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Revista de Cultura nº especial II
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Fortaleza/ São Paulo, setembro de 2000
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KEITH JARRETT: AS NOTAS DO ABISMO
Floriano Martins
agkeith1.JPG (5375 bytes)"Eu não acredito em Arte. Neste sentido, não sou um artista. Acredito em Música, entendida como algo que sempre esteve aqui e bem antes de nós. Neste sentido, possivelmente, eu não sou um músico. Não acredito em Vida, mas quem considere com real profundidade a questão também encontrará a mesma chave. Não acredito que eu possa criar, mas sim que possa ser um canal para o criativo." Estas palavras escreveu Keith Jarrett no encarte da gravação de Solo Concerts Bremen/Lausanne (1973). Com este disco tem início todo um conceito radical de improvisação, já anteriormente destacado pelo jazz. Embora já houvesse gravado Facing you, estes dois concertos registrados nas rádios Bremen e Romande (Lausanne) funcionam como pedra-de-toque de uma estética que definiria a importância deste músico.

Keith Jarrett estava então rompendo com o conceito usual de improvisação jazzística, onde se parte de uma melodia dada a ser expandida ao ritmo do estado de espírito do músico que a recebe. Jarrett vai mais além, partindo do princípio de que somente na escuridão é que refulgirá o verdadeiro fogo. Propõe então que se parta de um braseiro, ou seja, que as chamas se entreguem a elas próprias. Busca a pureza do fogo, no caso a pureza da música, não como um modelo a ser cristalizado, mas antes como uma encarnação de seu estado irrepetível. O crítico Lynm Newton disse que parecia algo inconcebível, sobretudo nas primeiras audições, que alguém pudesse improvisar a partir do nada, regido unicamente por um espírito de improvisação.

Não é bem assim. O próprio Jarrett esclarece na sintética declaração que imprime no encarte de Vienna Concert (1992): "Cortejei o fogo durante um longo tempo, e muitas faíscas voaram até o passado, porém a música nesta gravação fala, finalmente, o idioma da própria chama". Não se trata portanto de um devaneio, mas antes de uma visão plena da exatidão, da precisão. Basta pensar um pouco na própria formação deste músico, suas origens buscadas na música clássica e as inúmeras experiências jazzísticas.

Nascido nos Estados Unidos (Allentown, PA) em 1945, de família mestiça, Jarrett mostrou-se um talento incomum para a música desde os três anos de idade, quando começou a tomar lições de piano. Segundo seu biógrafo, Ian Carr, passou a compor a partir dos seis anos. Nesta ocasião, a escola onde deveria iniciar estudos, considerou como de gênio seu QI, o que fez com que partisse adiantadamente do terceiro ano. Espantava a todos sua performance ao piano, sobretudo pelas mãos tão pequenas e afoitas a acordes prodigiosos. Aos nove anos tocou em uma convenção no Madison Square Garden. Aos doze já tocava profissionalmente. Até aqui, vinha de formação clássica. A grande peculiaridade era seu interesse visceral por aprender todos os instrumentos. Na escola chegou a tocar sax soprano, bateria e violão.

O jazz veio como uma conseqüência desses anos juvenis. Jarrett vivia então a obsessão da aprendizagem. Isto o conduzia a estudos cujos custos estavam além de suas possibilidades. Tocar na noite foi uma opção gratificante. Art Blakey o ouviu e logo o convidou para integrar seu New Jazz. Pouco depois passou a integrar o Charles Lloyd Quartet, um dos mais considerados grupos de jazz naquele momento. A seqüência incluiria inúmeras particularidades, entre elas um convite de Miles Davis para compor sua banda – quando então tocou com Chick Corea. Nesta época conheceu também outro grande músico, Gary Burton.

agkeith2.JPG (20260 bytes)Estas são as movimentações que o levaram a estabelecer uma espécie de tríptico em seu tratamento com a música: a inicial formação clássica, sua experiência jazzística e a essencialidade de uma assinatura estética. Certamente que haver conhecido o produtor Manfred Eicher – da gravadora ECM – foi o mais feliz acontecimento de sua vida. Aos 28 anos de idade Jarrett começa a registrar em disco sua inusual proposição de criação artística. Neste mesmo período formou seu primeiro grupo, um quarteto que contava com Jan Garbarek (sax tenor), Palle Danielson (baixo) e Jon Christensen (bateria). As gravações se sucedem, em um total de seis discos, entre eles My song, Eyes of the heart e Personal Mountains, todos na segunda metade dos anos 70.

