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Revista de Cultura nº especial
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Fortaleza/ São Paulo, agosto de 2000
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EM LOUVOR DO POETA FRANCISCO CARVALHO
Adriano Espínola
agcarvalho1.JPG (26892 bytes)A primeira vez que escutei o nome de Francisco Carvalho foi pela boca do saudoso poeta Caetano Ximenes Aragão. Estávamos na casa do Moreira Campos, outra grande figura, em noite de aniversário. Ali reunidos, mestre Caetano expressava sua admiração pelo autor de Memorial de Orfeu. Fiquei curioso; dias depois, voltei à casa do Moreira Campos, a fim de conhecer os trabalhos do poeta. Levei seu último livro, Os mortos azuis, de 1971.

Os poemas me impactaram. Mas não os entendia bem. Talvez por não compartilhar da mesma "existência rural", em que "tudo é memória de borboletas de palha" (v. "Certidão de infância") ou talvez por não ter cedo me rodeado "das muitas presenças da morte" (v. "Os cavalos e os mortos"). Mas o fato era que alguns versos e poemas me marcaram desde então, como o "Antiode em clave de sol (3)", com seu verso inicial: "Dei-te amor e desse combate de sonho escapei andrajoso". Ou o antológico "Dietética", com sua ironia crítica: "Que é que tu comes / ó filho da bomba? / Eu não como nada. / Sou a própria fome".

Mas se eu não compreendia algumas passagens era certamente devido à minha imaturidade, porque o próprio poeta (como que prevendo minha dificuldade) já advertira na quarta capa do livro: "Não me perguntes demais sobre a poesia. Quem explica quase sempre mistifica. Quando você perceber que o sentido da poesia é não ter sentido algum, você achará sentido na poesia. Não há poesia fácil nem poesia difícil. A medida da poesia é a totalidade do ser." Advertência que ainda hoje trago comigo.

agcarvalho2.JPG (23758 bytes)Porém, chapei mesmo foi com o livro seguinte, Pastoral dos dias maduros (1977). Parecia que o poeta tinha atingido ali um daqueles momentos raros na arte, em que a depuração da matéria, a inspiração, a imaginação exuberante, a visão crítica do mundo e das coisas se juntavam às múltiplas formas perfeitamente domadas. Tudo muito bem equilibrado. Parecia contar também a experiência humana e estética, para nos dar poemas primorosos, como, por exemplo, "Retrato para ser visto de longe" ("Sou um ser, outro metade / que não sabe de onde veio. / Sou treva, sou claridade. / Solidão partida ao meio / e entre os dois a eternidade".) Ou, ainda, o "Auto do plantador" ("Plantador, ó plantador, / esta terra me pertence. / Quando chover será tua, solidão, flor e semente."), uma pequena obra-prima.

Nesse livro, passei a conhecer uma das formas poéticas, da qual Carvalho se tornaria um verdadeiro mestre: o soneto. Nele, sua linguagem atinge constantemente um alto nível de tensão transfiguradora, em que o metro do verso (geralmente decassilábico) e o jogo das rimas elevam a cada passo a temperatura estética. Seus sonetos não obedecem ao silogismo tradicional dos tercetos finais: todo ele é a criação de uma atmosfera, de um microcosmo em constante ebulição rítmica e metafórica, de visões algumas vezes oníricas ou surrealistas, fluindo com uma naturalidade espantosa.

Veja, por exemplo, o "Soneto dos ruminantes": "Este sol é uma febre que se alastra / sobre os bichos. A luz é um anjo preto / que passeia a cavalo no esqueleto / de um sonho. A solidão é uma pilastra / que sustenta o universo destas cabras…" ou "Soneto para uma negra" ("Um rio irriga a escuridão da pele, / onde um rio mais vasto se irriga. / O lago dos teus peitos é uma artéria / onde circula a escuma primitiva.") ou, ainda, os dez "Sonetos a Camões" e os três (alexandrinos) a Canudos. Carvalho, neste volume, dá um banho em termos de técnica e inspiração. Pastoral dos dias maduros é, como se costuma dizer, um livro que nasceu clássico. E como tal permanece, no meu entender, como um dos melhores da poesia brasileira, de qualquer época.

agcarvalho3.JPG (22292 bytes)De lá para cá, Carvalho publicaria mais uns dez livros de poesia. Dentre eles, o Quadrante solar, livro premiado pela 1ª Bienal Nestlê de Literatura. Posteriormente me enviou Raízes da fala (1996) e ali percebi um depuramento da linguagem, a busca cada vez maior da palavra essencial, da palavra-raiz, raiz da voz. Poeta multitemático, atento ao drama do homem contemporâneo, soube, entretanto, permanecer fiel a dois ou três temas básicos de sua arte: a memória da terra, que lhe fecunda a imaginação de lavrador-poeta, o cultivo dos mortos, que lhe dá a dimensão do eterno e do efêmero, e talvez a noite, que lhe abre as portas para o devaneio e o sonho. Percebo também uma sensualidade latente na apreensão das coisas e na celebração da mulher, que tem "coxas que lhe acorrentam feito âncoras".

No Ceará, a tradição literária está voltada, em grande parte, para o mundo rural. Francisco Carvalho procede assim, em numerosos poemas. Bem sabemos que arte não se decide no tema, mas na linguagem. Embora não compartilhe de seu universo temático (o telúrico e o tanático), sinto-me absolutamente à vontade para louvar a excelência de seu canto, a alta qualidade de sua arte poética, que vem se mantendo, ao longo desses anos, com um grau de coerência e produtividade realmente extraordinários.

Quando jovens, tendemos a valorizar tão-somente aqueles cuja produção e pontos-de-vista se identificam rigorosamente com os nossos; um pouco mais velhos, começamos a perceber as vozes diferentes e muitas vezes dissonantes e opositivas. Como acredito com Borges que o bom verso não tem idade, é possível afirmar que o bom verso também não tem escola ou estética: não importa se ele é barroco, neoclássico, romântico ou modernista. Rural ou urbano. Semelhante ao nosso ou não. Importa mesmo se é bom. O caso de Francisco Carvalho. Embora dele discorde ou me coloque em pólos aparentemente opostos da geografia poética, rendo-lhe a minha homenagem e reafirmo a minha admiração por sua arte. Arte de um poeta maior, que o Brasil precisa urgentemente conhecer mais e aplaudir.

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