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COMENTÁRIO
SOBRE DOIS POEMAS DE OCTAVIO PAZ
Cláudio
Willer
Inúmeras
vezes citei passagens dos ensaios e poemas de Octavio Paz, mas nunca escrevi
algo especificamente sobre ele. Certa vez tentei - e me perdi no meio do
caminho. Convidado a homenageá-lo após sua morte, em lugar
de organizar uma palestra, limitei-me a ler dois de seus poemas que já
havia traduzido e publicado, comentando então. A seguir, repito
o procedimento: apresento os poemas e, em paralelo, os comentários.
Preferia lê-los em voz alta. Mas não faltarão ocasiões.
Um deles é Carta a León
Felipe, que está em Ladera Este, reunião de poemas
escritos entre 1962 e 68, dos quais o mais conhecido é Blanco.
Publiquei-o em 1977, na página de poesia que editava no jornal Versus.
O outro é Noite em claro,
Noche
en claro, de Salamandra, poemas de 1958 a 1961. A tradução
saiu no suplemento Folhetim do jornal Folha de São Paulo,
em 1984, e, a seguir, na coletânea Folhetim - Poemas traduzidos,
publicada pelo mesmo jornal em 1987.
I
CARTA A LEÓN FELIPE
(Em resposta a seu poema-saudação
e a sua carta sobre nosso desencontro no México, no verão
passado [1967])
León
o quinto signo do céu giratório
o leão
cara de sol
o sol cara de homem
Sol
o quinto som
ao centro da música
O quinto sol
centro do movimento
León
Felipe querido
Bom dia
Hoje chegou o sol com teu poema
hoje
chegou o leão
e se plantou em meio
às cúpulas dos mausoléus
de Lodi
(sob o céu irrepreensível
negros
planetas cerceados)
e o Yamuna de lodo iridescente
Em Prithvirah Road 13
leio teu poema
como esta luz natural
Sustenta o mundo
como uma mão
Em sua palma
as cores os corpos as formas
saltam
repousam saltam
As coisas
como os saltimbancos
andam pelo ar
Dois papagaios em pleno vôo
desafiam o movimento
e a linguagem
Olha-os!
Já se foram!
Irradiação de umas quantas
palavras
É um bater de asas
o mundo se torna claro
só para tornar-se invisível
Aprender a ver ouvir dizer
o instantâneo
é nosso ofício
Fixar vertigens?
As palavras
como os periquitos no céu
se volatilizam
Seu movimento
é um regresso à imobilidade
Nada nos resta disse Bataille
a não ser escrever comentários
insensatos
sobre a ausência de sentido
do escrever
Comentários que se apagam
A escrita poética
é apagar o escrito
Escrever
sobre o escrito
o não escrito
Representar a comédia sem desenlace
Je ne puis parler d’une absence
de sens
sinon lui donnant un sens qu’elle
n’a pas
A escrita poética é
aprender a ler
o oco da escrita
na escrita
Não rastros do que fomos
caminhos
até o que somos
O poeta
tu o dizes em tua carta
é o que pergunta
aquele que desenha a pergunta
sobre o fosso
e ao desenhá-la
a apaga
A poesia
é a ruptura instantânea
instantaneamente cicatrizada
aberta de novo
pelo olhar dos outros
A ruptura
é a continuidade
A morte do Comandante Guevara
também é ruptura
não um fim
Sua memória
não é uma cicatriz
é uma continuidade que se desprende
para continuar
A poesia
é a fenda
o espaço
entre uma palavra e outra
configuração do inacabamento
León Felipe
leio teu poema
sob árvores fraternais
Há nomes que não conheces
eles conhecem o teu
Cai
sobre este verdor hipnotizado
uma luz implacável
cai
sobre as letras do teu poema
sobre o gato sonâmbulo
sobre o inseto de vidro
sobre o pássaro carbonizado em seu canto
sobre a pele da minha mulher adormecida-desperta
Tudo isto que me rodeia
seres e coisas nomes
é inacessível em sua
proximidade
Distância palpável
como a mulher
Em seu corpo
o mundo se manifesta e se oculta
forma que vêem meus olhos
e meu tato dissipa
Demasia da presença
mais do que um corpo
a mulher é uma pergunta
e é uma resposta
Vejo-a toco-a
também falo com ela
calo com ela somos uma linguagem
Alguns querem mudar o mundo
outros lê-lo
nós queremos falar com ela
Ao calarmo-nos
minha mulher e eu
aprendemos a ouvi-lo
Um dia talvez nos dirá algo
A luz cai sobre as presenças
cai
sobre estas palavras
A luz
ignora a escrita
nos ignora
Adeus León Felipe
Bom dia
(nesta página)
Não nos vimos no México
o desencontro foi um encontro
irradiação de umas quantas
palavras
uma leveza de sílabas girando
na imobilidade deste dia de inverno
COMENTÁRIO
Atrai-me neste poema sua naturalidade.
Coloquial, escrito como se Paz estivesse falando, conversando com o interlocutor
ausente, León Felipe. Sendo poema e carta, é também
uma descrição, observação do que o rodeia,
dos mausoléus de Delhi até o corpo de sua mulher adormecida.