Nesta época Jarrett também começa a registrar suas composições clássicas, peças para quinteto de metais, quarteto de cordas, fugas e uma peça para violão e orquestra de cordas cuja interpretação é do violonista Ralph Towner. Estas peças foram todas gravadas em um CD duplo: In the light. Há também uma notável peça para sax e orquestra de cordas, que traz Jan Garbarek como solista: Luminessence, verdadeiramente uma ousadia, tendo em vista que ao solista é exigido o desafio da improvisação sobre a partitura preparada para a orquestra.

Jarrett é contemporâneo de músicos fundamentais que registraram a improvisação em seus trabalhos: de Art Tatum à New Age, passando por Miles Davis, Charlie Parker, John Coltrane, Herbie Hancock, Chick Corea, Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal. Suas idéias de improvisos jazzísticos, destacadas em discos de trio ou quarteto, salientam uma necessária diversidade no conceito da música com que lida. Estas são, contudo, as idéias norteadas pela presença de um grupo. Segundo ele próprio, aí o músico tem que procurar conviver com o estado de espírito de seus pares. Trata-se de comunhão, do exercício de dialogar com a paixão alheia. Não se busca audiência para si mesmo e sim para um completo registro de afinidades.

Ao visitar Bach, Shostakovich ou Goldberg, por outro lado, não o fez movido pela grandiloqüência, mas sim por uma identificação. As fugas são uma primeira noção de improviso, neste sentido encarnado da paixão que Jarrett define em seu trabalho. As fugas guardam em si o silêncio de vibrações interiores. São como o registro de uma religiosidade sedimentada, apreendida. A aparente clareira das fugas de Bach guarda em seu íntimo uma dicção de recolhimento que busca expandir-se através das vibrações, das preces, do alcance salmódico de sua chama. Jarrett acaba questionando um aspecto mais extenso: o que temos produzido hoje, todos nós, define-se pela seqüência de um diálogo ou pela afirmação de que não haverá amanhã?

agkeith3.JPG (19416 bytes)Um dos mais recentes concertos registrados de Keith Jarrett é La Scala, dado em 1995, porém só registrado em disco no final de 1997. O disco traz uma particularidade rara: o bis incluindo a canção "Over the rainbow", uma leitura envolvente que remete a um Jarrett tomado pelo alheio – a exemplo do que antes já houvera feito com "The wind", em Paris Concert (1990). Refiro-me a isto pelo fato de que ele próprio defende a criação como uma "recepção", uma "carnação", enfim, uma "identificação". Jarrett propõe uma insólita conexão entre o piano tocado atrás e o piano tocado hoje. Uma sombra entregue a seu feixe de luzes. La Scala traz um Jarrett profundamente inspirado, em uma partitura repleta de politonias e atonalidades, fragmentos de baladas, salmos, minimalismo desconcertante, passagens melódicas realçadas por intenso romantismo, com todo o virtuosismo que lhe é peculiar.

Além deste concerto, Jarrett registrou em disco várias outras seções de improvisação, sendo a mais conhecido o The Köln Concert (1975), que é também o único caso em que o pianista permitiu a transcrição dos originais. Outros trabalhos igualmente importantes são Staircase (1977) e a caixa com seis CD’s Sun Bear Concerts, este último uma série de concertos realizados no Japão em 1976. Jarrett também gravou alguns discos que lhe conferem a paternidade do que se convencionou chamar New Age, embora jamais tenha reclamado para si tal aspecto. Esses discos importam mais pela utilização de instrumentos como o cravo e o órgão de tubos. Entre eles destacam-se Invocations/The moth & the flame (1976) e Book of ways (1986).

Quanto ao jazz, nos anos 90 surge a nova formação de um trio, desta vez acompanhado por Gary Peacock (baixo) e Jack DeJohnette (bateria). Após inúmeras apresentações, em repertório escolhido ao acaso no cancioneiro popular estadunidense, gravam discos como Stille live e Standards (vols. 1 e 2). São discos que naturalmente possuem a marca inconfundível do pianista, marca que possui um caráter profundamente religioso, ao desvelar uma escritura mística, uma maneira de encarnar a arte com toda a força do espírito. O próprio Keith Jarrett nos diz: "Se eu pudesse chamar a tudo o que fiz de Hino, isto seria o mais apropriado, porque é isto o que são quando estão corretas".

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