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Rodrigo de Souza Leão
Até Poesia Reunida e Inéditos, seu recente livro, decorrem 32 anos de literatura. Quais foram as pedras, as perdas do caminho? Na verdade, bem mais de 32
anos, pois escrevo desde a infância. De textos que foram incluídos
em livro, 33 anos. As pedras do caminho foram muitas, pois ser escritor
vivendo no Nordeste não é brincadeira. Digo vivendo
porque, ao contrário de muitos, nunca saí da Bahia. Se para
autores do eixo Rio-São Paulo é difícil, pois sei
que é, imagine para quem vive fora do principal circuito literário
sem contatos, sem editoras, sem divulgação. Mas acabei
fazendo contatos, sendo aceito por editores, críticos, outros autores,
leitores. Uma boa ajuda: os prêmios literários: ganhei o Cruz
e Sousa, de poesia, em 1981, e fui um dos três premiados (2º
lugar) no Prêmio Rio de Literatura, de romance, em 1985, além
de ter recebido várias outras premiações, sendo a
última o Prêmio Ribeiro Couto, da UBE, pelo livro Memória
da Chuva, o qual foi adotado no vestibular da Universidade Federal
de Goiás, em 1998, e se encontra na terceira edição.
Quanto às perdas, creio que tantas quanto as pedras: de oportunidades,
um número incalculável. Além daquelas perdas que a
vida nos traz com o passar dos anos, as perdas do afeto, do amor, da juventude...
Em Os Objetos, todos os objetos inanimados receberam a alma da ação. Só o revólver aguarda. O que o poeta deve matar? O que o revólver, dormindo
na gaveta sob cartas e poemas, aguarda? É um símbolo da explosão,
da violência, da morte. Mas o que significa, mesmo, depende de cada
leitor. Talvez a grande solução do suicídio...
O poeta é um criador de palavras? Há perigo de um neologismo tornar-se um trocadilho bobo? O poeta pode ser, ou não,
um criador de palavras. Drummond diz, num poema, ter inventado certas palavras
e tornado outras mais belas. Mas o fundamental para o poeta não
é criar palavras, mas com elas de preferência com as palavras
mais simples ser capaz de criar poesia. Quanto ao neologismo, pode, sim,
tornar-se um trocadilho bobo caso o poeta seja, na verdade, um trocadilhista
bobo... Em si, os neologismos são enriquecimento da língua.
E o trocadilhista bobo, para fazer das suas, não precisa se esforçar
para criar neologismos, pode produzir trocadilhagens com as velhas palavras
de sempre, inclusive as arcaicas. Aliás, as palavras não
podem ser responsabilizadas pela indigência mental de ninguém.
A sua poesia é uma "ode ao tempo". Muitos poemas tentam a descoberta do tempo perdido. Há uma valorização maior do passado, como terreno da liberdade e da modificação. Só as coisas que passaram podem ser modificadas. Não é o futuro o tempo da mudança? Realmente, vários críticos
já me chamaram de "poeta da memória". Mas, então,
me caberia perguntar: qual não o é? Vejam Drummond: lá
estão Itabira, a infância, a memória familiar, a marca
forte de Minas. Vejam Manuel Bandeira: a presença do Recife, da
infância, da mocidade de esperança, desesperança e
tísica. Vejam Jorge de Lima e sua infância se alastrando por
toda a sua obra poética. Aliás, Jorge de Lima disse certa
vez que seu único tema era a infância. Até mesmo João
Cabral, com toda a sua pose pétrea, é um memorioso: os rios,
os engenhos, a caatinga... Falando de mim, o que sei é que a única
coisa que possuo é a memória. O presente é o que acabou
de passar. O futuro... Bem, o futuro é uma projeção,
uma possibilidade. Quando se realiza, não se realiza. Ou seja: deixa
de ser futuro. Bandeira escreveu num poema: "O futuro diz o povo que a
Deus pertence./ A Deus... Ora, adeus!"
"No tempo perdido/ recupero, enfim,/ tudo o que perdi/ no meu tempo ganho", em Tempo Perdido. O passado é o refúgio do poeta que cria realidades? Não sei se o passado
é um refúgio, o que sei é que ele se impõe.
Está em mim, como creio que está em todo mundo. Há
quem considere o passado uma espécie de mundo perdido quando,
na verdade, é o único mundo que realmente se possui, como
já disse antes, ao falar da memória. Mas aquele "tempo perdido"
a que me refiro no poema citado não pretende ser o do passado
mas aquele outro que "perdemos" no dia-a-dia com nossas distrações,
nossos sonhos, nossas vagabundagens de alma... Mas, é claro, o leitor
tem direito de ler como quiser, de fazer sua própria leitura.
