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Revista de Cultura nº 8
 

Fortaleza/ São Paulo, janeiro de 2001
 

AS FONTES DO OLHAR

João de Jesus Paes Loureiro

ag8loureiro1.JPG (23757 bytes)A Amazônia tem sua visualidade marcada por grandes linhas de força como a natureza, as tribos indígenas e sua cultura, as manifestações de arte popular, a arte plumária, a cerâmica, as embarcações, as casas, os rios, as ruas. Uma visualidade agônica, temário de elegias, atravessando um permanente processo de descaracterização, pela entrada desse visual imposto pela cultura de massa, industriada na região pelo capitalismo englobante, que, além da padronização de efeitos visuais dados pelos novos materiais e pela eletrônica, inclui as largas solidões visuais das queimadas, após o rubro e o cinza do fogo e da fumaça. Um presente que existe como instância do fim, a cultura regional vive sob o signo da perda e a consciência dessa perda ainda é o que possibilita a reflexão capaz de reinstalar possíveis rumos alternativos ao processo da cultura local face a isso.

A plasticidade visual na Amazônia, decorrente da criação de "artesãos" da cor, é um caso de dissonância face aos cânones estabelecidos como norma da pintura atual, pela ideologia dominante. Mais precisamente, trata-se de uma forma de distorção. O desenvolvimento de um processo criador em desacordo com os ideários estéticos em vigor. A impossibilidade de seu enquadramento nas correntes estéticas oriundas na ideologia dominante e às regras que por elas são formuladas ou impostas, configura a sua expressão como sinais manifestos de "distorções significantes das normas em vigor" (France Vernier "L’écriture et les textes").

Este texto que visa a formular algumas idéias sobre a visualidade amazônica proveniente de seus coloristas e desenhistas populares, não poderia deixar de reconhecer uma certa relação genética desse cromatismo com a natureza, com essa experiência do olhar que marca o homem da região em uma terra tropical contrastante em sua monumentalidade. Quem caminha na mata ou navega pelos rios sente a experiência do choque, quando em meio à regularidade do verde surgem, de repente, frutas de cores ostensivas ou pássaros de radiantes penas; quando no curso pardacento do rio, pescam-se peixes de coloridas escamas ou de pele manchada por cores intensas. Maracujás e uxis bóiam nas marés. Marrons cupuaçus e amarelos abíus rolam caídos no capim. Araras e uirapurus estrelam no ar suas penas policrômicas. Assim, para se compreender o cromatismo das pinturas populares (artísticas ou não) na Amazônia, é necessário reinocentar o olhar.

Da natureza vem o sentido de plumagem na combinação surpreendente das cores, como, também, dos peixes ornamentais provém a familiaridade com a surpresa cromática. É o paraíso das cores primárias: o vermelho, o azul, o amarelo. E dos contrastes cromáticos chapados. A glória do sensível desmedido. O mundo dos objetos revestidos pelas cores do afeto: o prazer de colorir. E as coisas são coloridas como recebendo um vestuário. E, com isso, a posse pela cor.

São marcas de passagem de um povo que olha. Revelam a insurreição contra a regularidade aparente do verde e do barrento. A escrita do homem sobre o universo, em uma visualidade lírica, pois estabelece um acordo do homem da região com o mundo e do mundo consigo mesmo. Formula o pacto elementar entre a essência e a aparência. É uma visualidade que indicia a ocupação da solidão, horror ao vazio. As cores se apoderam de todas as superfícies postas ao dispor do homem. E ele joga com as cores criando a sua humilde mas berrante natureza humanizada, marcada de tonalidades fortes e agressivos contrastes. Como a epiderme exterior de um desejo de retirar tudo da uniformidade. Uma ânsia de diferença. O gosto pelo particular, em uma região de universalidade.

Essa visualidade contraria as normas estéticas aceitas e promovidas pela ideologia dominante quanto às relações cromáticas, ao equilíbrio das cores, às projeções idiossincrásicas de grupos sociais ou de pessoas. Questiona o efeito da pintura "erudita". A contravenção está no fato de que torna expressiva uma visualidade que não se integra às normas do "bom gosto" estabelecido pela classe dominante. Uma visualidade produzida espontaneamente, como gesto de incluir a emoção humana profunda e visível, na superfície das coisas. O mundo como um teatro de cores. Com forte nota de primitivismo, como nas fachadas das casas, por onde berram os mais surpreendentes arranjos cromáticos, como o verde/azul, o róseo insistente ao lado do amarelo mais solar, o mais transgressor lilás ao lado do marrom. Há uma precipitação de contrastes em muros e paredes, em barcos e letreiros. As nuanças, as transições gradativas não existem. A relação combinatória é quase sempre traumática. Apenas o branco estende um contraponto suavizador, espumas de rio entre o barrento e o verdoengo. É, portanto, uma visualidade insurrecta. Um berro que se mostra como individualidade humanizada, na vastidão dos sem-fins. À semelhança de tatuagens, são inscrições no corpo do amor, naquilo em que o homem deposita seu afeto: a casa, o barco, a propriedade, enfim.

ag8loureiro2.jpg (54393 bytes)Nota-se a insistente inclusão de uma presença humana, do mundo dos homens, rastros das mãos e do trabalho, em uma paisagem na qual o homem não se reconhece necessário, e sobre a qual não sente plena realidade de poder. Nela o homem ostenta sua presença de forma berrante e em festa, como quem, nos territórios da solidão, fosse deixando os sinais de sua persistente passagem. O branco adquire o intenso valor plástico de uma elevação à cor. O verde é que passa à função de base, de não-cor, o novo branco. Enquanto que o verdadeiramente branco tem a sua epifania cromática, como na roupa carismática do boto, ou nas bandeiras desfraldadas nas procissões fluviais, ou na moda.

