hélio rôla
&
floriano martins
a c e s s o à s o b r a s
![]() |
![]() |
||
![]() |
![]() |
||
![]() |
![]() |
||
![]() |
![]() |
||
![]() |
![]() |
||
| erografias |
![]() |
s o b r e o s a r t i s t a s
|
|
Averiguar pistas que nos levem ao nosso próprio passado, à
infância, aos abismos familiares, sempre foi algo que me interessou mais
no plano poético do que mesmo em termos de anotação cronológica: o
mergulho nas zonas obscuras ou pouco visitadas de uma biografia como
aventura poética. Ir ao encontro de personagens fundamentais, não
somente parentes, que de alguma maneira contribuíram, quase sempre sem
que jamais o tenham percebido, para a minha formação. Ao trazer tais
figuras para a cena de um livro, por exemplo, onde naturalmente são
mescladas com as artimanhas do desejo e as perversões da memória, elas
ganham uma vida em grande parte distinta daquilo que realmente foram.
Este humor alquímico tem sido um componente substancioso em minha poesia
desde o momento em que passo a me situar em cena, ou seja, desde quando
percebo a mim mesmo como personagem daquilo que escrevo. De alguma
maneira, nos primeiros livros eu não participava da criação senão como
um narrador, distanciado. Esta mudança de perspectiva não se deu apenas
por efeito de leitura, mas antes por um acidente familiar, o coma que
apanhou minha avó materna quando eu estava com pouco mais de 30 anos.
Vê-la ali inerte no leito me provocou uma comoção interna, cujas
fagulhas naturalmente foram despertando toda a experiência até então
adormecida, misturando as tintas do vivido, existencial e
intelectualmente. Foi quando perderam o sentido as demarcações entre
arte e vida, e também as delimitações de gênero na criação artística. É
o momento em que escrevo um livro intitulado Cinzas do Sol
(1992), que excita toda uma nova maneira de encarar tanto a criação
poética quanto a própria existência. O humor acima referido me levaria a
dizer que a arte é fruto de uma avaria, de um desastre. A rigor, é isto
mesmo, desde que não pensemos em tais fatos com os olhos de um desses
catastrofistas de plantão que percebem os acidentes unicamente pela
lente do fracasso. Sendo ininterrupta a existência – a morte não nos
leva assim tão fácil como se imagina –, tudo aquilo que se desfaz
essencialmente se refaz. Assim é que a cena da avó materna prostrada ao
leito refaz em mim todo um cenário múltiplo de figuras com as quais
convivi e a memória de alguma maneira havia apagado, e o faz não como
uma recordação, mas antes trazendo tais personagens para um tablado de
confronto com o presente, atualizando o convívio entre passado e futuro,
bagunçando mesmo o coreto da existência. É o que faz a arte em seu
sentido mais vertiginoso e essencial: pôr em confronto as coisas.
Provocação, estímulo, investida, tudo isto passa a ser ambiente
procriador de uma outra linguagem que define a poesia para mim. E tudo
isto chama para o palco, para o fundo de cena, porque o convívio humano
é mesmo teatral, somos sempre a representação de algo. Dentre as figuras
inúmeras que conheci antes do coma de minha avó, destaco aqui a do
artista Hélio Rola, pois estive em sua casa algumas vezes ali por volta
de meus 17 anos. Ele não era propriamente um guru entre a
clandestinidade artística dos anos 70, por mais que a provinciana
Fortaleza então se organizasse espiritualmente como uma maquete mágica
de Paris, porém sua casa, na Praia de Iracema, bairro underground
à beira-mar, era visitada por todo o frenesi da época. Toda essa
camarinha de hippies, desocupados, alienados, transeuntes do abismo, já
sabemos no que deu: gente frustrada que se filiou ao poder de turno. Uns
poucos enlouqueceram de abismo. Uma fatia ainda menor resiste, porém
refeita pelo desfazimento de um sonho. E foi exatamente movido por esta
confluência acidental que me reencontrei com Hélio Rola 20 anos depois.
Enumerar coisas que fizemos, como as viagens ao México, minha curadoria
de uma exposição dele, parcerias em revistas e livros, enfim, tudo isto
tem aquele sabor bibliográfico que pode ser enumerado em outro momento.
Importa essencialmente referir-se à nossa parceria como uma afinidade
existencial, este nosso jeito distinto de encarar o mesmo abismo, a
aceitação do outro, a maneira como descarnamos a experiência de vida.
Somos o outro, o mesmo um do outro. E nos descarnamos a nós
mesmos em tudo o que fazemos. |