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Adelto Gonçalves
Gilberto Mendonça Teles: 50 anos
de poesia
Meio século de poesia não é para
qualquer um. Ainda mais se a poesia é de alta qualidade. Pois foi
exatamente meio século de atividade poética que Gilberto de Mendonça
Teles comemorou em 2005. Para assinalar a data, Eliane Vasconcellos
reuniu no livro A plumagem dos nomes/Gilberto: 50 anos de
Literatura, de 812 páginas, não só poemas dedicados ao poeta – entre
os quais se destacam dois saídos da pena de Carlos Drummond de
Andrade em 1970 e 1971 – como poemas do autor traduzidos para outros
idiomas, além de depoimentos, resenhas e ensaios publicados em
jornais e revistas, prefácios, excertos de teses e dissertações,
entrevistas do homenageado, cartas recebidas e fotografias de várias
épocas.
Que o livro só tenha saído em 2007,
pela Editora Kelps, de Goiânia, com o apoio da Secretaria de Cultura
da Prefeitura local, explica-se pela dificuldade da organizadora em
juntar tão farto material sobre o poeta. Além de textos publicados
em jornais e revistas de todo o mundo lusófono, reúne as
comunicações apresentadas no seminário “50 Anos de poesia de
Gilberto Mendonça Teles”, realizado de 10 a 14 de outubro de 2005,
na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.
Deste articulista, consta a resenha “A
influência de Camões no mundo lusófono”, publicada no suplemento Das
Artes Das Letras do Primeiro de Janeiro, do Porto, de 18/7/2004. De
autores ligados ao Primeiro de Janeiro, consta ainda o prefácio que
Arnaldo Saraiva, professor de literatura brasileira da Universidade
do Porto, escreveu para Falavra (Lisboa, Dinalivro, 1989),
destacando que Gilberto Mendonça Teles pertence à raça dos
poetas-professores, uma linhagem que abriga nomes como Samuel
Beckett, Dámaso Alonso, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira,
Manuel Bandeira e Cecília Meireles, entre outros.
Mas há ainda contribuições de outros
críticos e professores portugueses, como Agostinho da Silva,
Fernando Cristóvão, Jacinto do Prado Coelho e João Bigotte Chorão e
da professora Vânia Pinheiro Chaves, há muito tempo radicada na
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Além, é claro, de
textos de grandes poetas brasileiros como João Cabral de Melo Neto,
Murilo Mendes, Joaquim Inojosa, Ferreira Gullar, Ledo Ivo, Manuel
Bandeira e Ivan Junqueira e críticos e professores como Alceu de
Amoroso Lima (Tristão de Athayde), Afrânio Coutinho, Alfredo Bosi,
Antonio Carlos Secchin, Fábio Lucas, José Guilherme Merquior,
Adriano Espínola, Fernando Py, Leodegário A. de Azevedo Filho,
Silvio Castro e Melânia Silva Aguiar, bem como estrangeiros de
renome como o crítico espanhol Carlos Bousoño, o poeta espanhol
Jorge Guillén, o alemão Curt Meyer Clason, tradutor de Guimarães
Rosa, e a professora italiana Luciana Stegagno Picchio.
II
Gilberto Mendonça Teles nasceu em 1931
em Bela Vista de Goiás, antiga Suçuapara, e morou em várias pequenas
cidades do interior goiano, acompanhando a saga do pai comerciante.
Viveu em Goiás até 1965, quando, já professor experiente, ganhou
bolsa para estudar em Lisboa e Coimbra. Depois, já professor
concursado da Universidade Federal de Goiás, lecionou de 1966 a 1970
no Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro, em Montevidéu, por
conta do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
Foi aposentado em 1969 por ato
discricionário do regime militar (1964-1985) em 1969, o famigerado
Ato Institucional nº 5, tendo se transferido no ano seguinte para o
Rio de Janeiro, onde começou a lecionar Literatura Brasileira e
Teoria da Literatura na PUC-RJ, apesar das investidas da polícia
política da ditadura. A seguir, transferiu-se para Porto Alegre,
onde obteve os títulos de doutor em Letras e livre-docente em
Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul. Em 1983, foi nomeado professor catedrático visitante
de Literatura Brasileira na Universidade de Lisboa, onde ficou até
1985. Depois, transferiu o cargo de professor titular da
Universidade Federal de Goiás para a Universidade Federal
Fluminense, aposentando-se nele em 1990.
