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A PERCEPÇÃO
O que nos esclarece o sentido
de um encantamento fortuito
quando se ausentam, diversas
as razões, os motivos instáveis
de uma presença da realidade...
Por vezes me ponho a pensar
na supressora regra da virtude,
se não estaria ali uma estável
rejeição do impuro, uma réplica
da mais comum atitude humana.
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A REPRESENTAÇÃO
Haverá uma maneira madura
de ver o mundo?, era a curiosidade
do visitante ao sair de um Museu
de Arte Contemporânea, e talvez
o dissesse pensando no assédio
do catálogo ao impor uma madurez
de estilo a obras em curso, falaz
etiqueta, não pela arte vendida,
mas pelo recurso da incerteza
eliminada no artista e no visitante.
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A CAUTELA
O que eliminas quando falamos
em tomar consciência dos fatos,
quando buscamos, talvez cegos,
um lugar físico para a verdade?
costumas chamar de correções
ou zelos afeitos à vida eterna,
e justificas no gesto um estado
prolongado da salvação humana,
de não rendição aos caprichos
mais indesejáveis do destino?
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A SEMELHANÇA
É comum a troca de amabilidade
entre a realidade e a imagem,
de maneira que quase ninguém
mais sabe a distinção entre Deus
e o homem, e quando um se diz
o outro legitima a impossibilidade
de sê-lo, pois nada é semelhante,
ou o parecido nunca é o mesmo,
e quando assim o quer, se desfaz,
aberração entregue à própria sorte.
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A ORIGINALIDADE
Sempre me pergunto se o artista
diz para si, em algum momento,
que o ídolo não existe. Inevitável
indagar, a quem atende tal idéia,
o que haverá abaixo da terra
ou acima do céu. Pouco define
a imagem de si que faz um artista.
A passagem de uma obra a outra,
sustenta-se enfim como devoção
ou será apenas o que parece?
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A MÁSCARA
Rostos tragados, perfis mesclados,
confundidos olhares, manchas,
súbitas manchas, gritos desfeitos,
palavras vagando no espanto,
um aleijão no absurdo, alegoria
decaída, falhas de toda sorte, sim,
tremor de mitos, abutres cegos,
sinos queimantes, disfarces,
talvez seja apenas isso, a contagem
dos dias e um zurro de disfarces.
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A PERSPECTIVA
A beleza não recorre à deformidade,
torna-se ambiente aceito, conflito
algum considerado, apenas o feio
refaz bagagens, de uma ponte a outra,
sempre referência ao que é perdido.
Eis aí a questão: o que se ganha
ou perde é quase sempre um malogro,
simetria cognitiva viciada em espelhos,
e a beleza será servil, durável apenas
o que é cabível à realidade do códex.
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A DETERMINAÇÃO
O lugar de ser de qualquer vontade
é um atropelo onde a tolerância
não encontra sossego, castigada
sempre pelo dúbio assédio da razão,
que não para de provocar o choque
entre a presunção e o valor intrínseco.
O charmoso o que é melhor para mim
atende a todos, alegoria eclesiástica,
ritualismo de exceção, socava, remói,
teologia da soberba, olho d’água.
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A TOTALIDADE
Por que todos esses olhos, que
estranham a tudo o que vêem:
o mínimo, o inconstante, o que
está a ponto de sumir, olhos fixos
em um ponto inexato do viver,
persuadidos pela forma aplicada
do desejo, do devir, da exceção,
por que todos, extremos e nus,
olham-nos sem objetivo algum
e sequer dão conta do que somos?
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A PRECARIDADE
Uma pequena fraude embaraça
a visão do corpo de quem se ama,
alheia ao mesmo como um roubo
de citações, talvez ingênuo golpe
da natureza, soberbo artifício
ou evidência precária do desamor,
não se comenta muito a respeito,
vestidos perdem o uso, desejos
mudam de lugar e todos os livros
são dados (carne triste) como lidos.
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A DISTINÇÃO
Algumas guerras são silenciosas,
confrontos, abalos, explosões,
mudanças de ponto de vista, céus
desabando sobre expectativas,
a maneira espúria de eliminar-se
em fantasias sem tormento. Diz
um enfado: a morte não olha
para os lados. E não deixando
de lado morte alguma, a inércia
revela-se uma sagrada instituição.
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A VERTIGEM
O livro diz: este corpo é meu,
e se põe a lê-lo, descobrindo-se
no passar de páginas, memória
e ansiedade desmembradas,
reescritos tormentos, e ao ler-se
percebe o quanto é incerto
em afirmativas, por onde andei,
e inutilmente quer insurgir-se,
um outro livro, talvez, assim
pensando: um livro dá em outro.
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