos para romper
limitações de gênero e política, mas realmente
estávamos demasiado ocupados tratando de juntar suficiente dinheiro
para comprar o almoço desse dia."
DA GRANDE CIDADE AOS SUBÚRBIOS DE SI MESMO
A partir do tema, quase intraduzível, que dá título ao CD, Set the twilight reeling, Reed aponta também seu renascimento para uma nova vida: "sou… uma estrela novíssima emergindo / na algibeira do coração / na velocidade do sangue /no músculo de meu sexo / no pleno amor despreocupado / aceito o novo homem encontrado". A canção Negociar (que na arte da capa aparece inscrita em seu próprio rosto) é ainda mais clara na busca de outra lente para ver o mundo: "leva-me à janela / disse meu coração à minha cabeça / por favor, prende-me logo / assim poderei começar de novo / estava tão equivocado que me parece cômico…". |
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