hélio rôla & floriano martins

 

CATÁLOGO SECRETO

 

Algum dia poderei recordar o que houve aqui. De alguma maneira serei Olívia, seu corpo fluindo as múltiplas formas que assumem diante de mim as esculturas de Antonio. Talvez apenas suponha tratar-se dela, que seja ela a reconhecer-se em um breve gesto meu. Algo como a simples menção de um sonho, do que nos desperta. Importa que sejamos tão reais agora, se não vamos nunca além de nossa memória? Tê-la esculpido alguma vez faz com que eu me sinta hoje tomada por suas mãos. Antonio com meu íntimo em bronze. Não desejo mais do que ser Olívia: o que supunha fosse e o que lhe desvelou Antonio. Sou-lhe então completamente a matéria sonhada que se refaz a cada olhar. Decerto soubera bem antes: o que hoje se revela, já o somos há muito. Era seu destino converter-se nas formas que ocorriam ao escultor. Reconheço-me então em tudo o que vivera. Ao tocar em mim Antonio sinto que não requer senão outras linhas, outro movimento.

 

 

Quem serei nesta noite entre sombras tão íntimas, erguidas diante de mim como um canto? Sei que busquei seus traços, o apuro do bronze em sua pele. Por mais de uma vez Olívia dissera que o que nos unia era o espanto. Nada lhe afligia. Creio que dava a todas as coisas um melhor sabor. Encomendar-lhe o espírito ao bronze não terá sido inconcebível. Comigo conheceu apenas alguns crepúsculos gastos pela amargura. Eu a amei com fatalidade, antevendo cada espectro de nosso rompimento. Sei agora o quanto mudou as formas de meu canto. Não será tarde, já que a reencontro aqui tantas vezes à minha volta. Partes suas: braços vultos ancas. Não de todo fragmentos. Olívia infinita recuperando-se em cada mínima agonia do bronze, ansioso por contá-la. Mesmo que a tenha perdido, guardou para esta noite um último encontro. Interrogo-me então o que posso desatar senão um outro labirinto da memória. Olívia reunida em trinta esculturas. Eu perdido de mim infinitas vezes.

 

 

Então haverá uma porta e outra e muitas mais,
inumerável a extensão de sua secular investida.
O passado composto por estranhas partituras
que emaranham seus átrios e seus porões.
Então uma vez fui Olívia sem que esperasse sê-lo.
Esquecida dos rostos incertos que poderia ter,
com rigor desfiava sua métrica e sem pressa alguma.
Pareciam heréticas as pessoas do verbo, infames
na luta para que não lhes escarne o esquecimento.
Temiam ser apenas uma agonia de espelhos
no corredor imaginado como uma vasta justificação
de tudo o que fomos, sempre ali com seus motivos.
Inúmeras as portas e as vezes em que pude ser Olívia,
tendo sido apenas uma sem que conseguisse evitá-lo.

 

 

Vejo a mim em todas que se sentem transidas pelo evangelho de suas formas. Felizes as que se sentem amadas por seus esmeros táteis. Afortunadas aquelas que se deixam acender por um truque hábil. Bem-aventuradas as que encontram no bronze um cúmplice de suas ênfases desterradas. O mundo segue dividido entre o espírito e a letra. Não importa o que pensemos, impera a angústia e o orgulho. Somos ambicionados pelas formas. Amei Antonio em meio a seus cinzéis. Fomos sua imprescindível possessão, linguagem sem a qual seu declínio sequer seria misericordioso. O medo de perder-me lhe impôs uma disciplina assombrosa. Deformava tudo à sua volta, para que delineasse apenas o que supunha ser meus traços. Não pude seguir vivendo indecifravelmente. Antonio me amava a cinzeladas. Felizes as que se edificam diante do quanto me desfiz de mim. Decerto que sou todas elas.

 

 

Procuro não ser devastado pelo passado. O que fui não revela senão o tempo vivido, não mais necessita ser um teorema. As formas que tracei sentem-se já reveladas. Os dias se vão incorrigíveis, sem que lhes evitem as reminiscências. Sei que sou o dia, mas sou também o que resiste a sê-lo. Somos sempre a imagem e os aforismos de seu declínio. Tenho em minhas mãos as cinzas de Olívia, a glória de tudo o que foi. Não espero que a beleza propicie algo menos terrível. Talvez devesse dizer que também o sofrimento é uma dádiva. Detenho-me na busca de sombras. Tanto as que se erguem para buscar em mim o perdido, quanto as que despertam iletradas ante o assombro de incalculáveis ermos. Defendo-me com o bronze inquieto que reconhece todas as formas. Defendo-me do passado, da curiosa esfera caída de tudo o que fomos. Cinzelo a alma indecifrável do que deixamos de ser, certo de que um dia ainda o seremos.

 

 

Algum dia terei dito que me tenho sem aflição. Outra não era sua pirâmide necessária. As formas buscavam serenidade e fui o vértice predestinado. Devorava-me minuciosamente com seu ódio pelo pão. Sempre estive pousando para ele. Despia-me de todas as formas, com seus inúmeros cuidados. Como fui jamais lhe importou. Creio que nada afligia a execução de sua obra. Tormento e insensatez não eram senão estilhas de seu canto. Decerto que fui sua Olívia precisa. Um pouco ou mais estaria perdida, de volta às perambulações pelos corredores da memória. Tudo o que queria eram formas, e que o seguissem submissas. Agora sou trinta delas. Não sei do que me queixo, se passo a desafiar o tempo. Algo em mim deve supor haver ainda aflição maior.

 

 

Sonho com tudo o que somos. Sou um ignorante dos hábitos do tempo. Jamais poderei ser feliz. Aqui esta noite reúno trinta esculturas. A princípio diria que são a mescla feliz de meu ocaso e minha aurora, mas sei que se tratam apenas do que resta de mim. Sou uma matéria amorosa dos deuses. Estou em suas mãos. Sou o seu segredo infatigável e a injúria dos seus artifícios. Decerto ainda me chamo Antonio e alguma vez amei Olívia. Jamais me desvencilhei de seu amor. Não me importa onde andará, que recordações amontoa de mim. Não serei intolerável com essas trinta figuras que assumem perfis inomináveis. A todo instante somos exaltados pela memória. Quero apenas ser melodioso em meu êxtase. E que esta noite inaugure mais uma de suas dores sonhadas.

 

 

r e t o r n o   à   g a l e r i a