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Revista de Cultura nº 8 - Fortaleza/ São Paulo, janeiro de 2001
Expediente
Matérias
Portal da Agulha

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editorial
o passado o presente o futuro

Chegamos lá.
Finalmente.
A 2001.
Difícil não associar a data ao filme de Stanley Kubric e Arthur Clarke, à Odisséia no Espaço, lembrando a dimensão mitopoética da saga do novo Ulisses ou Prometeu que, ao dominar a tecnologia, supera os limites do espaço, do tempo, de si mesmo, para, ao chegar ao futuro, acabar retornando à origem.
Mas temos que lembrar também o desajuste de 2001 como antecipação de avanços tecnológicos. Não se pode justificar seus anacronismos em nome da supremacia do poético sobre o real, da estética sobre a informação factual. Afinal, o prestígio de Clarke como ficcionista vinha de sua reputação enquanto conhecedor da ciência, alguém que sabia do que falava ao descrever tecnologias em suas narrativas. No entanto, nave espacial alguma, sabemos hoje, precisaria daquele extenso corredor de placas de memória que o protagonista vai puxando, uma a uma, para desligar o computador fora de controle, possuído pela emoção. Aliás, nem protagonista haveria. Não é verdade que o progresso técnico-científico não tenha alcançado o patamar previsto em 2001, por não estarmos enviando naves tripuladas a Júpiter, como, talvez, dirão alguns. Acontece que é mais seguro, barato e eficiente enviar câmeras e sensores, e comandar tudo à distância. E investir recursos em metas mais importantes: projeto Genoma, sensores do cosmos, técnicas de proteção ao ambiente, novas fontes de energia…
Em outro editorial de Agulha (para a edição especial de setembro), tratamos de tecnologia e literatura. Criticamos as projeções lineares do presente sobre o futuro, argumentando que a realidade é mais rica e complexa do que o pensamento discursivo, linear, cartesiano. 2001, Uma Odisséia no Espaço, justifica essa crítica. Sua nave foi uma projeção do avião, adaptado a maiores distâncias. Para o tráfego espacial, a referência ainda era o vôo supersônico. Na época em que a utilização de transistores em circuitos figurava como avanço, computador mais potente seria um computador gigantesco. Desconheceram o avanço mais decisivo ligado à tecnologia digital, a possibilidade de armazenar e processar quantidades maiores de informação em menos espaço. E por aí afora.
Na seqüência final de 2001, seu astronauta passa a outro plano. Mergulha no virtual, representado por um belo mundo de formas, cores e sons mutantes, coisas que são e não são, onde o tempo se anula. Por isso, seu ponto de chegada é o monolito, marco inícial da História. Isso sim, é algo que está acontecendo, e não só com tripulantes de naves espaciais. Estamos, todos nós, partilhando essa realidade. Inclusive aqui, em Agulha, ao sermos visitados, em diferentes momentos, de diferentes localidades, o tempo todo, através de conexões a uma base física de dados instalada em um computador situado em um lugar qualquer, cujo endereço nem interessa saber. Realidade virtual é isso.
Diferentes lugares, diferentes tempos a se encontrarem: mas onde, na literatura, uma confluência dessas já foi descrita? Certamente, em muitas obras. Contudo, a melhor delas continua sendo a de um autor já examinado aqui, na edição anterior de Agulha. Referimo-nos, é claro, a El Aleph de Jorge Luís Borges. Entre outros de seus significados, esse relato da descoberta de um ponto, uma partícula na qual estão presentes todos os lugares de todos os tempos, pode ser lido como antevisão do mundo inaugurado pela internet.
E o que estamos mostrando aqui, em Agulha? O que os navegadores, replicantes do visitante ao porão do literato Danieri descrito por Borges há meio século, acharão em nosso Aleph? Neste ponto, objeto de um interesse crescente, a receber novos visitantes-leitores a cada edição, situado em uma galáxia de infinitos espaços virtuais, encontrarão - estarão encontrando, neste exato momento, seja ele qual for - reproduções de obras de arte, narrativas, reflexões sobre literatura, cinema, música e as demais modalidades criativas, sobre a história, filosofia, o resgate de mitos, e poemas, muitos poemas e trechos em prosa poética. Fragmentos do presente. E do passado: mas de um passado que, ao ser exibido, torna-se presente, integra-se à vida, enriquecendo-a. E que, posto em circulação, está à disposição do futuro e passa a constituí-lo. São estes os nossos instrumentos, tão ou mais decisivos quanto os comandos da nave de 2001, para a viagem rumo ao futuro. Melhor ainda, para a sua criação, pois o futuro não é uma coisa, uma entidade fixa à espera ao dobrarmos alguma esquina do tempo, mas um resultado do que estamos criando agora.
Prossigamos, portanto. Para 2001. Rumo ao presente.

os editores
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matérias

1. a subversão inatingível: leitura de manifestos de cláudio willer. floriano martins
2. alfredo fressia: las palabras del tarot (entrevista). luis bravo
3. as fontes do olhar. joão de jesus paes loureiro
4. buena vista social club, win wenders: um esgar absoluto de eros. sérgio lima
5. cinema de pituka ortega. consuelo tomás
6. comentário sobre dois poemas de octavio paz. cláudio willer
7. escrito com luz negra. a poesia de josefina plá (1909-1999). alfredo fressia
8. guillermo roux: el poder de la belleza (entrevista). cristina castello
9. josé ángel valente (1929-2000). víctor sosa
10. la tregua que aún no se impone: primo levi en la vida es bella, de benigni. peter gardner
11. leonardo de dios gerónimo: una expresión del geometrismo cubista. margarito palacios maldonado
12. osvaldo jalil: retrato de un xilógrafo. eva farji
13. presentación: hernán arévalo. paulina dueñas ros
14. robert graves: uma experiência fantástica. floriano martins
15. sobre la posible responsabilidad de la poesía en el fin de milenio. saúl ibargoyen

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