hélio rôla & floriano martins
tEATRO DE SOMBRAS
![]() |
Muito longe como estás, erguido já o reino de tua ausência, o pranto pelos ermos arrastados da memória. Tua sombra arde na fria noite, uma queda a cada nome provocado: Devo deixar uma canção – doce voz em seu mantra – para que esta terra me encontre quando tudo houver perdido. Pouco agora de cinzas o que se entrega ao vento, palavras gastas, voz queimada. Antes que a dor trace outro círculo de giz a caminho de tua ausência, uns lábios tristes ressoam (meus, teus, de quem seriam então?): poucos versos me desafiam.
|
|
Sob a língua da ausente descanso um último segredo, que lhe possa evocar tais zelos: o que vai tornando teus dias um precipício, um domínio de ínsulas na própria carne, a túnica de trevas do errante amor. Como alcançar a origem das palavras, o esboço glorioso da fuga na trama de sua incógnita instância? Que mundo aceitar em nome de seus ardis? De silêncio é feita a chaga da palavra, a obscura cela em que se aguarda o ensaio de toda ausência. Retorço-me na quebra de tais dons, o que vai tornando meus dias um precipício guardado em si.
|
![]() |
![]() |
Lágrima tua, a primeira em meu sonho. Um pouco a dor repousa em sua taça de silêncio. Todos os escritos contidos no inferno da memória – cantavas a todo instante a morte que me tecia –, no delito cruel do tempo, na insólita trama de nossas vidas. Lágrima escura do mundo, onde pressente o destino culminar sua fortuna. Lamento oculto da noite preparada em teu sonho. Amor de presságios, lágrima impura. Que cena me alcança agora? Palco de sombras ao golpe de tua ausência: um último verso preparo, antes de ti.
|
|
Dentro da memória se guarda o amor silencioso das cinzas. Um mar secreto que nos invade em insistentes dobras do tempo. Provo de tua imortalidade, um cinema tecido entregue a orações: dá-me teu amor, oh dá-me teu amor. Lembra-me o poeta que a dor não passa de um minuto. Nada se iguala ao vento de tua voz, festa de sombras. Outro corpo que se esboça em plena dor. Capela severa do mar dentro da qual escrevemos e os versos nunca retornam. Secreto vínculo com o destino – oh dá-me – que não se encontra nunca em casa.
|
![]() |
![]() |
Domínio inconstante de febres, um sinal misterioso da alma urdindo tua ausência para tornar a invadir-me. Toma-me o sangue e nada se altera: o futuro não se guarda no amor? – Tarde caindo no restaurante. Contive teu corpo muito além da solidão. Uma dor de ecos tecia seus mananciais. Quanto de silêncio voa diante de nós e não conhecemos sua voz! Aquário de raízes. Dentro de uma lâmpada se projeta radiante a memória do amor, incêndio que é um rio dentro do fogo que nos banha uma única vez. Devolve-nos o bosque a dor do pássaro, o altar desfeito, a insidiosa luz na cela vazia.
|
|
Invisíveis se arrastam os volumes de tua ausência por entre os dias com insustentável equilíbrio, lenta caravana de objetos por entre as ruínas de uma dor imóvel. Linhas de ossos, elétricas em seus sinais, fervores agudos em sombras de mármore ou sílex. Paisagem dilatada pela frase ressoante: o que escreves é pedra convertida em secreta agonia. Dor da pedra em soneto cinzelada. Flor do amor caído em trapos. Firma-te gesso na ausência de outra carne. Modelo em ti minha própria queda. Mãos de nada. Branco ideograma.
|
![]() |
![]() |
Sombra saturada de outras sombras, ferida de memória na última pele do canto. Perigo de letras caindo em outras mãos, entre assombros escritos em pleno vácuo. Tábuas cobertas de limo enquanto a alma entregue aos tecidos ondulantes da dor, ausência lavrada em tremores, vísceras que são esboços de outro verbo. Versão do sonho rompido em tréguas: rio que sangra em mim, tudo em ti deságua. Tais cenas roídas no espelho não retornam com as páginas. São partes da vida os rostos que não lembramos e o limo de outra alma que retemos em plena queda.
|
r e t o r n o à g a l e r i a
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |