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José
Mário Pereira
Isaiah
Berlin: Uma vida, do canadense Michael Ignatieff (Editora
Record, 364 págs., R$ 40,00, tradução de Marcos Santarrita),
por muitos anos pesquisador do King’s College e doutor em História
pela Universidade de Harvard, é a primeira biografia do autor de
Vico e Herder que se publica. De ascendência russa como o biografado,
Ignatieff entrevistou Berlin de dezembro de 1988 a outubro de 1997 com
o objetivo de escrever este livro. Publicado originalmente em 1996, foi
bem recebido pela crítica, e merece ser lido em diálogo com
Isaiah Berlin: Com toda liberdade, a longa entrevista que deu a Ramin Jahanbegloo,
editada no Brasil em 1996 pela Perspectiva.
Nos últimos anos, Berlin confessava que "não lia mais nada". Sua vida, dizia, resumia-se a "ir a funerais". Solteiro até os 40, dado à hipocondria, sempre se recusou a escrever "memórias". Desse ponto de vista a biografia de Ignatieff é providencial, pois se fez a partir do convívio com o pensador - e na intimidade dos seus próximos. Berlin, no entanto, impôs uma condição para depor: não ler o livro. Quem imagina monótona a vida de um professor de Oxford vai ficar surpreso com o biografado. Filho único de judeus russos - o pai era empresário do ramo de madeiras - Berlin foi um temperamento moldado, em parte, pela cultura inglesa. Em sua geração, foi único no domínio do que melhor produziu a cultura da Europa Ocidental. Nascido a 6 de junho de 1909, ele viveu em Riga, na Letônia, até os sete anos, quando explodiu a Revolução Russa de Fevereiro. Partiu então com a família para a Inglaterra, instalando-se numa casa de três andares. Tinha governanta e era mimado pela mãe, de quem, de certa forma, foi dependente até a morte dela. O exílio não lhe pesou: soube se adaptar, integrando-se ao mundo de fala inglesa. O clima da Oxford dos anos 20 e 30, em que o homossexualismo era encarado como arma de protesto contra o convencionalismo burguês, aspecto bem descrito em Our Age (1990), a autobiografia do amigo Noel Annan; o período que passou em Washington trabalhando na Embaixada Britânica; os contatos políticos e as figuras do mundo acadêmico que conheceu e se tornaram poderosas na gestão Kennedy; o início da Guerra Fria, tudo é minuciosamente narrado por Ignatieff, um admirador do biografado, apenas cauteloso demais em algumas passagens, o que dá ao livro o caráter de biografia oficial. Um dos pontos altos da narrativa é o capítulo sobre a primeira visita à União Soviética em 1945, onde conheceu, já na primeira noite, o cineasta Sergei Eisenstein, e a seguir Boris Pasternak, o futuro Prêmio Nobel, e Anna Akhamatova, a poetisa que se afeiçoou a ele, numa relação verdadeiramente amorosa, retratando-o em um poema como o "hóspede do futuro". A história do primeiro encontro - que marcou a vida de Berlin - é uma das mais comoventes desta biografia. Na época ele ainda não publicara quase nada, e se sentia pouco à vontade dando aulas; as que deu, muitas foram proferidas em seu quarto do All Souls, de pijama, na cama. Também detestava escrever, e tudo que publicou foi ditado. Se não tivesse aparecido o editor Harry Hardy é quase certo que, ainda hoje, seus ensaios estivessem soterrados em coleções de revistas especializadas. Ignatieff relata a progressiva inserção de Isaiah Berlin na problemática situação judaica mundial, como colaborador e amigo de Chaim Weizmann ("um irresistível sedutor político"), que, ao assumir a presidência do Estado de Israel, lhe ofereceu o Ministério das Relações Exteriores. Ele recusou: não desejava deixar a Inglaterra. Mas quem leu Personal Impressions (1980) não esquece o comovente depoimento sobre o grande líder judeu. As disputas entre Weizmann e Ben Gurion, que Isaiah Berlin acompanhou no calor da hora, estão bem contadas aqui. O judeu Berlin sempre foi favorável a uma política de entendimento e negociação com os árabes, e pouco antes de morrer ditou um documento neste sentido. Uma vez chegou mesmo a vazar para a imprensa uma informação oficial que protelaria a decisão sobre o destino dos judeus na Palestina. O discurso de Weizmann no Congresso sionista na Basiléia, em 1946, por exemplo, continha um parágrafo redigido por ele: "O terrorismo insulta a nossa história; zomba dos ideais pelos quais deve erguer-se uma sociedade judia; contamina nossa bandeira; compromete nosso apelo à consciência liberal do mundo". Contrário ao terrorismo, recusou-se a estender a mão para Menachem Begin, por causa do envolvimento dele na explosão do Hotel Rei Davi, em Jerusalém. O judaísmo, para Berlin, deveria ser encarado de forma humana, pacífica, sem autoritarismo - razão pela qual admirava Einstein.
