hélio rôla & floriano martins
ÚLTIMAS PISTAS
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Náufrago desperto em números
Detido no
jogo do vento
Em suas
artérias de presságios
Ossos de um
mesmo e exposto cadáver
Longe canta
a eternidade sua desprezada justiça
Canções de
trevas
Relâmpagos
ridentes
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Náufrago iluminado pelo contágio
Contando lágrimas sob a língua
Longe longe a pretensa história de seus mortos
Quem por terra cai ali se esvai
Em súbito monumento de chamas
Ardiam os dias sepulcros à deriva
Horror delicado das súplicas
Paisagem com seus planos de histeria
Um lampejo de traumas
Arrastam-se os lábios por toda a fala
Tenebrosa estrela
És o equívoco silencioso
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Náufrago à borda de teu miserável destino
Tempo contemplado em despojos
Por onde o fogo a desfolhar-se começa?
Como o abismo reconhecer gotejando suas aves?
Pondo as coisas para andar
Para cantar a selva sua paciente tragédia
Fantasmas a cada passo
Absoluto absurdo
Para cantar as formas que são a vertigem do tempo
A intimidade disforme de tudo quanto sonhas
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Náufrago desfeito em um sistema de perdas
Quantas refletem tua queda?
Qual a irreparável vocação?
Será tua a vez de assumir o desastre
Das formas perderem a fala
Do espaço evadir-se de si
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Quem és?
Oh náufrago com o homem às costas
Como eletrificastes as circunstâncias?
Visionários guias
Rumores cristalizados
Destinos em série
De que se ri a imóvel paisagem?
Foram-se os outros todos náufragos
Um precioso talho de árvores em fuga
Caos contra o infortúnio
Ânima contestada
Formas resumidas a um breve bosque de catástrofes
Que vida prolonga o poema?
Que célebre demência ancora na esfera fulminada?
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Para mudar tua vida o canto
Nominar o silêncio o verbo o esquecimento
Riscar os fósforos de todos os domicílios da beleza
Uma última onda até morrer o sentido
Linguagem arenosa
Monastério da dúvida
Comporta-se o náufrago como um farol caído
A tudo vê passar sem utilidade alguma
Escombros da própria agonia
Interminável a conta das lágrimas
seus estudos de silêncio
Terra insolente sobre os prodígios de sua queda
Fronteira onde não floresce
uma ave uma luz vulgar uma voz
Náufrago o náufrago de si mesmo
Soberbo ataúde
Nenhuma treva lhe cai tão bem
Recordará um dia sua fortuna
recusando-se ao enterro
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Caminhos os temos em silêncio aos berros
Vozes recuperam-se de crimes
da cortina de delitos do alimento de lamentos da convulsão de sons
São como ases
Um poema repleto de vozes
Um templo contra a morte
Ávida beleza infernal
de aves corroendo o céu com seus véus
Naufrague a pedra o homem a árvore
Ali onde sabemos a eternidade magnético equívoco
Místico pavor quando tudo pode esperar
Não há um triunfo da forma
As honras são todas da dor
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Náufrago o náufrago caído em números
Perfeito o veneno sobre seu dorso abandonado
Quem o toque em naufrágio iguala-se
Lúbricas as transfigurações do ser
O monumento do náufrago a si mesmo
Uma história de angústias em rostos desfigurados
Ali soam suas vértebras a seiva a solidez
Sombras que se urdem acumuladas em gozo
Ressurgem o mito as vozes migratórias
a árvore que canta
Dá-se que tudo é naufrágio
– trema um sentido decaia uma dor
retire-se um abismo
O corpo detido em destino
Despedaçado em sombras
Náufrago de que lei?
Febre de areias sobre seu dorso
Imagens circulares refazendo-se sob o sol
Sobre a morte interroga-se
É sua língua desmedida
Deserto é afeto desfeito o ermo do medo da solidão
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Aproxima-se de si o náufrago
Sem mais temer sua fábula
Dá-se a cicatrizar a memória
O rio do náufrago o sal sem pressa o sonho o barco desvirado a
imagem sangrenta delirante agulha o infinito a montanha o mar a
pesca de anseios o engulho de algas a dor do céu a rosa molhada os
lábios comidos de areia o milagre do esquecimento
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Não há tempo a perder no náufrago
Gramática é a sua do rumor desperto em êxtase
Loucura a linguagem recriar-se soberba ambígua
Incalculável farol nos lábios do náufrago
Dorso de sal
Inclemência do verbo
Alegoria do ser
Parábola do verso sobre a agonia humana
Areia areia areia
Diante do próprio naufrágio o náufrago
mal consegue respirar suas aves
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r e t o r n o à g a l e r i a
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