REENCONTRO COM INDEPENDÊNCIA
Terra dos meus avós. Tudo é saudade!
as histórias douradas de sereia
da minha meninice à alacridade
das noites de ciranda à lua cheia.
O alvorecer da minha mocidade,
com o despontar do amor, que alma encandeia,
eu vi chegar aqui nesta cidade,
quer hoje revejo e que inda tanto enleia.
Andorinhas na torre da Matriz,
os amigos da infância, que participaram,
cordolina, (morena) a meretriz.
Reencontro tudo que existia em mim:
sonhos da infância, sonhos que fugiram,
minha esperança que chegou ao fim.
ICÓ
ADAUCTO GONDIM.
Para contar-te a gloria é necessário
pedir inspiração ao próprio Deus,
rezar, com contrição, no meu rosário,
e sentir emoção de um grande adeus
Repassar um antigo calendário,
ter crença e abraçar-me com ateus,
fugir, apavorado, de um otário,
burilhar, com cuidado, os versos meus.
Salvados. Tradição. Lutas.n o pó
que se ergue do leito dos caminhos
que nos levam feliz ao velho Icó.
Sinhazinhas. Escravos. Tudo, enfim,
que sinto sacudir-me, em remoinhos:
a história do passado é meu jardim.
BOA VIAGEM
Não é lenta, é verdade, antigamente
um romance de amor aconteceu
no meio do sertão ardente e quente
a cidade nasceu, viveu, cresceu.
O drama inda perdura. Antiga gente
revela que o cavalo esmoreceu
no meio do caminho. De repente
a moça fugitiva recorreu.
A viagem para ter boa viagem.
Deu-se milagre e uma nova imagem
mostrou a estrela larga da esperança.
Afastou-se o perigo inicial
e foi erguida a igreja sem tardança
com marco de amor em pedra e cal.
QUATRO SONETOS EM AQUIRAZ
ADAUCTO GONDIM.
Abro a janela do sobrado escuro
porque não quero mais fazer visagem.
Quem foi que viu a moça que procuro?
Tornou-se sombra ou realizou viagem?
Vejo legenda vertical no muro,
só há mistérios nesta antiga imagem,
que venham logo sábios do futuro
dizer que teve por aqui passagem.
Os vestígios do tempo são pilares
a ponte do passado suspendendo
através de saudades seculares.
Quero partir, fugir do que passou,
mas não posso fazer. Estou vivendo
as lembranças que o tempo não gastou.
ARARIPE
ADAUCTO GONDIM.
O dia amanheceu, cantou o galo,
na casa do Girão tinha menino
novo chorão, querendo já cavalo
para montar em busca do destino.
Nasceu poeta e por aqui eu fico
só para ouvir o som de um violino:
meu velho professor sou teu vassalo
e ante ti serei sempre pequenino.
Araripe diante, um mar de sonho,
meu pensamento quando em ti reponho
sinto mais forte o coração vibrar.
A tua história deve ter mais brilho:
Girão Barroso teu dileto filho.
Quem foi que disse que te sei cantar?
ARATUBA NUM SONETO
ADAUCTO GONDIM.
A dália, o cravo, o bugarí, a rosa,
a papoula vermelha, que incendeia,
o céu mais perto, a terra mais formosa,
as abelhas, em festa, na colméia.
A sensação da terra dadivosa
para todo campônio que semeia;
em tudo a natureza é carinhosa
para tudo pisa as ruas desta aldeia.
Quero ficar agora, preso ao golfo
do mar da relva, em paisagem antiga,
tendo Aratuba como um mundo novo,
onde viveu tranqüila e sempre amiga
a pessoa boníssima de Adolfo
Lima, que está no coração do povo.