O presente é o terreno para mudar o passado, como diz em Revelação: "Ai que somos felizes/ agora/ mas não tanto/ como amanhã, no passado"? Bom, eu acho é que
só nos tornamos conscientes da nossa felicidade depois. Não
mudamos propriamente o passado. Há dois versos de Pessoa que põem
bem a questão: Eu era feliz? Não sei:/ Fui-o outrora agora.
Quer dizer: agora é que ele está sendo feliz outrora. Mas
não quer dizer que a nossa felicidade outrora tenha mesmo
acontecido. O que importa é que ela tenha acontecido outrora agora.
O que importa é o que sentimos, o que consideramos verdade, mesmo
que nunca tenha acontecido. A memória é fabulosamente ficcionista,
não devemos nos esquecer desta característica, que talvez
seja a sua característica principal.
O azul é uma cor eleita? Como surgiu a "predileção poética" por esta cor que está em muitos poemas? (Alguma influência simbolista?) Nunca me fiz esta pergunta.
Penso que o azul é, em minha poesia, menos uma cor que um símbolo,
um meio de expressar, talvez, a paz, a serenidade, a profundidade, algo
mais vasto e profundo. Seja como for, talvez eu necessitasse refletir mais
sobre o assunto. Quanto a alguma influência simbolista, não
sei. Sofri a influência de todo mundo que leio, certamente também
alguma dos simbolistas. Mas, é claro, o azul é de todos,
não só dos simbolistas... Um poeta cheio de azuis é
o Carlos Pena Filho, de Pernambuco, grande sonetista. Outro repleto de
cores é o Sosígenes Costa, da Bahia. E eu sempre li bastante
estes dois poetas.
"Cuidadosamente/ o anjo do computador/ enumera/ os meus pecados". Este trecho de Bilhete a Mário Quintana anuncia a computação. O que mudaria na internet? Quais os sites que mais visita? O que a rede dá a um poeta consagrado como Ruy Espinheira Filho? É um poema que está
em meu segundo livro, escrito entre 1966 e 1976. Portanto, uns vinte anos
antes de eu usar computador. Por que, então, falei em computador?
Não sei. Mas tratava-se de um computador especial, pois nele havia
um anjo... O que mudou foi a agilidade no trabalho que se acelerou. A
correspondência também ganhou velocidade, assim como os contatos
se multiplicaram. Quanto a uma influência na criação
literária, acho que não houve. Eu escrevia prosa na máquina
de escrever. Poesia, só à mão. Agora, escrevo prosa
no teclado do computador, e poesia... à mão. E não
sou um navegante da internet, prefiro ler. No mais, não sou poeta
consagrado coisíssima nenhuma! Consagrados eram Bandeira, Drummond,
Cabral e uns outros poucos, pouquíssimos.
Manuel Bandeira, no Itinerário
de Pasárgada, diz que sofreu influência de todo mundo.
É o que acontece comigo: acho que, de uma forma ou de outra, todas
as leituras me influenciam. Até os autores muito ruins, pois com
eles aprendo como não escrever... Alguns críticos
já aproximaram minha poesia da de Bandeira; outros, de Drummond.
Claro que sou leitor constante desses dois grandes, mas sem dúvida
bebi em muitas outras fontes a começar por Camões, passando
pelos românticos. Aprendi até mesmo com Olavo Bilac, que considero
o nosso maior parnasiano, embora minha poesia não tenha nada de
parnasianismo, ao contrário das "vanguardas" que sugiram a partir
de 1945 (Geração de 45, concretismo, neoconcretismo, praxismo,
poema-processo, construtivismo e que tais, todas hoje felizmente devidamente
extintas). Enfim, sou herdeiro da tradição da poesia ocidental.
Talvez incompetente para administrar tão rica herança...
Você é um poeta caseiro? O espaço onde os seus poemas ocorrem é o da casa? Fale sobre. Sou um homem caseiro. Mas
os poemas me ocorrem em qualquer lugar. O inconsciente não avisa,
a criação pode emergir a qualquer momento ou ficar longo
tempo sem dar sinal de nada. Não sou de ficar forçando a
barra, o que só produz bobagem. Sigo os conselhos de Drummond: não
adulo o poema nem recolho do chão o poema que se perdeu. Na verdade,
já era assim mesmo antes de ler Drummond.
