hélio rôla & floriano martins

 

ALTARES DO CAOS

 

Corpos, todos eles iluminados pelo ouro

de sua imagem insone, pequenos fantasmas

devorados pela luz da inércia, contágio

de quedas a flor de uma atormentada utopia.

Quem nos abandona desperto em si mesmo?

Largados os largos planos urdidos no alarde

enquanto o tempo se alargava em silêncio?

Quem me segue quando sigo rumo ao visível?

Corpos de não se sabe qual dor, figuras

do abismo, sombras de nossa própria sombra.

 

 

Corpos inteiros em fogo, de zelosos curupiras

que assombram a dúvida sagaz das cinzas

nos embolorados escritos de um deus, todos.

Quantos éramos? A soma de invocadas quedas,

um lar de entregas, pensões da solidão.

Correndo o mito ouvimos o lamento, tantos,

o coração coberto de dores em cada habitante:

tudo aqui criamos à imagem do desejo, dizia

a placa à entrada. Não se exige do fogo senão

que queime ou ilumine, o que for, tudo.

 

 

O que fizemos contra a dor? Quais os planos?

Soluções químicas, de rápido transporte,

euforia de demônios cada vez mais raros de si.

Continue a cair, até que a queda desapareça.

Para onde nos movemos se nada se move

em nós? O que buscamos além da queda

não passa do retorno da prodigiosa sombra

do que mais tememos: simplesmente pensar.

Por que escrevo? Por que assim morre

muito melhor em mim o assassino que sou.

 

 

Regressar de onde? Terá sido longo o trajeto

se ainda não saímos da cobiça, do remorso

ou do esquecimento? Se havia algo em mim

agachado era o destino, decerto zombando

das queixas e julgamentos, o nobre empório

de valores de nosso tempo, trapos de memória,

mercado de encantadoras criaturas que adoram

e injuriam e matam e carpem e encobrem

os corpos cortados em fogo para que se anime

o dia da palavra que não falte a mais ninguém.

 

 

À sombra do que se passa, um cego nos redime.

Que horas tem? Talvez haja um crepúsculo

lá fora. Algo que possa atestar a imobilidade

de tantos corpos, afundar-me em seus motivos.

Seremos só uma mesma dor ardente, capricho

de alguma sombra que nos ausculta e define

enquanto sondamos repouso e agonia, nossos?

Corpos restados do nada, reescritos no vazio.

Tornam-se inumerável patrimônio de seus dias,

uma gente de negócios que não parecem humanos.

 

 

Duplo de minha própria morte anunciada,

a visagem do que represento, agonia íntima.

Antes discutíamos: há um conselho de homens

ou de deuses? Apenas um toque da carência.

Carícia dos pontos mágicos que agem, surdos

amuletos, somados ao que deles há em mim,

toda a terra despencada sobre o verbo, o som

de cintilâncias que urdem a imagem que crava

o sentido na pedra – seja o desejo a loucura,

a poesia a surrada instância do equilíbrio.

 

 

Que esperam de si corpos que somente agora

deram de sangrar? Uma morte na terceira pessoa?

Tudo nos leva a crer que somos parte daquilo

que fomos. Se nos falta ar e ainda dançamos,

logo seremos o ar e a dança esquecidos em si.

Nunca estamos a caminho de nada, nada, nada

em nós se anuncia uma trilha a ser perseguida.

Sombras que sangram à noite ao som da dúvida.

Uma sucata de hábitos, luares de agonia,

verbo trocado com o inferno, rigores sem alarde.

 

 

Iluminados os corpos, a lê-los convidado fui.

Trouxe comigo um rabino e a dúvida acerca

da origem da queda. A dor nos abandona

na medida da glória de seu capinzal solene.

Estamos aqui para o inferno e não há medidas

de seu vaticínio. Quando muito acentuamos

o próprio fim, desejado com oculta precisão.

Não nos libera o desejo de algo que sabemos.

Corpos sangram e luzem e gozam e somem.

Nada pode a dor de um contra o altar de todos.

 

 

Perder-se não é mais com o corpo, não houve

como combinar os erros com seus acertos.

Fídias ainda esculpirá sombras? Quantos crimes

acobertará em tal preciosa argila? Não importa

que nome lhe demos, uma vez aceita sua arte.

Explicou-me um dia que elas significam por

si mesmas e que apenas lhes dá um corpo.

Cafute, Azufrado e El Malo, mesma e múltipla

figura a dançar com a linguagem do assombro

tombada, esplêndida, significando quase nada.

 

 

Em que tempo ocorre o verso? De onde provém

todo o mal da poesia? Olha a velha dor, a sombra,

vê que nos assombra seu ardor. Furtivas

serpentes da imagem, o milharal de suas luas.

Se não tiramos do nada não é criação, disse-me

a disforme criatura que há semanas pousava

aos fundos de uma taberna, nu ardendo em frio.

Não passa de débil visagem a arte hoje aceita,

vertigem do duplo, delírio do outro anunciado.

Para livrar-se de tal letargia há apenas que criar.

 

 

r e t o r n o   à   g a l e r i a