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Adelto Gonçalves
A força dos Almanaques

4 de fevereiro de 2006
Nos séculos XVIII e XIX e ainda no
começo do século XX, guardadas as devidas proporções, a febre dos
almanaques na Europa foi equivalente à febre de hoje provocada pela
massa de informação disponível na internet. Ainda hoje, os
almanaques daquele tempo servem para desvendar pistas aos
historiadores que se aventuram naqueles séculos. Quem quiser saber,
por exemplo, onde morava em Lisboa um figurão daquele tempo, basta
ir à Biblioteca Nacional, consultar o Almanaque para o ano de (...),
publicado pela Academia Real das Ciências.
Foi pela edição desse Almanaque de
1802 que descobri, por exemplo, que Bocage, ao morar certo tempo na
casa do conselheiro José Andrade de Carvalho, na Calçada de Santo
André, vivera bem próximo de seu amigo Antônio Bersane Leite de
Paula, contador do Arsenal Real do Exército, que habitava com a
família na mesma rua.
Pelo Almanaque de 1800, descobri
também que o reverendo Julião Cataldi, secretário do Conselho Geral
do Santo Ofício a partir de 1796 e censor régio, era vizinho de
Bocage na Praça da Alegria à época da prisão do poeta em 1797.
Cataldi foi um censor implacável dos versos de Bocage, nos quais via
“fogo lascivo e imagens indecentes”. Teria alguma rixa de vizinhos
levado Cataldi a carregar nas tintas de seu parecer à edição de
Rimas de 1799 (primeira edição do segundo tomo) ou de 1800 (segunda
edição do primeiro tomo)? Eis aqui uma questão que nunca
desvendaremos, mas que a leitura do almanaque suscita.
Estas observações vêm a propósito do
trabalho da professora Eliana de Freitas Dutra, do Departamento de
História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da
Universidade Federal de Minas Gerais, que acaba de lançar Rebeldes
literários da República, em que, ao estudar a literatura dos
almanaques e, especialmente, do Almanaque Brasileiro Garnier
(1903-1914), discute os conflitos e tensões dos meios literários do
Brasil de então, um país cuja população, em sua maior parte, vivia
no campo.
PÚBLICO URBANO – O Almanaque
Brasileiro Garnier, na verdade, pouco tinha a ver com o citado
Almanaque para o ano (...), que trazia especificamente informações
sobre a cidade de Lisboa. Estava filiado, isso sim, aos almanaques
que surgiram mais tarde no mundo lusófono, como o Novo Almanaque de
Lembranças Luso-Brasileiro, da Livraria António Maria Pereira, de
Lisboa, com direção de Antônio Xavier Rodrigues Carneiro.
“Num país carente de livros, de
leitores, de livrarias, onde a elite intelectual lutava por se
estabelecer e parte dela acreditava que a nação ainda estava por se
fazer – daí ser necessário ampliar a instrução – e onde a escola
formal ainda era para poucos”, como diz a professora, a importância
do Almanaque Brasileiro Garnier não pode ser desprezada. Inspirado
no Almanaque Hachette, de Paris, o congênere brasileiro, se
preocupava com a dita informação útil e a vulgarização de alguns
temas, não se furtava aos assuntos eruditos e ao debate em torno de
questões filológicas, de história e de lingüística, entre outros.
Como diz a pesquisadora, o Almanaque
Brasileiro Garnier é visivelmente endereçado a um público urbano,
aos setores médios das cidades – especialmente Rio de Janeiro, a
capital da República, e São Paulo, que começava a se industrializar
–, integrados por funcionários públicos, profissionais liberais,
estudantes de ensino médio e de escolas normais e comerciantes.
Enquanto os livros não ultrapassavam
mil ou dois mil exemplares – fato comum ainda hoje em dia para
autores pouco conhecidos –, os almanaques alcançavam tiragens
fantásticas, como os 45 mil exemplares do primeiro número do
Annuario Fluminense - Almanach histórico da cidade do Rio de
Janeiro, de 1900, ou o Almanach Ilustrado Brasil-Portugal, editado
no mesmo ano pela Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, com uma
edição de 50 mil exemplares.
IDEOLOGIA – O Almanaque
Brasileiro Garnier reunia boa parte da geração de 1870, a maioria em
atuação na Academia Brasileira de Letras, então recém-fundada, no
Colégio Pedro II, ou sob a tutela do barão do Rio Branco, figura de
destaque não só da diplomacia como expoente da intelectualidade da
época. É o caso de nomes como Sílvio Romero, Araripe Júnior, Graça
Aranha, Clóvis Bevilácqua, João Ribeiro, José Veríssimo, Pedro do
Couto, Oliveira Lima, Curvelo de Mendonça, entre outros.
A maioria atuava no ensino, no
jornalismo e na diplomacia, áreas que sempre atraíram os
intelectuais. Esse mesmo grupo seria responsável pela Revista
Brasileira, da ABL, que se encontra ativa até hoje, em sua fase VII,
sob a direção editorial de João de Scatimburgo. Dirigido
inicialmente por Ramiz Galvão, entre 1903 e 1906, o Almanaque
Brasileiro Garnier esteve sob a orientação de João Ribeiro até 1914.
Para a autora, o Almanaque traz
maiores marcas de Ribeiro do que de seu fundador. Suas páginas
reproduziam artigos que estabeleciam uma estratégia de instrução da
sociedade civil, engajada em nome da causa republicana e de uma
pedagogia da nacionalidade. Embora na linha de oposição a uma
República refém dos interesses agrícolas, a publicação, como mostra
a autora, reproduz um esquema que se reflete ainda hoje na ideologia
de alguns partidos conservadores. |