A sua linguagem é simples, sem rococós, hermetismos e firulas. A simplicidade discursiva é uma busca eterna? Escrever com simplicidade
é o que há de mais difícil. Não há nada
que impeça que algo seja, ao mesmo tempo, simples e profundo. Os
grandes poetas são simples, a começar de Homero. As tais
"firulas" a que você se refere são coisas de poetastros. E
o hermetismo é, quase sempre, malandragem de quem não tem
o que dizer. Ou não sabe dizer o pouco que talvez possa ter. Agora,
há poetas que são complexos, devido ao seu discurso, mas
complexidade é outra coisa, nada tem a ver com "firulas" e hermetismos:
apenas exige do leitor mais reflexão, mais apurada sensibilidade,
assim como alguma cultura. Eu citaria, para este caso, como exemplo, Eliot.
No poema Uma Cidade, tudo contém uma idéia oposta. Também em Inúmero há: "E na origem/ da luz talvez não haja/ senão a ausência da estrela". A dualidade é poesia em estado bruto? Não vejo isto em Uma
Cidade. A imagem que você cita, de Inúmero, não
é, a meu ver, uma colocação de opostos. Arrisco-me
a racionalizar um pouco e dizer que procurei aproximar a vida, repleta
de ilusões, do fenômeno da luz que continuamos a ver mesmo
quando a estrela que a emitia já não existe mais. Ou seja:
a estrela que vemos não é estrela, não é mais,
é apenas a sua luz, que continua viajando pelo espaço. Se
fizéssemos uma viagem através dessa luz, em sua origem já
não encontraríamos estrela alguma. Podemos dizer que essa
luz não é mais do que uma "memória" da estrela.
"Eu sou um menino/ contendo um homem que contém/ um menino". O que o poeta tem de lúdico? O Ivan Junqueira, num estudo
sobre a minha poesia (incluído no livro O Fio de Dédalo,
recentemente lançado pela Record), começa destacando o ludismo.
Sim, há algo de lúdico aqui e ali, mas penso que a minha
poesia e o próprio Ivan frisa isto é muito mais marcantemente
melancólica, elegíaca. No meu próximo livro, ainda
em preparo, aparecerão, na parte final, alguns poemas bem-humorados,
mas a maior parte da obra se caracterizará pelo lirismo elegíaco
de que fala o Ivan.
"Todo amor está perdido/ ao nascer". É o verso de abertura do poema Do Amor. É possível ser e não ser ao mesmo tempo? Não sei se entendi
bem a pergunta. Bom, acho que sim porque ninguém nos garante que
o que julgamos ser é de fato o que é. Somos, sobretudo,
o que sonhamos, o que nos transforma parcialmente em sonho. A vida é
sonho, disse Calderón, creio que com muitíssima razão.
Todo amor está perdido/ ao nascer... Na verdade, tudo está
perdido desde a sua origem. Tudo caminha para isto: perder-se. Inclusive
a vida.
Ainda neste poema, Do Amor, o que fica de um amor são destroços e o que não foi dito e o que não foi feito? Somos sempre uns destroçados.
E os destroços ficam um pouco, boiando na superfície, depois
também desaparecem. Mas só desaparecem, todos esses destroços,
quando desaparecemos. Qualquer pessoa que se examine bem só quase
vai encontrar destroços.
Falar do poema no poema é o futuro da poesia? Espero que não. Se
for, significa que a poesia não tem futuro... Pode-se tratar da
poesia no poema, exercitar a metalinguagem, mas ficar nisto é extrema
pobreza. Já pensou se Homero, em lugar de tratar dos deuses, da
guerra, de Ulisses e Cia., ficasse falando do seu fazer poético?
A poesia, no meu entender a poesia e toda arte -, deve expressar a vida,
a condição humana. Poesia não é truque, não
é jeitinho, não é receita. Por falar em receita: quem
quiser que leve a sério a Filosofia da Composição,
de Poe, e tente fazer seu O Corvo... Nada me irrita mais, hoje,
do que pegar num livro de jovem autor e encontrar as lamúrias (porque
geralmente estão se lamuriando, impotentes, incapazes de criar)
do fazer poético. Ao contrário do que dizem os formalistas,
nós não fazemos arte meramente com técnica mas,
sobretudo, com o que somos. A técnica é o que, como
dizia Mário de Andrade, pode ser ensinado. Qualquer um pode aprender
técnica, mas só faz poesia quem, além de conhecer
a técnica, é poeta. E ninguém pode ensinar
ninguém a ser poeta.
O Alexei não diz isto
sobre a poesia brasileira como um todo mas a respeito de certa poesia,
exatamente a poesia dos formalistas: concretistas, neoconcretistas, construtivistas
et caterva, que são todos neoparnasianos. Aí, sim,
é puro cocô de cabrito. E esses caras ficam produzindo isso
e dizem que se trata de rigor. Confundem verso longo com discursivismo
e verso (ou que nome tenha) curto com síntese. É a pobreza
mental em toda a sua pujança.