E uma reflexão sobre a poesia, a palavra, presente em tantas outras
obras de Octavio Paz, sem dúvida um autor com o direito de repetir-se,
retomando, de modo recorrente e ao mesmo tempo renovado, os mesmos temas.
Sabemos que Paz foi ao mesmo tempo
um grande poeta e um grande ensaísta, e aqui está presente
sua dimensão ensaística, inclusive com citações.
Do mesmo modo, em seus ensaios há passagens que, recortadas, seriam
poemas em prosa, a exemplo do trecho, em O Arco e a Lira, em que
fala do ritmo na poesia e sua relação com o corpo, ou daquele,
em Convergências e Divergências, em que descreve o conhecimento
sensível, bem como, na mesma obra, sua apaixonada defesa das rebeliões
juvenis. Isso, além de obras como El mono gramático,
onde as modalidades, poesia e ensaio (e também o relato, a crônica…),
acabam por fundir-se inteiramente.
Observe-se ainda como é um poema
cosmopolita. Dirige-se outro poeta, mais velho, de outra época:
León Felipe, espanhol exilado no México, foi da geração
de 27, contemporâneo e amigo de Lorca. Cidadãos do mundo,
ambos, Paz e Felipe, integram um corpus literário no qual,
de tantos modos, se combinam o universal e o regional. Emblema da mesma
convivência de literaturas e autores é, também, uma
das fotos que ilustram o livro de entrevistas de Octavio Paz por Julián
Ríos, Solo a dos voces: lado a lado, o próprio Paz
e Julio Cortázar; o argentino que se instalou em Paris, o mexicano
que já havia estado em Paris, com tanto em comum e outro tanto de
divergência, fotografados em 1967 na Índia.
Assim, Carta a León Felipe
quer ultrapassar distâncias, fazer o percurso da Índia ao
México, passando pela poesia européia fundamental e fundante
para ambos. Unindo, simbolicamente, duas personalidades e dois lugares,
jogando admiravelmente com o concreto e o abstrato, o aqui e agora de Delhi
e o ontológico da poesia, busca abarcar o universo.
II
NOITE EM CLARO
Aos poetas André
Breton
e Benjamin Péret
Às dez da noite no Café
da Inglaterra
além de nós três
não havia mais ninguém
ouvia-se lá fora o passo úmido
do outono
passos de gigante cego
passos de bosque chegando à
cidade
Com mil braços com mil pés
de neblina
cara de névoa homem sem cara
o outono caminhava rumo ao centro
de Paris
com seguros passos de cego
As pessoas caminhavam pela grande
avenida
algumas com gesto furtivo arrancavam
seu rosto
Uma prostituta bela como uma papisa
atravessou a rua e desapareceu em
um muro esverdeado
A parede voltou a fechar-se
Tudo é porta
Basta a leve pressão de um
pensamento
Algo se prepara
disse um de nós
Abriu-se o minuto em dois
li signos na testa desse instante
Os vivos estão vivos
andam voam amadurecem explodem
os mortos estão vivos
oh ossos ainda com febre
o vento os agita os dispersa
cachos que caem entre as pernas da
noite
A cidade se abre como um coração
como um figo a flor que é fruto
mais desejo que encarnação
encarnação do desejo
Algo se prepara
disse o poeta
Esse mesmo outono vacilante
esse mesmo ano enfermo
fruto fantasma que resvala entre as
mãos do século
ano de medo tempo de sussurros e mutilações
Ninguém tinha rosto naquela
tarde
no metrô de Londres
No lugar dos olhos
abominação de espelhos cegos
No lugar dos lábios
rabisco de confusas costuras
Ninguém tinha sangue ninguém
tinha nome
não tínhamos corpo nem
espírito
não tínhamos rosto
O tempo dava voltas e voltas e não
passava
nada passava a não ser o tempo
que passa e regressa e não passa
Apareceu então o casal adolescente
ele era o ruivo "dardo de cupido"
gorro cinza-pardal errante e valente
ela era pequena sardenta e corada
maçã sobre uma mesa
de pobres
pálido ramo em um pátio
de inverno
Crianças ferozes gatos selvagens
duas plantas ariscas enlaçadas
duas plantas com espinhos e flores
súbitas
Sobre o casaco dela cor de morango
resplandeceu a mão do garoto
as quatro letras da palavra Amor
em cada dedo ardendo como astros

Tatuagem escolar tinta nanquim e paixão
anéis palpitantes
oh mão colar no pescoço
ávido da vida
ave de rapina e cavalo sedento
mão cheia de olhos dentro da
noite do corpo
pequeno sol e rio de frescor
mão que dá o sono e
dá a ressurreição
Tudo é porta
tudo é ponte
agora caminhamos na outra margem
olha lá embaixo correndo o
rio dos séculos
o rio dos signos
Olha correndo o rio dos astros
abraçam-se e separam-se voltam
a unir-se
falam entre si uma língua de
incêndios
suas lutas seus amores
são a criação
e a destruição dos mundos
A noite se abre
mão imensa
constelação de signos
escrita silêncio que canta
séculos gerações
