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Revista de Cultura nº especial II
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Fortaleza/ São Paulo, setembro de 2000
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PETER GREENAWAY: O UNIVERSO COMO METÁFORA
Eric Ponty
aggreenaway1.jpg (8464 bytes)Existem duas diferenças claras entre os cineastas Peter Greenaway (A última tempestade e Livro de cabeceira) e George Lucas (Guerra na estrelas) que são as diferenças entre a arte e o entretenimento.

Um paralelo interessante seria compará-los entre Gustav Flaubert (Madame Bovary) e Alexandre Dumas (Os três mosquiteiros), isto porque o segundo tem a técnica de um mestre, ao usar a técnica do entretenimento, sem obrigar ao leitor-espectador a fazer quaisquer peripécias para captá-lo, enquanto que o primeiro é o mestre da técnica e obriga ao espectador a fazer o mesmo trajeto da arte para captar as nuanças de uma nova perspectiva técnica. 

Segundo Ivana Bentes, Peter Greenaway é "o cineasta-pintor-videasta-instalador [que] faz, assim, um cinema antinaturalista, onde o mais importante não é a narração nem a história, mas a estrutura que as sustenta. A surpresa é que esta mesma estrutura é freqüentemente tão arbitrária quanto todo o resto, e, no entanto rigorosamente construída. Como em um jogo, resta ao espectador descobrir ou inventar uma chave ou regra de leitura do filme." Ou seja, ao utilizar-se deste recurso, o cineasta está criando uma obra de arte de duas mãos, ao obrigar ao leitor-espectador ter sua própria captação da realidade ali expressa. 

No ensaio sobre A última tempestade, Steve Marx faz as seguintes considerações: "com este trabalho, acredito eu que a peça é baseada no Livro de Gênese, eu descobri conversações e ligações que deram uma nova vida ao filme para mim. Em um comentário caprichoso, incluído no enredo publicado, implica que a fonte do filme de Greenaway é um tomo imaginário: Este é o livro-exemplar, o modelo para a imagética de Prospero que, neste livro, que é um primeiro livro de ensino da educação de humanista, povoa a ilha como uma máquina fotográfica que detém o Grande Livro de Mitologias e o título do filme Os livros de Prospero é superposição. Entretanto, a Bíblia nunca é mencionada com relação a este livro de fonte de histórias sobre deuses e heróis, e era muito como um primeiro livro de ensino de educação humanista, como o clássico grego e romano. E, entretanto, referências explícitas à Bíblia são raras no filme e na peça de Shakespeare. O espetáculo serviu, de fato, como um só modelo gerador. O Prospero de Greenaway foi dividido em 24 livros: nenhum livro a mais e nenhum livro de menos. Há 24 livros na Bíblia hebréia que são tradicionalmente associados aos 24 anciões circunvizinhos ao trono de Deus no Livro de Revelação. O Livro de Revelação é o mais provável candidato bíblico para modelo de A Tempestade e dos Livros de Prospero, por causa das representações compartilhadas da dissolução do mundo e a dissolução de formas discursivas convencionais." Ou seja, a narrativa greenawayana pede o tempo inteiro que o leitor-espectador faça este mesmo trajeto para a construção de seu próprio filme (narrativa).

aggreenaway2.JPG (27790 bytes)Segundo Floriano Martins, a propósito de exposição que o cineasta inglês nos proporcionou no ano passado, "a exposição de pinturas, desenhos e collages de Peter Greenaway frustra quem o conhece apenas no cinema e mantém por este artista especial consideração crítica. Frustra, porém ajuda a definir sua contribuição estética. A frustração vem do fato de que sua obra plástica trata-se tão-somente de anotações para a constituição dos filmes. Neste sentido, podemos recordar os desenhos de Federico Fellini que compõem suas marcações de cenas cinematográficas. Em tal particular há uma indiscutível riqueza maior nos esboços do cineasta italiano. Já o aspecto da definição salienta […] uma inclinação para a escritura, antes mesmo de uma constituição fílmica. Caso idêntico encontramos nas anotações em versos que um outro italiano, Pier Paolo Pasolini, fazia de seus mais ousados projetos cinematográficos. Nos dois casos, a presença de uma escritura (poética) antecede a buscada autonomia visual.". Ou seja, quem viu aquela medíocre exposição lembra-se, como eu, da terrível sensação de frustração, pois este não estava representado como artista, mas apenas como esboço de.

