editorial
o
passado o presente o futuro
Chegamos lá.
Finalmente.
A 2001.
Difícil não associar
a data ao filme de Stanley Kubric e Arthur Clarke, à Odisséia
no Espaço, lembrando a dimensão mitopoética da
saga do novo Ulisses ou Prometeu que, ao dominar a tecnologia, supera os
limites do espaço, do tempo, de si mesmo, para, ao chegar ao futuro,
acabar retornando à origem.
Mas temos que lembrar também
o desajuste de 2001 como antecipação de avanços
tecnológicos. Não se pode justificar seus anacronismos em
nome da supremacia do poético sobre o real, da estética sobre
a informação factual. Afinal, o prestígio de Clarke
como ficcionista vinha de sua reputação enquanto conhecedor
da ciência, alguém que sabia do que falava ao descrever tecnologias
em suas narrativas. No entanto, nave espacial alguma, sabemos hoje, precisaria
daquele extenso corredor de placas de memória que o protagonista
vai puxando, uma a uma, para desligar o computador fora de controle, possuído
pela emoção. Aliás, nem protagonista haveria. Não
é verdade que o progresso técnico-científico não
tenha alcançado o patamar previsto em 2001, por não
estarmos enviando naves tripuladas a Júpiter, como, talvez, dirão
alguns. Acontece que é mais seguro, barato e eficiente enviar câmeras
e sensores, e comandar tudo à distância. E investir recursos
em metas mais importantes: projeto Genoma, sensores do cosmos, técnicas
de proteção ao ambiente, novas fontes de energia…
Em outro editorial de Agulha
(para a edição especial de setembro), tratamos de tecnologia
e literatura. Criticamos as projeções lineares do presente
sobre o futuro, argumentando que a realidade é mais rica e complexa
do que o pensamento discursivo, linear, cartesiano. 2001, Uma Odisséia
no Espaço, justifica essa crítica. Sua nave foi uma projeção
do avião, adaptado a maiores distâncias. Para o tráfego
espacial, a referência ainda era o vôo supersônico. Na
época em que a utilização de transistores em circuitos
figurava como avanço, computador mais potente seria um computador
gigantesco. Desconheceram o avanço mais decisivo ligado à
tecnologia digital, a possibilidade de armazenar e processar quantidades
maiores de informação em menos espaço. E por aí
afora.
Na seqüência final de 2001,
seu astronauta passa a outro plano. Mergulha no virtual, representado por
um belo mundo de formas, cores e sons mutantes, coisas que são e
não são, onde o tempo se anula. Por isso, seu ponto de chegada
é o monolito, marco inícial da História. Isso sim,
é algo que está acontecendo, e não só com tripulantes
de naves espaciais. Estamos, todos nós, partilhando essa realidade.
Inclusive aqui, em Agulha, ao sermos visitados, em diferentes momentos,
de diferentes localidades, o tempo todo, através de conexões
a uma base física de dados instalada em um computador situado em
um lugar qualquer, cujo endereço nem interessa saber. Realidade
virtual é isso.
Diferentes lugares, diferentes tempos
a se encontrarem: mas onde, na literatura, uma confluência dessas
já foi descrita? Certamente, em muitas obras. Contudo, a melhor
delas continua sendo a de um autor já examinado aqui, na edição
anterior de Agulha. Referimo-nos, é claro, a El Aleph
de Jorge Luís Borges. Entre outros de seus significados, esse relato
da descoberta de um ponto, uma partícula na qual estão presentes
todos os lugares de todos os tempos, pode ser lido como antevisão
do mundo inaugurado pela internet.
E o que estamos mostrando aqui, em
Agulha? O que os navegadores, replicantes do visitante ao porão
do literato Danieri descrito por Borges há meio século, acharão
em nosso Aleph? Neste ponto, objeto de um interesse crescente, a receber
novos visitantes-leitores a cada edição, situado em uma galáxia
de infinitos espaços virtuais, encontrarão - estarão
encontrando, neste exato momento, seja ele qual for - reproduções
de obras de arte, narrativas, reflexões sobre literatura, cinema,
música e as demais modalidades criativas, sobre a história,
filosofia, o resgate de mitos, e poemas, muitos poemas e trechos em prosa
poética. Fragmentos do presente. E do passado: mas de um passado
que, ao ser exibido, torna-se presente, integra-se à vida, enriquecendo-a.
E que, posto em circulação, está à disposição
do futuro e passa a constituí-lo. São estes os nossos instrumentos,
tão ou mais decisivos quanto os comandos da nave de 2001,
para a viagem rumo ao futuro. Melhor ainda, para a sua criação,
pois o futuro não é uma coisa, uma entidade fixa à
espera ao dobrarmos alguma esquina do tempo, mas um resultado do que estamos
criando agora.
Prossigamos, portanto. Para 2001.
Rumo ao presente.
os editores
|