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Víctor
Sosa
O que aconteceu entre os bombardeios nazistas ao porto de Liverpool e os cinco disparos em frente ao edifício Dakota em Nova York, já faz parte da história da cultura do século XX. Lennon é - sem dúvida alguma - uma lenda, um mito, uma referência obrigatória, um ícone, um produto publicitário, uma imagem carregada de inumeráveis referências. Lennon foi - além de todas as opiniões importantes - um protagonista. Um protagonista que construiu a si próprio a partir de um duplo abandono: pai ausente - com a justificativa que recaía em sua profissão de marinheiro - e mãe desnaturada que, diante da recusa de seu novo companheiro - um tal Robert Dickins - de carregar o menino John, este acaba na casa de sua tia Mimi Smith - irmã de Julia -, que lhe proporciona o amor que a mãe não quis dar. Não é necessário abrir uma profunda hermenêutica psicanalítica para entender que este duplo abandono é substancial na personalidade e desenvolvimento artístico de Lennon. O cinismo, o machismo, a insegurança que marcará toda sua vida, as intermitentes depressões reunidas a uma hipertrofiada idéia de genialidade, a paranóia, as flutuações entre a dependência extrema de drogas - anfetaminas, LSD, heroína, ópio, maconha - e as igualmente intempestivas imersões na espiritualidade oriental, nas curas naturistas, na acupuntura, na terapia primal, no pacifismo, no compromisso social, desenham o molde de uma figura plural, contraditória, em permanente conflito consigo mesmo. É indubitável que os Beatles não seriam possíveis sem Lennon, mas - pelo contrário - é pouco provável que Lennon não existiria sem os Beatles. Arrisco a hipótese de que o grupo pop que mudou o rumo da música nos anos 60 foi uma feliz conjunção graças ao poder imantatório de John Lennon: sem este, sem suas neuroses, sem sua egolatria construída sobre seus sentimentos de inferioridade, sem sua baixa auto-estima, em suma, sem sua constante dor, o fenômeno e o mito da beatlemania jamais haveria existido.
A aparição de Yoko Ono na vida de Lennon significou a restituição da mãe, o pacto com seu lado feminino, o paulatino abandono de suas máscaras, de sua soberba, de seu machismo irredimível. Culpa-se a Ono de ter sido a causadora da separação dos Beatles e, em parte, aqueles que pensam assim têm razão. Ono controla Lennon, se ocupa dele e o ocupa; é uma invasora e uma protetora. Assim o salva. O salva de si mesmo, de seu delírio de líder, de pobre diabo convertido em Jesus Cristo. "Sou mais eu mesmo agora do que antes porque tenho a proteção de Yoko - disse o ex-Beatle -; é o que me provocou a mudança, é como ter uma mãe. Estou seguro em minha relação com ela e isso me permite relaxar. Antes nunca estava relaxado, sempre estava alerta, nervoso. Sempre estava na defensiva e por isso aparecia o Lennon cínico, os comentários sarcásticos e tudo isso. Já não sou assim, porque já não tenho nada a esconder." Lennon se afemina - no melhor sentido do termo. Quando nasce seu segundo filho, Sean, Lennon se fecha em seu apartamento do edifício Dakota, entregue ao cuidado do pequeno, e aprende a fazer pão, a cozinhar para Yoko, o bebê e alguns poucos convidados; já não compõe, ao menos por um ano e meio desaparece do mundo do espetáculo. Essa transformação pessoal também se dá reunida a uma participação cada vez mais ativa no âmbito social. A guerra do Vietnã permeou a sensibilidade da juventude e tornou intolerável qualquer atitude indiferente ou neutra a respeito. O binômio Lennon-Ono se manifesta, se desnuda, corta o cabelo, ingere LSD, se acama uma semana e chama a imprensa, diz: "Dê uma chance à paz" ou "A guerra acabou, se você assim deseja". Lennon enfrentou o governo Nixon, o FBI e a rainha Elizabeth como um adolescente que deixa crescer as costeletas para irritar seus pais. E conseguiu. Irritou aos poderosos, aos politicamente corretos, aos moralmente intocáveis. Não estava só: a geração dos anos 60 - e o rabicho final dos 70 - estava propensa à irreverência, ao questionamento sistemático do poder do Pai.
A época, o século, precisava de Lennon. Nascido sob o império da violência, sob o mesmo desígnio deixou de existir. "Todos somos Jesus Cristo e todos somos Hitler", dizia John em algum momento de sábia lucidez. Também, acrescentemos agora, todos somos John Lennon; todos somos filhos deste filho abandonado que soube ser o contraditório protagonista de uma época. |
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