hélio rôla & floriano martins
erografias
![]() |
1. Teu leito me elege por palavras que li. Entendo sua lei e seu golpe me captura. Livro em que capto o jogo do ser, sempre mortal como vozes indo e vindo. Contigo estou em todas as partes. Trevas atravesso, confundo coisas, ao fogo entrego a matéria de tudo quanto sei. Um entre todos no golpe de teu desejo. Rosto que somente na escuridão percebes. Intenso o veneno do que li em teu corpo. |
|
2. Rimos carne por toda noite. Animal na sagrada sede de sua hora, espírito que rasga o enigma e ainda mais intenso outro lhe surge. Me tocas, mármore que baila, fogo que petrifica o mundo, carne convertida em riso, na fúria que se desnuda oh deusa. Em ti a louca loca do absoluto, fenda que me traga mares estrelas, lâmpada no abismo de meu canto. Ali gozamos dançando quanto dure o fogo, o mundo, ritmos de risos que se tocam.
Ainda te ouço morrendo no turbulento abraço do ser, e rio desamparado. |
![]() |
![]() |
3. Vem:
Mãe de abismo. Relva de sigilos. Letras sobre a carne. Ira de signos.
Vem:
Sombras sobre o falo, lado sem fim das vogais que vibram loucas em ti.
Vem:
Raio que devo comer para que o mundo me sirva. Implacável visão que me dilata.
Vem:
Com teus frutos de morte – peitos lábios línguas – que só o fogo decifra.
Vem:
Urros da origem. Olho nascendo no vazio. Boca que guarda o enigma do sol.
Vem:
Flor mortal. Reino da poesia. Pêndulo sobre o mundo. Corda cega do ser.
Vem:
Vibrante vento. Fúria do amor. Fulgor de nada. |
|
4. Ilumina teu corpo dentro. Um labirinto tua mão me estende. Peso do mundo, tudo cai. Aonde vai dar a queda fulgurante, fragmentos de teu vulto, labirinto descarnado, luz de uma coluna que cai, pobre luz de túneis derruídos em mortes tão iguais? Indícios de que nova vida? Nada. Rugas de uma eternidade brutal. Duro em teu corpo enquanto o procuro. Pequeno fogo ao fundo, jogo delirante: a origem é o efêmero. |
![]() |
![]() |
5. O que vejo através de ti: tuas formas multiplicadas. Me arrasta até o fim da jornada, pulso da pedra nos lábios da areia, espelho com que aras minha peregrinação, casca que ousa tocar o fundo.
Trouxe consigo toda a memória do abismo erguido em seu dorso.
Retoma teu lugar no mundo. Sob teus pés, a sombra do que está por vir. |
|
6. Tua voz dissipada entre taças de rumores em que dizer é precisamente ocultar. Banquete de deuses no espelho de teu corpo. Música de pedras, olhos do obscuro, as sombras que iluminam tua ausência.
Vens às palavras, jaulas de cristal da noite que te recria. O poema, uma lanterna cega. Vens. O que dominas o fogo rapta: o silêncio, a posse de teus bens, as carnes de uma escritura que se desmancha no ar. Máscaras de um feitiço interrompido, lacre violado de tua lição do oculto. Uma sílaba nos persegue até a morte. Lâminas de gestos, um movimento, o poema se retrai. Não sobrará nada de ti para a revelação do amor. |
![]() |
![]() |
7. Pequeno bosque de imitações. Mordes o cofre de minha alma profana, tua paixão pelos mortos. Queimas a última carne do jogo. Corpos saindo do fogo. Os abismos bebem em ti: rostos & fontes. Fúria de tuas folhas ocultas. Sujas os lugares suspeitos onde o crime se banha. Árvore nas coxas, a beleza em sangue. Tua sala de quartzo. Invertes o cosmos de teus ritos. Variações de Yausa. Tu és vitae locus: todas as mulheres. Altares do caos. Fendas nas trevas. Ódio em ti, feito hinos na terra incógnita. Rasgas a pedra escrita na colina que se move. Um vadio na noite, aprendo a ser teu. |
|
8. O enigma é tua fonte. Poço imenso cujo fundo não se toca.
Astúcia que rói o tempo. Perigo de espíritos que se imolam espelho adentro.
Faca infecta de palavras na podridão do vazio. Fezes de sombras. Mapas de vozes mutiladas. Coração do mundo, hora de ruir novamente, hora do enigma chafurdar uma vez mais na lama de sua atormentada convulsão.
Sátiros e insetos em obscuros salmos: reino da beleza dificultada. Meu corpo nu permanece aqui, a alma sobe ao inferno. Tempo feito de pedra. |
![]() |
![]() |
9. Mar de amores em sobressaltos. Planetas em transe. Toda a origem dentro do olho, o olho marfim do tempo dentro de mim seu veneno e em torno fantasmas deuses peixes, pequenos lagartos ali ruminando selvas, risos de rochas. Fúria de folhas contra o ventre: o abismo bebe o sumo de ignotas eras abandonadas em tua sombra. Simulas pistas dentro e fora, gotejante céu. Corpos nus sob a laje do sonho, as palavras derramadas na carne, o amor em fragmentos. Coro de músculos, tua pele é minha ira. Cintilâncias de uma só e oculta fonte.
Meu amor pelo homem, pedra arremessada à distância, parábola de si própria. Meu amor ainda canta na voz de cinzas da floresta. |
|
10. Rostos tocados pela escuridão. Certos corpos nus e sujos. Palavras que gemem, tremor de costelas, ossos de luz, ossos mínimos estraçalhados, o pó da noite em suas cavidades. Máscaras de ruínas, fome da fome. Pequenas aldeias por todo o corpo. Em cada gesto: amuletos. A morte é uma porta silenciosa em que o homem se percebe incriado. Sua alma ainda cega, fogo do riso. O mundo ficou sem resposta. |
![]() |
![]() |
11. Enseio-me em ti, imanente ovo de faróis. Fomes elementares de uma via de óleos. Tu: figura total à deriva entre clãs selvagens. Garras de fúrias no abrigo de abismos de tuas negras gemas.
Enterra-me no inferno dessas cidades em fuga. Que belo crime decepar teus sentidos. Anjo: lábios, delitos. Os miseráveis infames ocultados em tuas infinitas manobras. Foco de almas rasuradas, ser de mitos, flor de fugas. Anjo fascinando pelas marcas que em mim se escondem: retiro-me de tuas ruínas. |
|
12. Sou eu de joelhos. Tu a imagem. Gotas do desejo ilhando minha fronte. Sendo o tempo a água que me anuncia. Quem sou eu? Tempo; tu que a tudo desvelas. Que máscara certo prazer tem em mim insistido seu dom? que ritmo, que elo, que rastro nu guarda em mim seu pó? Em ti: salto no que não se imita, talhos de espelho. Eu mesmo te abrindo em rosas. Todas as sombras, todos os restos. Migalhas refazem o mundo. |
![]() |
r e t o r n o à g a l e r i a
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |