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Revista de Cultura nº 8

Fortaleza/ São Paulo, janeiro de 2001

COMENTÁRIO SOBRE DOIS POEMAS DE OCTAVIO PAZ
Cláudio Willer
ag8paz1.JPG (32540 bytes)Inúmeras vezes citei passagens dos ensaios e poemas de Octavio Paz, mas nunca escrevi algo especificamente sobre ele. Certa vez tentei - e me perdi no meio do caminho. Convidado a homenageá-lo após sua morte, em lugar de organizar uma palestra, limitei-me a ler dois de seus poemas que já havia traduzido e publicado, comentando então. A seguir, repito o procedimento: apresento os poemas e, em paralelo, os comentários. Preferia lê-los em voz alta. Mas não faltarão ocasiões.

Um deles é Carta a León Felipe, que está em Ladera Este, reunião de poemas escritos entre 1962 e 68, dos quais o mais conhecido é Blanco. Publiquei-o em 1977, na página de poesia que editava no jornal Versus

O outro é Noite em claro, Noche en claro, de Salamandra, poemas de 1958 a 1961. A tradução saiu no suplemento Folhetim do jornal Folha de São Paulo, em 1984, e, a seguir, na coletânea Folhetim - Poemas traduzidos, publicada pelo mesmo jornal em 1987.

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I

CARTA A LEÓN FELIPE
(Em resposta a seu poema-saudação e a sua carta sobre nosso desencontro no México, no verão passado [1967])

León
        o quinto signo do céu giratório
                                                       o leão
cara de sol
                  o sol cara de homem
                                                  Sol
o quinto som
                        ao centro da música
O quinto sol
                    centro do movimento
                                                        León
Felipe querido
                        Bom dia
Hoje chegou o sol com teu poema
                                                        hoje
chegou o leão
                        e se plantou em meio
às cúpulas dos mausoléus de Lodi
(sob o céu irrepreensível
negros
planetas cerceados)
e o Yamuna de lodo iridescente

Em Prithvirah Road 13
                                  leio teu poema
como esta luz natural
                                Sustenta o mundo
como uma mão
                        Em sua palma
as cores os corpos as formas
                                                saltam
repousam saltam
                          As coisas
como os saltimbancos
                                  andam pelo ar
Dois papagaios em pleno vôo
                                            desafiam o movimento
e a linguagem
                        Olha-os!
                                        Já se foram!
Irradiação de umas quantas palavras
É um bater de asas
                                o mundo se torna claro
só para tornar-se invisível

Aprender a ver ouvir dizer
                                        o instantâneo
é nosso ofício
                       Fixar vertigens?
As palavras
                   como os periquitos no céu
se volatilizam
                    Seu movimento
é um regresso à imobilidade

Nada nos resta disse Bataille
a não ser escrever comentários
                                                insensatos
sobre a ausência de sentido do escrever
Comentários que se apagam
                                            A escrita poética
é apagar o escrito
                           Escrever
sobre o escrito
                        o não escrito
Representar a comédia sem desenlace
Je ne puis parler d’une absence de sens
sinon lui donnant un sens qu’elle n’a pas

A escrita poética é
                            aprender a ler
o oco da escrita
                        na escrita
Não rastros do que fomos
                                        caminhos
até o que somos
                          O poeta
tu o dizes em tua carta
                                    é o que pergunta
aquele que desenha a pergunta
                                                sobre o fosso
e ao desenhá-la
                        a apaga
A poesia 
                é a ruptura instantânea
instantaneamente cicatrizada
                                             aberta de novo
pelo olhar dos outros
                                A ruptura
é a continuidade
A morte do Comandante Guevara
também é ruptura
                           não um fim
Sua memória
                      não é uma cicatriz
é uma continuidade que se desprende
para continuar
                        A poesia
é a fenda
                o espaço
entre uma palavra e outra
configuração do inacabamento

León Felipe
                   leio teu poema
sob árvores fraternais
Há nomes que não conheces
eles conhecem o teu
                                Cai
sobre este verdor hipnotizado
uma luz implacável
                             cai
        sobre as letras do teu poema
        sobre o gato sonâmbulo
        sobre o inseto de vidro
        sobre o pássaro carbonizado em seu canto
        sobre a pele da minha mulher adormecida-desperta
Tudo isto que me rodeia
                                     seres e coisas nomes
é inacessível em sua proximidade
                                                  Distância palpável
como a mulher
                        Em seu corpo
o mundo se manifesta e se oculta
forma que vêem meus olhos
                                            e meu tato dissipa
Demasia da presença
                                mais do que um corpo
a mulher é uma pergunta
                                        e é uma resposta
Vejo-a toco-a
                    também falo com ela
calo com ela somos uma linguagem
Alguns querem mudar o mundo
                                                outros lê-lo
nós queremos falar com ela
                                          Ao calarmo-nos
minha mulher e eu
                             aprendemos a ouvi-lo
Um dia talvez nos dirá algo

A luz cai sobre as presenças
                                             cai
sobre estas palavras
                                A luz
ignora a escrita
                        nos ignora
Adeus León Felipe
                            Bom dia
(nesta página)
                        Não nos vimos no México
o desencontro foi um encontro
irradiação de umas quantas palavras
uma leveza de sílabas girando
na imobilidade deste dia de inverno

ag8paz4.JPG (77343 bytes)COMENTÁRIO

Atrai-me neste poema sua naturalidade. Coloquial, escrito como se Paz estivesse falando, conversando com o interlocutor ausente, León Felipe. Sendo poema e carta, é também uma descrição, observação do que o rodeia, dos mausoléus de Delhi até o corpo de sua mulher adormecida. E uma reflexão sobre a poesia, a palavra, presente em tantas outras obras de Octavio Paz, sem dúvida um autor com o direito de repetir-se, retomando, de modo recorrente e ao mesmo tempo renovado, os mesmos temas. 

Sabemos que Paz foi ao mesmo tempo um grande poeta e um grande ensaísta, e aqui está presente sua dimensão ensaística, inclusive com citações. Do mesmo modo, em seus ensaios há passagens que, recortadas, seriam poemas em prosa, a exemplo do trecho, em O Arco e a Lira, em que fala do ritmo na poesia e sua relação com o corpo, ou daquele, em Convergências e Divergências, em que descreve o conhecimento sensível, bem como, na mesma obra, sua apaixonada defesa das rebeliões juvenis. Isso, além de obras como El mono gramático, onde as modalidades, poesia e ensaio (e também o relato, a crônica…), acabam por fundir-se inteiramente. 

Observe-se ainda como é um poema cosmopolita. Dirige-se outro poeta, mais velho, de outra época: León Felipe, espanhol exilado no México, foi da geração de 27, contemporâneo e amigo de Lorca. Cidadãos do mundo, ambos, Paz e Felipe, integram um corpus literário no qual, de tantos modos, se combinam o universal e o regional. Emblema da mesma convivência de literaturas e autores é, também, uma das fotos que ilustram o livro de entrevistas de Octavio Paz por Julián Ríos, Solo a dos voces: lado a lado, o próprio Paz e Julio Cortázar; o argentino que se instalou em Paris, o mexicano que já havia estado em Paris, com tanto em comum e outro tanto de divergência, fotografados em 1967 na Índia. 

Assim, Carta a León Felipe quer ultrapassar distâncias, fazer o percurso da Índia ao México, passando pela poesia européia fundamental e fundante para ambos. Unindo, simbolicamente, duas personalidades e dois lugares, jogando admiravelmente com o concreto e o abstrato, o aqui e agora de Delhi e o ontológico da poesia, busca abarcar o universo.

II

NOITE EM CLARO

Aos poetas André Breton
e Benjamin Péret
Às dez da noite no Café da Inglaterra
além de nós três
                          não havia mais ninguém
ouvia-se lá fora o passo úmido do outono
passos de gigante cego
passos de bosque chegando à cidade
Com mil braços com mil pés de neblina
cara de névoa homem sem cara
o outono caminhava rumo ao centro de Paris
com seguros passos de cego
As pessoas caminhavam pela grande avenida
algumas com gesto furtivo arrancavam seu rosto
Uma prostituta bela como uma papisa
atravessou a rua e desapareceu em um muro esverdeado
A parede voltou a fechar-se
Tudo é porta
Basta a leve pressão de um pensamento
Algo se prepara
          disse um de nós

Abriu-se o minuto em dois
li signos na testa desse instante
Os vivos estão vivos
andam voam amadurecem explodem
os mortos estão vivos
oh ossos ainda com febre
o vento os agita os dispersa
cachos que caem entre as pernas da noite
A cidade se abre como um coração
como um figo a flor que é fruto
mais desejo que encarnação
encarnação do desejo
Algo se prepara
                        disse o poeta

Esse mesmo outono vacilante
esse mesmo ano enfermo
fruto fantasma que resvala entre as mãos do século
ano de medo tempo de sussurros e mutilações
Ninguém tinha rosto naquela tarde
no metrô de Londres
No lugar dos olhos
                              abominação de espelhos cegos
No lugar dos lábios
                             rabisco de confusas costuras
Ninguém tinha sangue ninguém tinha nome
não tínhamos corpo nem espírito
não tínhamos rosto
O tempo dava voltas e voltas e não passava
nada passava a não ser o tempo que passa e regressa e não passa
Apareceu então o casal adolescente
ele era o ruivo "dardo de cupido"
gorro cinza-pardal errante e valente
ela era pequena sardenta e corada
maçã sobre uma mesa de pobres
pálido ramo em um pátio de inverno 
Crianças ferozes gatos selvagens
duas plantas ariscas enlaçadas
duas plantas com espinhos e flores súbitas
Sobre o casaco dela cor de morango
resplandeceu a mão do garoto
as quatro letras da palavra Amor
em cada dedo ardendo como astros

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Tatuagem escolar tinta nanquim e paixão
anéis palpitantes
oh mão colar no pescoço ávido da vida
ave de rapina e cavalo sedento
mão cheia de olhos dentro da noite do corpo
pequeno sol e rio de frescor
mão que dá o sono e dá a ressurreição

Tudo é porta
                    tudo é ponte
agora caminhamos na outra margem
olha lá embaixo correndo o rio dos séculos
o rio dos signos
Olha correndo o rio dos astros
abraçam-se e separam-se voltam a unir-se
falam entre si uma língua de incêndios
suas lutas seus amores
são a criação e a destruição dos mundos
A noite se abre
                       mão imensa
constelação de signos
escrita silêncio que canta
séculos gerações eras
sílabas que alguém diz
palavras que alguém ouve
pórticos de pilares transparentes
ecos chamadas senhas labirintos
Pestaneja o instante e diz algo
escuta abre os olhos fecha-os
A maré se ergue
                          Algo se prepara

Nós nos dispersamos na noite
meus amigos se afastam
carrego suas palavras como um tesouro ardente
Pelejam o rio e o vento de outono
peleja o outono com as casas negras
Ano de osso
pilha de anos mortos e cuspidos
estações violadas
século talhado em um uivo
pirâmide de sangue
horas roendo o dia o ano o século o osso
Perdemos todas as batalhas
todo dia ganhamos uma
                                        Poesia