O poema Aniversário é sobre a perda. "Perdi colegas, namoradas, cães./ Perdi árvores, perdi um rio/ e eu mesmo nele me banhando". O rio é uma perda eterna já que, por Heráclito, ninguém passa pelo mesmo rio duas vezes? Pois é, novamente a
perda na minha poesia... A imagem do rio é perfeita: ninguém
se banha no mesmo rio duas vezes. Tanto por não ser mais o rio o
mesmo, porque flui, quanto por também a pessoa fluir, mudar-se continuamente
em si. Como vê, minha poesia é mesmo muito melancólica.
Não é uma atitude intelectual: é que a vida é
assim...
Tudo o que um bom poeta escreve é pensado, projetado, articulado ou o inconsciente fala mais alto e há uma conexão divina para inspirar o momento de escrever o poema? Como é o seu processo criativo? Sendo um agnóstico,
não posso aceitar a conexão divina. Mas sei que Anima
canta e que é do seu canto que vem a arte. Que não é
só um canto espontâneo, tem que passar pela crítica.
Fernando Pessoa fala de harmonia de idéia e emoção.
Há um verso dele que expressa perfeitamente a coisa: O que em
mim sente stá pensando. Meu processo criativo é igual
ao de todos, em linhas gerais: impulso e crítica. Ninguém
consegue fazer arte apenas com o intelecto, com a inteligência e
técnica, pois assim qualquer pessoa inteligente e culta seria artista.
Todo mundo é capaz de aprender o que pode ser ensinado, como
dizia Mário, mas só os artistas produzem arte. Só
os que atingem aquela harmonia de idéia e emoção.
Ninguém decide ser artista: ou se é ou não
se é. Não é escolha é condição.
Porque o artista é, ainda lembrando Mário, um fatalizado.
"Uma vida não dá/ para contar/ uma vida", versos de Poema de Novembro, mostram a incapacidade humana de abarcar o tudo. O poema pode ser considerado mais profundo e autobiográfico do que algumas autobiografias? Como falei antes, escrevo
com o que sou. Como todo poeta, ou artista, produz. Posso imitar
Bandeira, ou Drummond, mas não posso fazer a poesia deles simplesmente
porque não sou Bandeira nem Drummond. Não vivi a vida deles,
não possuo as suas digamos - idiossincrasias. Repito: não
sou eles, sou o que há de mim, apenas. O poema, a meu ver,
é sempre, de certa maneira, autobiográfico porque você
o produz com o que você é. Só os imbecis que, infelizmente,
são em grande número é que podem pensar que a arte
se faz com mera aplicação de técnicas. Aristóteles
mostrou bem a diferença entre Empédocles, que escrevia ciência
em versos, e Homero, que fazia poesia. As técnicas são o
meio mas não a fonte. A fonte é o artista. Quanto
às autobiografias intencionais, podem ser menos ou mais sinceras.
Mas, como já dissemos, a memória é ficcionista...
Como foi ser Beatriz dos Anjos Silva? O poema A Canção
de Beatriz foi deflagrado pelo depoimento de uma prostituta, em entrevista,
que acompanhei, a uma namorada minha, jornalista. Veio de súbito,
dias depois, e foi o único poema que escrevi diretamente à
máquina. Saiu de vez, como um jorro. Há quem o estranhe muito.
Há quem o julgue prosaico. Há quem o deteste. Mas há
também quem goste muito dele. O que posso dizer é que é
um poema singular em minha obra. E ser Beatriz dos Anjos Silva foi,
sem dúvida, uma forte experiência emocional.
O que faz nas horas de lazer? Leio. De vez em quando, uma
farrinha com amigos, um banho de mar. Mas geralmente leio.
Como encara a matéria da revista Veja que ridiculariza poetas? Como uma matéria ridícula.
Tem algum mote que o acompanhe? Há muitos motes bons
por aí. Lendo Nietzsche, Monteiro Lobato encontrou um que passou
a seguir, e do qual sempre me recordo. Disse o filósofo: "Se queres
seguir-me, segue-te." Creio que, embora não muito intencionalmente,
observo esse mote.
Qual o papel do escritor na sociedade? É ser escritor. Se possível, bom escritor. Segundo Ezra Pound, os escritores têm um função social definida, a qual é proporcional à sua competência como escritores. Como cidadãos, eles têm inúmeras obrigações e preferências políticas, cada qual com as suas. Mas a principal obrigação como escritor é ser bom e procurar manter viva a sua herança de cultura e o vigor de sua língua. Mesmo porque, como advertia o mesmo Pound, se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai. |
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