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EM
BUSCA DE UM MERCADO PARA OS FILMES BRASILEIROS
Augusto
Guilherme
Os
filmes brasileiros que, nas três últimas décadas, alcançaram
alguma repercussão internacional (em termos de público, e
não de crítica, é claro) foram Dona Flor e seus dois
maridos (1976), de Bruno Barreto, Pixote, A lei do mais fraco (1980), de
Hector Babenco, e Central do Brasil (1998), de Walter Salles. Equivocadamente,
acredita-se que o público de cinema costuma rejeitar filmes com
temáticas do tipo "realidade social adversa" - como a dos dois últimos
filmes - porque "ninguém quer ver miséria no cinema". Evidentemente
tal tese (?!) é bem discutível, se pensarmos que esses são
os filmes que construíram no exterior (e mesmo no Brasil) a imagem
do cinema brasileiro contemporâneo pós-abertura.
Apesar do bombardeio de cinema hollywoodiano,
é possível que o público brasileiro esteja aprendendo
a se identificar com um tipo específico de "cinema brasileiro".
Não é à-toa que os filmes que vislumbram a chamada
identidade nacional e os aspectos culturais sejam os filmes mais relevantes
de nossa cinematografia. Marco do cinema brasileiro, Central do Brasil,
foi pensado como um projeto cinematográfico e não apenas
como um produto cinematográfico para o mercado.
Para ser mais claro, é preciso
dizer que uma conceituação aceitável para a expressão
"projeto cinematográfico" pode ser entendida como o interesse por
redefinir criticamente as realidades e as identidades brasileiras pelas
quais e em função das quais os filmes brasileiros devem se
valer. Isto não quer dizer que não deve haver preocupação
com o mercado. No entanto, para que o diálogo com o público
seja concretizado, urge uma política de distribuição,
comercialização e, consequentemente, exibição
dos filmes nacionais.
Está
claro que o precário sistema de distribuição e exibição
de filmes brasileiros no mercado interno interfere no processo de identificação
que o público brasileiro deveria manter com o cinema nacional. A
não-continuidade no mercado da distribuição dessa
produção não traz o hábito da aproximação,
condição e pré-requisito para estabelecer uma identificação
de um povo com o seu cinema, e a partir do qual o processo é perenizado.
O local - bem delineado - floresce como apelo para o universal. A co-produção
com países do Mercosul e/ou da América Latina (o diálogo
com a América Latina era um antigo anseio de Glauber Rocha) é
também uma alternativa para o cinema brasileiro, não apenas
em termos de produção, mas como mercados de exibição
potenciais.
No entanto, a matéria, no aspecto
distribuição/exibição nos países do
Mercosul, está a merecer melhor aprofundamento, em virtude da insipidez
(em sentido quantitativo) do movimento em torno dessa iniciativa. A exemplo
da nossa, as cinematografias dos nossos vizinhos são igualmente
periféricas, do ponto de vista econômico, visto que a produção
majoritariamente consumida mundo afora é egressa da indústria
de Hollywood. Aqui vale um registro: a referência, quando se fala
em produção hollywoodiana, diz respeito ao produto orientado
especificamente visando a bilheteria, sem preocupações estéticas
maiores. É claro, todos os cinemas também enveredam por esse
caminho, mas o volume da produção de Hollywood praticamente
destrói qualquer concorrência nesse sentido.
Finalmente,
é preciso entender que, quando se fala de uma identidade para o
cinema do Brasil, nos referimos a uma idéia de cinema que precisa
ser o registro dessas identidades/realidades, sejam elas estáticas
e imutáveis; dinâmicas e transformadoras. A discussão
contemporânea sobre identidade indica sim o caminho da diversidade,
mas a negação das características locais é
um erro tão grande quanto o de não entender o processo multicultural.
O cinema brasileiro terá futuro, através de uma política
cultural/industrial para o setor, sim; terá futuro aliando-se à
televisão em projetos de produção e exibição;
mas terá futuro, é certo, quando assumir que, fundamentalmente,
precisa voltar-se para a necessidade de efetuar o registro de si mesmo,
como forma de conectar-se com o público.
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