A cidade se desdobra
seu rosto é o rosto do meu amor
Suas pernas são pernas de mulher
Torres praças colunas pontes ruas
rio cinturão de paisagens afogadas
Cidade ou Mulher Presença
leque que mostra e oculta a vida 
bela como o motim dos pobres
tua testa delira porém em teus olhos bebo cordura
tuas axilas são noite porém teus peitos são dia
tuas palavras são de pedra porém tua língua é de chuva
tuas costas são o meio do mar
tua risada é o sol entrando pelos subúrbios
teu cabelo ao soltar-se é a tempestade nos terraços da aurora
teu ventre a respiração do mar a pulsação do dia
tu te chamas torrente e te chamas pradaria
te chamas preamar
tens todos os nomes d'água
Mas teu sexo é inominável
a outra face do ser
a outra face do tempo
o avesso da vida
Aqui cessa todo discurso
aqui a beleza não é legível
aqui a presença se torna terrível
voltada para si mesma a Presença é vazio
o visível é invisível
Aqui se torna visível o invisível
aqui a estrela é negra
a luz é sombra luz e sombra
Aqui o tempo pára
os quatro pontos cardeais se tocam
é o lugar solitário o lugar do encontro

Cidade Mulher Presença
aqui se acaba o tempo
aqui começa

ag8paz5.JPG (63411 bytes)COMENTÁRIO

Aqui, temos um poema-relato, poema-crônica, sobre a relação de Paz com o Surrealismo, e com um de seus componentes fundamentais, a experiência da cidade como espaço mágico, por isso poético, nessa história de como ele percorre uma sombria Paris do pós-guerra, em companhia de Breton e Péret, e fala de uma igualmente sinistra Londres, onde se depara com o casal de namorados adolescentes. Diante dessa visão, da manifestação do amor, a cidade se transforma, ilumina-se, emerge o poético. 

É clara a raiz baudelairiana, de O Spleen de Paris, e especialmente dos Quadros Parisienses das Flores do Mal, na Cidade a fervilhar, cheia de sonhos, onde/ O espectro, em pleno dia, agarra-se ao passante! (onde) Flui o mistério em cada esquina, em cada fronde,/ Cada estreito canal do colosso possante. Podia servir de epígrafe a frase famosa de um dos seus textos como crítico de arte (lembrando que Paz é autor de um ensaio brilhante sobre a revolução trazida pela crítica de arte baudelairiana, Presencia y Presente - Baudelaire Crítico de Arte, publicado na coletânea Las Peras del Olmo): A vida parisiense é fecunda em temas poéticos e maravilhosos. O maravilhoso nos envolve e sacia como a atmosfera; mas não o vemos

A deambulação do flâneur, a caminhar ao acaso em estado de disponibilidade, seria transformada em valor, componente fundamental da atitude surrealista, por Breton, já no texto de abertura de Les pas perdus: A rua, que eu acreditava capaz de entregar a minha vida seus surpreendentes desvios, a rua, com suas inquietações e seus olhares, era meu verdadeiro elemento: lá eu recebia, como em nenhum outro lugar, o vento do eventual. Marcaria algumas das obras máximas do Surrealismo, escritas sob o signo da abertura ao acaso, ao imprevisível, à irrupção do maravilhoso no cotidiano: Nadja, Os Vasos Comunicantes e O Amor Louco de Breton; O Camponês de Paris, de Aragon, La liberté ou l’amour! de Robert Desnos, entre outras.

Será lícito falar em uma dimensão "intertextual" de Noite em Claro? Parecem-me evidentes, ao menos, paráfrases de um poema como Union Libre de Breton em imagens como essas: Tua testa delira porém em teus olhos bebo cordura/ Tuas axilas são noite porém teus peitos são dia/ Tuas palavras são de pedra porém tua língua é de chuva/ Tuas costas são o meio do mar/ (…); e também de muito mais da lírica de Breton e Péret, sem deixar de ser, em momento algum, integralmente de Octavio Paz. 

Pode-se falar, ainda, a propósito dos dois poemas aqui apresentados e comentados, Carta a León Felipe e Noite em Claro, da relação entre poesia e vida. E, dando sentido à vida, possibilitando a poesia, do diálogo, da amizade entre poetas como Felipe, Breton e Péret; os poetas, os verdadeiros destinatários da poesia.

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