Há, inegavelmente, um gosto pela simetria, que traduz meros limites de espaços entre as tonalidades relacionados em tensão harmônica, em um geometrismo simplificador. As próprias coisas (fachadas, bares, placas, bandeiras etc.) tornam-se suportes de cores. Um espaço pictórico a ser preenchido. A reelaboração da natureza sob o prisma de suas cores básicas como se o homem, diante da exuberância tropical, do seu teatro de cores, em sua tipicidade, buscasse a síntese, a redução ao essencial, ao elemento universal.

Um conjunto característico na visualidade amazônica é formado pelos barcos. É a dança das cores. As embarcações, na região mapeada de rios, assuem as mais diferentes funções de sobrevivência, transporte e lazer. Em meio a isso, a função estética adquire realce pelo especial colorido da pintura dos cascos ou, quando é o caso, das velas. É o barco-casa, o barco-alcova, o barco-altar, o barco-armazém, o barco-caminho. Guardando as características de gosto decorrentes de cada região em que são fabricados, há, por exemplo, os de Abaetetuba, que são dominados pela presença do branco, secundado pelo azul e o vermelho; os da Vigia, as vigilengas, com predomínio do verde e do vermelho. Pelo sentido estético que marca essa pintura, os barcos, na Amazônia, são como telas moventes, boiando ao longo dos rios. Elas levam a marca da região mais do que do pintor. Mas, reforçam a recepção do barco como objeto estético, signo-objeto à flor das águas, admirado nos portos e ao longo dos navegáveis rios. Há um certo hedonismo estético nesse procedimento colorista nos barcos e, como tal, é recebido espontaneamente pelos habitantes ribeirinhos ou das cidades. Quando se reúnem, em grande número, seja no porto típico do Ver-O-Peso de Belém, seja no porto de Santarém, seja no da Vigia, transformam esses locais em pinacotecas flutuantes. Estetizam a paisagem em uma estética aberta, permutacional, possibilidade inesgotável de combinações aleatórias. Um exemplo é o das "procissões fluviais" quando, pelos rios ou igarapés, deslizam os floridos barcos andores, conduzindo a imagem do santo padroeiro, seguidos de vários barcos policromicamente embandeirados, levando em seu bojo a banda de música, ou alvos anjos, ou coloridas promessas e ex-votos, ou promesseiros vestidos liturgicamente, ou piedosos fiéis. Por outro lado, após o "happening" das chegadas e partidas, transformam-se em salões de arte navegantes pelos rios expondo-se em curtas temporadas em cada porto, para onde atraem a curiosidade geral. São objetos plásticos boiando, bubuiando, rearranjando continuamente a paisagem, imprimindo a marca da criatividade do homem, no horizonte dos rios e baías vazantes e preamares. Um museu verdadeiramente aberto, rico de possibilidades combinatórias. A página do gênesis das formas ainda por ser escrita. E mesmo assim, escrevendo-se.

ag8loureiro3.JPG (64259 bytes)Se nos barcos o pintor não se reconhece artista produtor de beleza e não assume a autoria de seu trabalho, o mesmo não acontece com o pintor de letras. O "abridor de letras", como gostam de se auto-intitular. São especialistas em escrever nomes nas embarcações, nas casas comerciais, nas tabuletas do comércio, trabalhando para um mercado e apresentando intuitiva marca publicitária. Dele a letra nasce como "poiesis", como mundo re-feito. São signos que mantêm uma configuração significante própria em que a letra é letra como unidade de um letreiro, e é objeto estético autônomo, no sentido em que, exibindo-se como signo múltiplo e aberto, condensa sobre si mesmo as atenções do receptor. São letras-telas que, feito espaço pictórico mítico podem conter dentro deste, tanto um adorno geometrizante, como uma paisagem desenhada. Assim, tanto remetem ao contexto frasal em que se vêem inseridas em uma função comunicantemente, como retêm a mensagem em si mesma. É a letra-signo-objeto, em uma verdadeira epifania. Letra que pode ser tela, cenário, guardiã da natureza, suporte plástico do mundo. A letra como alegoria. A letra como mito. Diminuta catedral barroca e letra beira o kitsch. Mas não resvala. Vocabulário para os olhos, seu sentido é o da praxis informativa. Mas uma praxis também poética. Como nítida metáfora do barco, a letra leva em seus tombadilhos e porões uma densa carga de figuras, signos, paisagens. Os sinais do mundo. A função comunicativa alterna-se com a função poética, tanto é capaz de passar adiante como reter em si a mensagem. Letra que é passagem para o outro e letra narcísica. Desejo de comunicar e objeto de contemplação. Corpo de tatuagens. Celebração do imaginário. Fulguração. Não é propriamente letra de escrever, mas letra em que se escreve. Letra desalfabetizada na função não discursiva de suporte de cores.

A visualidade amazônica celebra a glória do olhar. A cor faz-se participante do brilho das coisas. Torna-se uma poética em festa, pois engendra um constante jorrar de signos e emoções. É a vida florescente ao lado da vida natural marcada pela idéia de incompletude. Uma forma de beleza que se realiza no olhar que estranha o mundo. O imprevisível apreendido. O mundo percebido pela cor primordial, e expresso em uma forma de distorção das normas estéticas dominantes. Um lírico retorno às fontes do olhar.

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