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Rodrigo
de Souza Leão
Comecei a fazer música porque gostava muito de ler e ouvir rádio. Desde pequena já escrevia pequenos contos e fazia umas canções de forma intuitiva. Um dia tomei coragem e fui cantar na TV Ceará com alguns amigos. Descobri, aos 12 anos, que era isso que eu queria para o resto da vida. Na época, o punk ganhava o mundo e me juntei aos amigos Sigbert Franklin e Lúcio Ricardo para fazer o nosso rock from Ceará. Era tudo muito divertido, absolutamente underground. Mas com tantos shows acontecendo, fomos nos profissionalizando. Ganhamos um espaço na mídia cearense, fizemos shows em cidades vizinhas. Ficamos amigos do Pessoal do Ceará (grupo de músicos que despontou nos anos 70, como Ednardo, Téti e Rodger, Ricardo Bezerra, Petrúcio Maia, entre outros). Depois nos dispersamos, infelizmente. Eu fui fazer faculdade de
comunicação, trabalhei em jornal, rádio (tinha um
programa na Rádio Universitária FM), televisão e agência
de propaganda. Começou a ambigüidade, a vontade de cantar e
compor, mas havia também a necessidade de sobreviver, claro. No
final da faculdade fiz um single independente com a cara, a coragem e a
ajuda de alguns amigos. Fiz uns shows em Fortaleza que até hoje
as pessoas me relembram, o que me deixa muito feliz. Daí meu mundo
em Fortaleza começou a ficar pequeno e eu arrumei minhas malas para
São Paulo. As oportunidades no jornalismo foram maiores e melhores.
Fiquei escrevendo e pensando em música, tentando encontrar um jeito
de voltar a cantar, compor. Conheci músicos paulistanos, fiz músicas
em parceria com os guitarristas Sérgio Cruz e João Alberto.
Formamos uma banda, mas curiosamente nunca fizemos shows. A gente só
ensaiava. Não dava mesmo para editar jornal e tocar. Em 91 fui conhecer
Londres e na volta decidi que ia voltar definitivamente a fazer música.
Mas isso só foi se concretizar em 95 quando produzi meu primeiro
CD solo. Esse disco tem músicas que vinha fazendo por todo esse
tempo, como Imagine Nós, Cor de Sonho, um hit nas rádios
de Fortaleza. Mas Cinema Noir tocou bastante em São Paulo, um pouco
no Rio e Minas Gerais. Desde então venho dando muito duro para divulgar
minhas músicas. Uma das melhores formas é fazer shows. Fiz
muitos shows por todo o Brasil nestes dois anos do primeiro CD. Não
há nada mais legal do que está no palco. Recomeço
tudo agora com meu novo disco, Cenas & Dramas, produzido por André
Magalhães e Alvaro Faria. Novas canções, nova banda,
novos amigos, novos lugares. Tem melhor?
Mona é um nome forte e com Gadelha fica ainda com mais força. Como surgiu o seu nome? Mona é meu apelido
de adolescência. Meu avô, que era cearense, dizia que Gadelha
tem origens espanhola e portuguesa. Tem uma história interessante
sobre o meu nome artístico. Uma vez cantando num festival de música
na praia, em Fortaleza, Alceu Valença sugeriu que eu adotasse Mona
Gadelha. Talvez ele nem lembre disso. Mas ficou.
Não pensei muito na
formação. Foi surgindo naturalmente. Tenho muita vontade
de experimentar formatos diferentes. Já tive percussão na
banda. Não tinha tecladista, agora tenho. Gosto muito de mexer nas
coisas, sou inquieta. Agora, é claro que financeiramente é
mais fácil tocar com um grupo pequeno.
O CD é uma tentativa, espero que bem sucedida, de se inserir no mercado pop? Você pensou em algum público específico quando fez a seleção de repertório? Não pensei no mercado
quando estava criando. Essa preocupação vem depois, e isso
é muito complicado. As pessoas tendem a colocar as cantoras num
balaio só. Como se cantora fosse um estilo. Não têm
muita paciência para ouvir com calma cada uma e ver que existem aquelas
que compõem, as que são rockeiras, as que são transgressoras
etc. Entrar nesse mercado é briga de Davi e Golias. Ainda mais quando
você é uma artista independente.
Há uma variedade de gêneros, estilos dentro do seu trabalho. Quais são as sua influências? Quais músicos estão presentes em Mona Gadelha quando ela canta? Os músicos que mais
me influenciam são os inquietos, angustiados, incompreendidos, os
poetas. Tem uma lista imensa. Acabei de ver um show de Marianne Faithful
em São Paulo. Sem dúvida que ela é uma referência.
Também John Lennon, Joni Mitchel, Janis Joplin, Lou Reed, Mutantes,
Tom Jobim, Rita Lee, Jimi Hendrix, Leonard Cohen, John Cale, Radiohead,
Morrissey…
Você diz, em O amante: "já disse que não vou abandonar o meu lar", e, em Johnny você vai a guerra: "Vou provar a vida sem rumo". Até quando deve existir um relacionamento amoroso? Quando é necessário sair de casa?, ficar em casa? O relacionamento deve durar
enquanto não pintar o tédio que, como dizia Oscar Wilde,
é o maior pecado. Saí de casa cedo porque senti necessidade
de ficar mais livre. Mas é difícil, um processo às
vezes traumático, pelo menos para mim.
Tem muitas canções
do Lobão de que eu gosto. Fiquei entre Por tudo o que for e Chorando
no campo, que também é igualmente bela. Gravo e canto músicas
que tenham a ver comigo, que eu goste de ouvir.
Suas letras falam de amor: Para indagar com uma deles: "só cama é muito pouco"? Depende. No caso da música
Ouvindo o Coração, de onde essa frase foi retirada, a paixão
é muito grande, por isso que só cama é muito pouco.
Você considera letra de música poesia ou é uma confissão bem feita? É legal quando uma
letra é tão boa que pode ser um poema. Tem centenas de casos
assim. Mas a letra faz parte da canção, foi escrita para
essa função. É diferente.
O jornalista Xexéo, do O Globo, disse que hoje em dia seria impossível aparecer um compositor com a qualidade de um Chico Buarque, isso devido à falta generalizada de apoio e também devido à ausência de renovação. Qual seria a solução para uma maior divulgação da música de qualidade? É utopia, mas a solução
seria a melhor distribuição de oportunidades na mídia.
Rádios que tocassem mais gente nova e não só os listões
das grandes gravadoras.
Um LP que custava cinco reais é, hoje, um CD que não sai por menos que 17 reais. A passagem do vinil para o CD não foi um golpe mercadológico? As novas tecnologias são
um fato, não dá para voltar, e eu prefiro ficar com os benefícios,
embora tenha CD e LP. Quanto ao preço do CD, também acho
caríssimo. Pode ser bem mais barato. Chego a vender os meus em shows
a R$ 10,00 só para possibilitar a compra por parte de mais pessoas.
Você utiliza o computador para compor? Qual uso faz da Internet? Ainda não, mas tenho
muita vontade. Quanto à Internet, não vivo mais sem ela.
Uso intensamente. Neste momento, é o melhor meio para divulgar discos
independentes.
Qual deve ser a função do músico para a sociedade? Principalmente divertir. Se desse para ajudar a refletir e transgredir, também seria ótimo. |
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