Berlin jamais acreditou que se tornaria um grande filósofo. Depois de conviver com J. L. Austin, Stuart Hampshire e outros expoentes da filosofia analítica inglesa, e de ter uma conferência criticada de viva voz por Wittgenstein, acabou encaminhando-se para a história das idéias, disciplina quase inexistente na Inglaterra de então, e à qual deu ressonância nunca vista. Teórico do nacionalismo, adversário do determinismo, entusiasta de Herder, Benjamin Constant e Giambattista Vico - que leu por indicação de R. G. Collingwood (1889-1943) - Berlin ficou famoso pela distinção entre liberdade positiva e liberdade negativa e por estudos sobre autores tão díspares quanto Mostesquieu, Maquiavel, Hamann, Joseph de Maistre, John Stuart Mill, Sorel e Tolstoi. No final da vida revelou-se um grande benfeitor de Oxford levantando fundos para a construção do Wolfson College. Suas amizades do tempo de Washington - neste caso com McGeorge Bundy, presidente da Fundação Ford - foram providenciais. Isaiah Berlin é exemplar pela clareza e profundidade que imprimiu a tudo que escreveu, do ensaio inicial sobre Marx ao trabalho de repor em circulação o desprezado Hamann. Embora nunca tenha dominado a teoria econômica, o livro sobre Marx é um modelo de exposição; apesar de não marxista, expôs sem preconceitos o pensamento do autor de O Capital. Para Ignatieff, "o marxismo acentuou a tendência de Berlin a olhar historicamente os valores que os liberais de sua geração tomavam como virtudes eternas". Homenageado mundo afora, tornou-se presidente da Academia Britânica, recebendo inúmeros prêmios, um deles o Agnelli, da Fiat, por sua contribuição ao entendimento ético das sociedades. É divertido o episódio da entrega do prêmio: ao perceber que o empresário Gianni Agnelli se entediava com a solenidade da cerimônia, Berlin o aconselhou a imaginar um cenário mais ameno para matar o tempo. E Agnelli escolheu então recordar as muitas mulheres que conheceu. Seu rosto assumiu, assim, um ar de total felicidade.
Embora gostasse de se depreciar, Berlin foi um homem de sorte. Sentia-se "intoleravelmente feio", mas ganhou elogios até de Greta Garbo: "O senhor tem belos olhos", disse-lhe a atriz. Era fascinado pela vida em sociedade, adorava festas, e nelas fez muitas amizades, aprendendo a domar também a timidez. Conviveu com Virgínia Woolf, Albert Einstein, Edmund Wilson, Anthony Blunt, George Kennan, Alexandre Kojève, Jean Cocteau, Picasso, Alfred Brendel, Murray Perahia, John e Jacqueline Kennedy. Na correspondência de Virginia há referências a ele. Uma delas diz: "Catedrático muito inteligente, inteligente demais, como Maynard [Keynes] na juventude - um judeu violento". No clube favorito, o Athenaeum, em Pall Mall, recebeu na década de 80 José Guilherme Merquior e Celso Lafer. Estava, neste dia, especialmente ferino e brilhante. Ao primeiro escreveu depois, em 21.11.89: "Nunca soube muito bem como me situar politicamente. Sempre me senti na extrema esquerda da Direita e na extrema direita da Esquerda; em conseqüência, tenho sido alvo de flechas de ambos os lados, e me sinto uma espécie de São Sebastião, inteiramente por minha culpa". Com 18 capítulos e um epílogo, Isaiah Berlin: Uma vida retrata, com fidelidade, e em prosa fluente, a trajetória humana e intelectual de um dos mais fascinantes ensaístas do século no diálogo permanente com questões decisivas como o sionismo, o totalitarismo russo, o nacionalismo e a eterna luta do homem por autonomia e liberdade. O livro nos revela também algumas aventuras sexuais e a paixão avassaladora pela francesa Aline de Gunzbourg, com quem terminou por casar. Ela era mulher do físico Hans Halban, que acabou por sucumbir à retórica do pretendente. No momento decisivo do caso, Berlin disparou para o marido da amada: "Se se mantém alguém na prisão, o prisioneiro fica mais ansioso para sair do que o carcereiro para mantê-lo ali. Isso não vai acabar bem. Se você a impedir de me ver, isso não vai continuar indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, vai rebentar, mesmo que eu não faça absolutamente nada". Para quem se considerava um tímido, saiu-se muito bem. Muito se tem publicado sobre Berlin. Para uma visão crítica, vale a pena ler "The pluralism of Isaiah Berlin", de Perry Anderson, em A Zone of Engagement (Verso, 1992). Perry aponta, de sua parte, algumas generalizações, o uso impróprio de uma famosa frase de Kant, o fato de só raramente referir-se à obra de Weber; e reconhece que "o tema que Berlin realmente fez seu, e de modo magnífico, é o pluralismo". John Gray estudou-o em Berlin (1995), caracterizando o seu liberalismo como "agonista", além de detalhar os pontos de contato e diferença com outras visões do liberalismo, em especial as de Joseph Raz (The Morality of Freedom, 1986) e John Rawls (A Theory of Justice, 1972). Para uma análise da presença de Berlin nas teorizações de Rawls, recomenda-se o seu recém-lançado Collected Papers (Harvard University Press, 656 págs., 1999). Resta, finalmente, informar que desde a morte do pensador, em 8 de novembro de 1997, já se publicaram dois livros seus: The Roots of Romanticism, em março deste ano, pela Chatto and Windus, e The First and the Last, em outubro último, pela Granta Books, que reúne a primeira história que escreveu, aos 12 anos, inspirado num assassinato em São Petersburgo, e o último ensaio, um esboço de sua evolução intelectual. No momento o editor e testamenteiro literário Harry Hardy organiza para publicação a rica e volumosa correspondência de Isaiah Berlin. O público leitor não perde por esperar. |
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