hélio rôla & floriano martins
ÓLEOS DE TREVAS
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Sumário vôo de pequenas formas dentro do vazio, miséria visível. Áspera fortuna da luz que há de nos tocar enquanto formos os despojos de tantas sombras. Pele enrugada da idêntica pergunta que tece há milênios em sua rota: que gosto mantemos pela imagem do homem cruzando seu abismo? Que ouro do ser lapida em tal vôo?
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Poetas duelam com o instante. Sangram a memória enfurecida em secretos golpes de agonia. Não invocam senão quedas ardendo em golpes giratórios. Paisagem trêmula em meio a gritos oscilados em tristes vozes artificiais como a dor do tempo. Duram o que dura a zelosa estampa da glória mais alta dos acidentes.
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Algo nos torna mais que forma dissolvida ou transfigurada na matéria de nossos deslizes. Respiro uma esquiva semelhança, abres tua casa ao sigilo do nada. Um grito imóvel, uma noite fixa em seus próprios olhos, a terra ilusória por trás de toda imagem. O que refletimos não sabemos se mera justiça ou dura asfixia.
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Wei Yin Wu temia que as trevas fossem o desenho do coração, que fosse a dor a casa do homem e sangue a duração de seu êxodo. Novos nomes doava a formas já desfeitas em sua memória. O próprio rosto não reconhecia, nem mesmo o fulgor desse olhar. Indagava atônito sobre a luz do dia, certo de seus racimos ainda visíveis.
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Havia um poeta ali, bem ao lado de uma górgona em lábios carmins, dizendo-se entre o objeto e a palavra. Traduzia o clamor da catástrofe, agarrado às letras que havia salvo. Por toda a parte, das cinzas às cinzas, sussurros de areias e grifos na recolha do mais óbvio da cena. Sou a semente de todo o visível, sua voz. E ecoava: seremos ainda feitos de letras?
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Algumas fotografias sobre a mesa, irrestituíveis dejetos do instante. Ao limpar a casa o poeta se indaga: Só nos resta a raiz do cantar? Dilui-se em dura duração de datas, dopado pelo rigor da noite. Pedra de luz que o capta em ocioso deslize ao redor das sombras que tramam para que não amanheça o cantor. Visíveis os vestígios de todo limite.
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A caminho do abismo a palavra indaga a suas letras: o que busca aquela que cai sobre si mesma? Somos o centro do olho, a página que muda à lei de sua consumição. Dispersa-nos a pompa, a fraude de imagens que não descarnam a arquitetura que nos decompõe. Espelho de cicatrizes solitárias, buscamos a alma desfeita em corpo.
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À luz das palavras de René Char saímos a recolher versos: somente as marcas fazem sonhar. Não se sabe como um deus entra em repouso ao toque de dois corpos. O que invade a memória é o centro de sua desolação. Devoro as sombras. Crio tuas carnes abertas ao vazio. Tudo em ti me retrai e nega-me. Meu ser é tua matéria caída em si.
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Há muito planejamos tais cenas, o incêndio não passa de um batismo de cinzas, o ventre de um eterno cair em si. Fulgor viscoso a cumpliciar sombras das formas adquiridas na leitura a caminho do abismo. Descuido de corpos avulsos que se julgavam imortais: pétalas caindo além da vertigem.
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Linguagem às cegas, fala ao nosso alcance. Ouro simulado em discurso acerca do deus de algum lugar. Lei mais antiga suja nossas mãos. Somos aquilo que vemos, a ordem de toda miséria que nos desfaz em cânticos à permanência do ser. Limites estourados em limites, espíritos lacerados em troca de ecos que refaçam o homem em suas dores.
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r e t o r n o à g a l e r i a
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