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Adriano
Espínola
Os poemas me impactaram. Mas não os entendia bem. Talvez por não compartilhar da mesma "existência rural", em que "tudo é memória de borboletas de palha" (v. "Certidão de infância") ou talvez por não ter cedo me rodeado "das muitas presenças da morte" (v. "Os cavalos e os mortos"). Mas o fato era que alguns versos e poemas me marcaram desde então, como o "Antiode em clave de sol (3)", com seu verso inicial: "Dei-te amor e desse combate de sonho escapei andrajoso". Ou o antológico "Dietética", com sua ironia crítica: "Que é que tu comes / ó filho da bomba? / Eu não como nada. / Sou a própria fome". Mas se eu não compreendia algumas passagens era certamente devido à minha imaturidade, porque o próprio poeta (como que prevendo minha dificuldade) já advertira na quarta capa do livro: "Não me perguntes demais sobre a poesia. Quem explica quase sempre mistifica. Quando você perceber que o sentido da poesia é não ter sentido algum, você achará sentido na poesia. Não há poesia fácil nem poesia difícil. A medida da poesia é a totalidade do ser." Advertência que ainda hoje trago comigo.
Nesse livro, passei a conhecer uma das formas poéticas, da qual Carvalho se tornaria um verdadeiro mestre: o soneto. Nele, sua linguagem atinge constantemente um alto nível de tensão transfiguradora, em que o metro do verso (geralmente decassilábico) e o jogo das rimas elevam a cada passo a temperatura estética. Seus sonetos não obedecem ao silogismo tradicional dos tercetos finais: todo ele é a criação de uma atmosfera, de um microcosmo em constante ebulição rítmica e metafórica, de visões algumas vezes oníricas ou surrealistas, fluindo com uma naturalidade espantosa. Veja, por exemplo, o "Soneto dos ruminantes": "Este sol é uma febre que se alastra / sobre os bichos. A luz é um anjo preto / que passeia a cavalo no esqueleto / de um sonho. A solidão é uma pilastra / que sustenta o universo destas cabras…" ou "Soneto para uma negra" ("Um rio irriga a escuridão da pele, / onde um rio mais vasto se irriga. / O lago dos teus peitos é uma artéria / onde circula a escuma primitiva.") ou, ainda, os dez "Sonetos a Camões" e os três (alexandrinos) a Canudos. Carvalho, neste volume, dá um banho em termos de técnica e inspiração. Pastoral dos dias maduros é, como se costuma dizer, um livro que nasceu clássico. E como tal permanece, no meu entender, como um dos melhores da poesia brasileira, de qualquer época.
No Ceará, a tradição literária está voltada, em grande parte, para o mundo rural. Francisco Carvalho procede assim, em numerosos poemas. Bem sabemos que arte não se decide no tema, mas na linguagem. Embora não compartilhe de seu universo temático (o telúrico e o tanático), sinto-me absolutamente à vontade para louvar a excelência de seu canto, a alta qualidade de sua arte poética, que vem se mantendo, ao longo desses anos, com um grau de coerência e produtividade realmente extraordinários. Quando jovens, tendemos a valorizar tão-somente aqueles cuja produção e pontos-de-vista se identificam rigorosamente com os nossos; um pouco mais velhos, começamos a perceber as vozes diferentes e muitas vezes dissonantes e opositivas. Como acredito com Borges que o bom verso não tem idade, é possível afirmar que o bom verso também não tem escola ou estética: não importa se ele é barroco, neoclássico, romântico ou modernista. Rural ou urbano. Semelhante ao nosso ou não. Importa mesmo se é bom. O caso de Francisco Carvalho. Embora dele discorde ou me coloque em pólos aparentemente opostos da geografia poética, rendo-lhe a minha homenagem e reafirmo a minha admiração por sua arte. Arte de um poeta maior, que o Brasil precisa urgentemente conhecer mais e aplaudir. |
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