Apesar de todo esse périplo, é natural
que a paisagem goiana assuma-se como pano de fundo de boa parte de
sua produção poética. A paisagem, no entanto, é apenas pretexto para
evocar a infância, as lendas do sertão e as figuras que povoaram o
seu tempo de menino, numa poesia que lhe permite homenagear a terra
natal, como o faz em “Lira Goiana”, de Saciologia Goiana, que reúne
poemas escritos entre 1970 e 1981: (...) quero ser como um instante
de arco-íris/ nos olhos das mulheres de Goiás.
Situado arbitrariamente na geração de
45, provavelmente porque em seus primeiros versos ainda convirjam
influências parnasianas e simbolistas, Gilberto Mendonça Teles é um
legítimo representante da geração de 60 não só por uma questão de
idade como por praticar uma poesia impregnada de irreverência,
inconformismo e, especialmente, experimentalismo, como são prova os
poemas de Improvisuais, livro parcialmente inédito até a edição de
Hora Aberta: poemas reunidos, que saiu em 2003 pela Editora Vozes,
de Petrópolis-RJ, com organização de Eliane Vasconcellos e prefácio
(que mais é um estudo introdutório) do professor Angel Marcos de
Dios, catedrático da área de Filologia Galega e Portuguesa da
Universidade de Salamanca, Espanha.
Hora Aberta guarda algumas das experiências mais avançadas já feitas
em poesia – que se confundem com arte fantástica, surrealista, sem
deixar de recordar os experimentos dos concretistas. Lírico assumido
– “No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado”, diz na
abertura do poema “Modernismo” de Cone de Sombras, que reúne peças
escritas entre 1980 e 1985 –, o autor chegou, no 50º aniversário de
sua atividade poética, a um estágio em que seu trabalho já prescinde
dos rótulos e começa a influenciar novas gerações.
III
Ao estrear em 1955, aos 24 anos de
idade, com Alvorada, e publicar logo depois, em 1956, Estrela d´Alva,
ambos em edição de autor, e Planície, em 1958, ainda em Goiânia,
Gilberto Mendonça Teles já despertara a atenção pelo lirismo que
marcava seus versos. Não houve quem, ao resenhar seus primeiros
livros, não saudasse o aparecimento de um poeta lírico e de
aspirações nobres e previsse produções futuras da melhor qualidade.
Com mais de mil e cem páginas, Hora
Aberta, além de abarcar 16 livros, quase todos premiados, inclui
Álibis (2000), Arabiscos (inédito) e Improvisuais, cujos poemas têm
sido divulgados em antologias. Traz na íntegra os dois primeiros
livros, Alvorada e Estrela d´Alva, de que se havia publicado – nas
três edições anteriores – uma pequena seleção, reunindo ainda Poemas
Avulsos, saídos à luz em jornais e revista antes da estréia e, no
fim do volume, Caixa-de-Fósforo, aparecido em 1999.
Ao optar por reunir na abertura suas
produções mais recentes, como as peças de Arabiscos, o autor convida
o leitor, logo de imediato, a conhecer o seu estágio atual como
sinalização autocrítica para o que veio antes. Dessa maneira, é
possível, de modo inverso, acompanhar o percurso de um trabalho que
pode ser dividido em três passagens, como sugere no prefácio o
professor Angel Marcos de Dios.
A primeira compreende o período de
assimilação das técnicas retóricas dos clássicos, românticos,
parnasianos e simbolistas, que corresponderia aos dois livros
iniciais em que o poeta dirige-se ao seu “eu-poético”, voltado
apenas para o seu interior, suas emoções: Deixa rolar no caos do
pensamento largo/ a profunda amargura, o sofrimento amargo/ que
habitam na tua alma entre ânsias sufocadas,/ entre anseios de amor e
esperanças frustradas, diz no poema “Exortação” incluído em
Alvorada.
Versos juvenis, os poemas de Alvorada
trazem em seu bojo as matrizes românticas que presidem as primeiras
manifestações do poeta, como se vê em “Lamento”: Pobre de ti, não
tens uma ilusão sequer!/ Nunca provaste um lábio ardente de mulher/
virgem. Pungentes ais, nem suspiros tiveste/ De um seio de mulher.