eras
sílabas que alguém diz
palavras que alguém ouve
pórticos de pilares transparentes
ecos chamadas senhas labirintos
Pestaneja o instante e diz algo
escuta abre os olhos fecha-os
A maré se ergue
Algo se prepara
Nós nos dispersamos na noite
meus amigos se afastam
carrego suas palavras como um tesouro
ardente
Pelejam o rio e o vento de outono
peleja o outono com as casas negras
Ano de osso
pilha de anos mortos e cuspidos
estações violadas
século talhado em um uivo
pirâmide de sangue
horas roendo o dia o ano o século
o osso
Perdemos todas as batalhas
todo dia ganhamos uma
Poesia
A cidade se desdobra
seu rosto é o rosto do meu
amor
Suas pernas são pernas de mulher
Torres praças colunas pontes
ruas
rio cinturão de paisagens afogadas
Cidade ou Mulher Presença
leque que mostra e oculta a vida
bela como o motim dos pobres
tua testa delira porém em teus
olhos bebo cordura
tuas axilas são noite porém
teus peitos são dia
tuas palavras são de pedra
porém tua língua é de chuva
tuas costas são o meio do mar
tua risada é o sol entrando
pelos subúrbios
teu cabelo ao soltar-se é a
tempestade nos terraços da aurora
teu ventre a respiração
do mar a pulsação do dia
tu te chamas torrente e te chamas
pradaria
te chamas preamar
tens todos os nomes d'água
Mas teu sexo é inominável
a outra face do ser
a outra face do tempo
o avesso da vida
Aqui cessa todo discurso
aqui a beleza não é
legível
aqui a presença se torna terrível
voltada para si mesma a Presença
é vazio
o visível é invisível
Aqui se torna visível o invisível
aqui a estrela é negra
a luz é sombra luz e sombra
Aqui o tempo pára
os quatro pontos cardeais se tocam
é o lugar solitário
o lugar do encontro
Cidade Mulher Presença
aqui se acaba o tempo
aqui começa
COMENTÁRIO
Aqui, temos um poema-relato, poema-crônica,
sobre a relação de Paz com o Surrealismo, e com um de seus
componentes fundamentais, a experiência da cidade como espaço
mágico, por isso poético, nessa história de como ele
percorre uma sombria Paris do pós-guerra, em companhia de Breton
e Péret, e fala de uma igualmente sinistra Londres, onde se depara
com o casal de namorados adolescentes. Diante dessa visão, da manifestação
do amor, a cidade se transforma, ilumina-se, emerge o poético.
É clara a raiz baudelairiana,
de O Spleen de Paris, e especialmente dos Quadros Parisienses
das Flores do Mal, na Cidade a fervilhar, cheia de sonhos, onde/
O espectro, em pleno dia, agarra-se ao passante! (onde) Flui o mistério
em cada esquina, em cada fronde,/ Cada estreito canal do colosso possante.
Podia servir de epígrafe a frase famosa de um dos seus textos como
crítico de arte (lembrando que Paz é autor de um ensaio brilhante
sobre a revolução trazida pela crítica de arte baudelairiana,
Presencia
y Presente - Baudelaire Crítico de Arte, publicado na coletânea
Las
Peras del Olmo): A vida parisiense é fecunda em temas poéticos
e maravilhosos. O maravilhoso nos envolve e sacia como a atmosfera; mas
não o vemos.
A deambulação do flâneur,
a caminhar ao acaso em estado de disponibilidade, seria transformada em
valor, componente fundamental da atitude surrealista, por Breton, já
no texto de abertura de Les pas perdus: A rua, que eu acreditava
capaz de entregar a minha vida seus surpreendentes desvios, a rua, com
suas inquietações e seus olhares, era meu verdadeiro elemento:
lá eu recebia, como em nenhum outro lugar, o vento do eventual.
Marcaria algumas das obras máximas do Surrealismo, escritas sob
o signo da abertura ao acaso, ao imprevisível, à irrupção
do maravilhoso no cotidiano: Nadja, Os Vasos Comunicantes
e O Amor Louco de Breton; O Camponês de Paris, de Aragon,
La
liberté ou l’amour! de Robert Desnos, entre outras.
Será lícito falar em
uma dimensão "intertextual" de Noite em Claro? Parecem-me
evidentes, ao menos, paráfrases de um poema como Union Libre
de Breton em imagens como essas: Tua testa delira porém em teus
olhos bebo cordura/ Tuas axilas são noite porém teus peitos
são dia/ Tuas palavras são de pedra porém tua língua
é de chuva/ Tuas costas são o meio do mar/ (…); e também
de muito mais da lírica de Breton e Péret, sem deixar de
ser, em momento algum, integralmente de Octavio Paz.
Pode-se falar, ainda, a propósito
dos dois poemas aqui apresentados e comentados, Carta a León
Felipe e Noite em Claro, da relação entre poesia
e vida. E, dando sentido à vida, possibilitando a poesia, do diálogo,
da amizade entre poetas como Felipe, Breton e Péret; os poetas,
os verdadeiros destinatários da poesia. |