Gustave Flaubert (1821-1880), o grande romancista francês da escola realista, sempre foi elogiado por sua objetividade e seu esmerado estilo, mas sempre teve a consciência de um artista, mesmo ao usar de uma técnica legível, este inova nos ângulos de visão do romance, como em Madame Bovary (1857), ao criar um realismo que choca (com propriedade) a sociedade da época.

Se Gustave Flaubert tivesse optado por ser um artista menor poderia ter ficado aí com seu romance acrescentando apenas Salammbô (1863), A tentação de Santo Antão (1874) e L'Éducation sentimentale (1870). Porém, este escreve Três contos (1877), onde funda novamente um outro experimento narrativo, ao qual acrescentaria seus dois trabalhos editados postumamente, que são, ao meu ver, suas obras maiores: o inacabado romance Bouvard e Pécuchet (1881) e seu complemento, o Dicionário dos lugares-comuns (1913), porque estes não se bastam em retratar apenas o mundo, mas buscam transformá-lo em uma nova consciência metafórica do mundo.

George Lucas (1944) diretor e produtor de cinema norte-americano, realizou, entre outros filmes, Loucuras de verão (1973) e Guerra nas estrelas (1977), que revolucionou a indústria de cinema comercial. Foi produtor executivo dos dois filmes que completam a trilogia: O império contra-ataca (1980) e O retorno de Jedi (1983), além de Ameaça Fantasma (1999), que é uma nova série sobre Guerra nas estrelas. 

George Lucas se inspirou principalmente em Joseph Campbell, e em seu livro O poder do mito. Com este elemento nas mangas, o diretor já pega uma boa parcela do público inconscientemente, recorrendo à velha forma do cinema de entretenimento angariar as massas e a bilheteria. Este novo filme não passa de uma releitura dos episódios anteriores como em uma boa novela já clássica em que são modificados alguns elementos narrativos, mas a estrutura permanece a mesma. Ao basear-se em Joseph Campbell, deixa bem claras as suas intenções mercadológicas, bastando citar, por exemplo, seu filme de estréia, ao meu ver ainda seu melhor filme: TXH380

Enquanto o cinema puder ganhar em cima destes mitos coletivos poderá se fazer até uma saga que se passe, por exemplo, em um universo em cima da geladeira, pois o que está ali não é o seu conteúdo, mas antes o fato em si mesmo como mascaramento dos antigos elementos da coletividade universal. 

aggreenaway3.JPG (23905 bytes)O Romancista e dramaturgo francês Alexandre Dumas (1802-1870), mais conhecido como Dumas, pai. É o grande mentor dos romances históricos de entretenimento, como Os três mosquiteiros (1844) e o farsesco O conde de Montecristo (1844), que vêm pegando várias gerações deste que foram escritos. Aliás, sabe-se que este escritor usava do talento de outros escritores para escrever seus livros, e que estes somam em 1.200 volumes como uma prolífera indústria da pena que se utiliza dos arquétipos para assim constituir seus modelos.

O cinema de Peter Greenaway abunda em referências que não se esgotam como signos, mas é um grande leque de possibilidades como se este estivesse todo o tempo refazendo a linguagem do cinema e precisasse de um novo espectador (uma nova visão) a cada película projetada na tela.

Enquanto o cinema de George Lucas necessita de um novo hardware e software a cada filme, para colocar a alta tecnologia para narrar a mesma história, este já não precisa de um novo espectador porque repete os mesmos arquétipos, utilizando-se de todas as armas artesanais para que a verdade ali expressa seja uma realidade.

Desde que o entretenimento é entretenimento, um filme como Metrópoles de Fritz Lang é ainda mais moderno que este tipo de filme de ponta, porque é belo como metáfora (coisa que a industria cinematografia odeia). 

O problema que difere os dois cineastas não é a tecnologia empregada. Peter Greenaway, em A última tempestade, usou o que havia de mais moderno (grande arte, como a de um Gustave Flaubert), da mesma forma que George Lucas recorreu ao que havia de mais de ponta para narrar A ameaça fantasma (grande entretenimento, como em Alexandre Dumas). Os dois filmes diferem da qualidade na estrutura narrativa e na possibilidade de um ser uma metáfora ou apenas mais uma variação de um arquétipo.

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