hélio rôla & floriano martins
RETRATOS FALADOS
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Escuta os rumores da escritura, transcreve as versões do silêncio. Escuta o que dizem os ramos da oração. Não se tece a história em súplicas. Antes em massacres. Vozerio de sombras, ontologia de retalhos. Ama as trevas com júbilo e busca sua face perdida. Nada alcançarás senão o cadáver obeso de tuas próprias dúvidas. Fareja os despojos violados da memória. Odores obscuros do oráculo. Nada. Não lerás a mesma página que o fogo. |
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De que mais se fez teu canto, intumescido de espelhos? Consagra-se a que agonia o homem devolvido à sua imagem primeva? Como chegar a ser um livro? De algum ouro impreciso nascem as páginas? Gnomos cultuam o fôlego ressequido das imagens? Por onde jorram beatrizes? Tenebrosa será sempre a jornada do verbo? Os que nos damos ao mar, ao inferno de árvores, ao ramo de horrores, ao mar de sarças estelares, ao batismo de selvas, ao mar ao mar, ao sudário da estrada, os que nos damos em círculos, trememos de que felicidade?
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Escuta então os giros da existência e não somente o respiro de máscaras. Não busca senão o aturdimento, o sustento selvagem do ser. De que nasce a épica? Já estão ao mar todos os heróis, vendados ou entregues à rumba de sílfides? Símbolo o símbolo implacável do homem em suas derrotas. Funda o mundo com suas dores. Diviniza as pobres formas corroídas. Tudo no homem é mito, inflexível em sua queda.
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Contorna o rigor de tuas fúrias. Por vezes não passas de um cadáver esquisito. Em que ilha vão dar os livros? Rangidos, suspiros, gestos trocados sob tábuas, tremuras ocultas, crimes da virtude, virtudes do crime. Desapareces onde a fábula retoma seu curso. Escuta que já não se trata somente de teatro. Tudo em ti se retrai, e despenca. |
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Retoma sem dificuldades o curso perdido, mesmo havendo uma falsa glorificação do instante que algema os demais sinais do tempo. Somos todos gotejos do fogo, insuspeitos em sua errância. E põe fogo agora no ermo do entendimento: lepra de delírios, prantos regados à esquizofrenia de seus hóspedes, ópera bufa de Deus, angústias vociferantes, revoando revoando, sempre a mesma letra assinalada, idêntico o curso assimilado pelo presépio do êxodo, o mar se desgastando em geometrias.
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Previsível sumo da árvore lançada ao espaço. Ogiva de cinzas que torna Dante de menos. Secreto pomar de vísceras de sombras não chamuscadas – transmuda tal acorde decomposto no milagre de tuas pálpebras refeitas. Não será tão tarde. Tuas igrejas futuras dependem disto. O homem só julga a si mesmo através da metáfora. Toda sua realidade é uma fantasia. Poetas não cabem mais em teu coração. |
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Múltipla tua orfandade. Reacende-me em teu exercício. De que morreremos? Pequeno jardim de comédias – nos rimos. Diversas as sombras peregrinando – convocadas. Quedas por toda a noite – ressonante espetáculo. Ainda buscamos por que morrer – espectros fugazes. Não dá-se a sensualidade sem quebra. De comparsa do paradoxo não passa toda a essência da convicção. |
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Dias serão os dias com suas trevas e as noites concebidas estreladas, estrofes consoladas por uma poética vulgar. Verbo é o símbolo da agonia: quanto custa ao homem converter-se em evidência. Imensa a dor e sua ressonância, venha do grito ou de seu revés. Dias de queda, barrocos, exaustivos, adegas que não ressuscitam a alegria do vinho. Suportará berenices, mas nunca um espelho sem imagem. Refeito um dia de quantas gotas, todas de melancolia? Tudo em si é pesar, a refletir a névoa de seu próprio entendimento. Já não percebe os sussurros do silêncio. Queda a queda disfarçada em poema. Que epifania buscas ainda na ruína de teu esplendor?
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r e t o r n o à g a l e r i a
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