Qual sombrio cipreste/ passaste a mocidade à beira de um jazigo,/
desse jazigo obscuro e que trazes contigo/ dentro do coração, onde,
parvo, enterraste/ todo o teu ideal e tudo o que sonhaste. No
artista ainda jovem, surpreende a domínio que exibe da métrica
tradicional, embora nunca deixe de acrescentar aspectos de renovação
aos sonetos.
Já a segunda passagem do itinerário
começaria com Planície, seguindo até Arte de Amar, de 1977, em que o
poeta já se mostra mais preocupado com a linguagem. É exatamente a
fase em que Gilberto Mendonça Teles alcança o reconhecimento como um
dos críticos mais importantes do País, autor de pelo menos três
obras fundamentais nos estudos literários: Drummond – a Estilística
da Repetição, de 1970, Camões e a Poesia Brasileira (hoje na 4ª
edição, revista e aumentada) e Vanguarda Européia e Modernismo
Brasileiro (hoje na 16ª edição), ambos de 1972.
Da segunda etapa, são pelo menos três
grandes livros – Sintaxe Invisível, de 1967, A Raiz da Fala, de
1972, e Arte de Amar, de 1977. De A Raiz da Fala, é o poema “Signo”
em que as experiências com metalinguagem se radicalizam: A tua forma
é o movimento/ da música na fraude do pântano./ O teu rasto, o sinal
cifrado/na linguagem do mar.
Neste período, que duraria quase duas
décadas – pouco mais que o tempo de uma geração, segundo o célebre
critério de Ortega y Gasset –, muitos críticos acreditam que a
poesia de Gilberto Mendonça Teles tenha alcançado o seu maior grau
de transcendência, o que deixaria supor que, a partir daí, teria
entrado em declínio. Essa avaliação, no entanto, não corresponde à
verdade porque é na fase seguinte – a atual – que o poeta aparece
livre de todas amarras e influências, com uma linguagem própria,
inconfundível.
Essa terceira fase, que se refere aos
livros mais recentes, é de uma poesia mais denotativa, com uma
linguagem o menos metafórica possível que busca decididamente a
ironia e o humor. É marcada não só por um retorno à infância como
por um psiquismo doloroso inspirado nas idéias de Gaston Bachelard,
que, aliás, oferece a epígrafe que abre Plural de Nuvens, livro que
reúne poemas escritos entre 1982 a 1985.
Se tudo o que o poeta toca não vira
ouro, a exemplo do Rei Midas, pelo menos se transforma em linguagem:
Tudo em mim é desejo de linguagem, diz o primeiro verso de “Poiética
(fragmento)”, poema de Álibis, de 1997, que bem define a sua atual
fase. Esse verso, aliás, pode ser tido como a metáfora-catalisadora
de sua obra, até porque resume a atitude poética que levou muitos
críticos a considerá-lo o “poeta da linguagem”, epíteto que desde
então o acompanha.
Em “Poiética (fragmento)”, a
contradição entre razão e experiência está posta de forma rigorosa:
(...) minha própria emoção, esta passagem/ à espessura das coisas, o
convite/ ao mais além da sombra e do limite/ e esta confirmação da
realidade/ na plumagem dos nomes, na verdade,/ têm seu lado e
segredo, é pura essência/ do que se fez em silêncio e reticência. O
entendimento não alcança o que vai além do corpo, mas a poesia pode
intuí-lo: (...) a criação se dá quando o perdido/ se transforma em
sinal que alguém atende,/ alguma boa fada, algum duende,/ uma força
maior que nos excita/ a deixar logo alguma coisa escrita.
___________________
A PLUMAGEM DOS NOMES/GILBERTO: 50 ANOS DE LITERATURA. Organização,
introdução e notas de Eliane Vasconcellos. Goiânia: Editora Kelps,
2007, 812 páginas. E-mail: kelps@kelps.com.br
HORA ABERTA: POEMAS REUNIDOS, de Gilberto Mendonça Teles. 4ª ed.
Petrópolis: Editora Vozes, 2003, 1113 páginas. E-mail: editorial@vozes.com.br
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