hélio rôla & floriano martins

 

PROVAS FINAIS

 

Eis teu inferno: uma condenação de espelhos.

Recolheu o poeta os pergaminhos de seu

processo, consternado com o severo desterro

da poesia. Brevíssimo fora o júri em seu fastio

de imagens. Sequer vimos os truques banais

tão comuns em julgamentos. Saltara a sentença

com ávida indiferença, gravitando displicente

ao redor de Orfeu desamparado. Silêncio

tomado de cinismo. “Poetas são timoneiros

do abismo. Sua glória é sua ruína.” Retira-se

o juiz e recolhe consigo a invisível mesura

do tribunal. Ao réu conforta o mistério perene.

 

Como chegar ao inferno?

 

Fogo de rogos, música roída em ira, trova

de rogos das desprezíveis vítimas de Deus,

número secreto do rito que só se desvela

no último círculo, dinastia danada de frias

máscaras, dores lentas, dores cegas, dores

enfermas da raiz das dores, verbos cortantes

que decepam a alegria no mundo, fulgores

de pausas no acesso de nós, rasgos de almas,

brusca metade da sombra que me guia,

como chegar à terra de minha condenação?

 

 

Noites cadentes em cálidas areias.

Ao longe se vê: alguém escreve

sobre o nada em seu corpo de nada.

 

Enquanto aguardava a pena, garantiram-me que os números já estão traçados, que não somos senão vestígios da eternidade e que nada no mundo se desfaz com nossa ausência. Antes de sua execução na cadeira elétrica um vizinho de cela me dissera: “As coisas não voltam ao que são se não são nada”. Logo em seguida fora condenado Renan, por haver morto o assassino de sua filha. Estamos aqui bem transparentes. A lei é a obscuridade reinante.

 

“Dá-me uma moeda

a recolher minhas visões”,

beliscava a voz do bêbado

a arguta apatia dos passantes.

 

 

Agulha de condenações, fio livre de dores,

júbilo de atos que estraçalham o préstimo

de tocar o homem em suas dádivas, dá-nos

as credenciais de tua missão, desgraçado.

Cobiças talhar a matéria ao bico de tua pena,

ser a representação divina na terra, o golpe

de imagens que te rendam glórias de sal.

Não és nada, andarilho tragado pelo assombro

de tuas próprias misérias transfiguradas.

Do nada ao nada, este júri te condena a cair.

 

Mas como chegar ao nada?

 

Enlouquece o homem de não saber-se enraizar. Dívidas cobrimos com nossas entranhas. Tudo o que somos já fomos. Cai o corpo, os dedos se mantêm sobre a máquina, o verbo permanece impresso. Só tocamos aquilo que somos. Perdemos a unidade quando desprezamos os fragmentos. Somos o bosque e seu reflexo, o crime e a fuga.

 

 

Antes que Orfeu partisse a caminho do inferno,

a voz mínima do meirinho lembrara ao juiz

que o réu desconhecia o périplo de sua pena.

“Infortúnio comum a todos eles”, argumentou

a criatura togada que menosprezava a justiça

metafórica a que se referira Lezama Lima. Aqui

cumprimos qual pena? O verbo que faz o homem

tocar a si mesmo como uma serpente emplumada?

O adjetivo que nos torna a todos inatingíveis?

O substantivo que não concentra em si essência

alguma? “Traço comum a todos os desprezíveis.”

Sem que se tenha jamais indicado o norte da pena.

 

 

r e t o r n o   à   g a l e r i a