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revista de cultura # 65 |
discos da agulha
A cada grande descoberta musical de nosso cancioneiro, rendo graças à Deus por ainda haver uma saudável resistência às marés de futilidade e vazio de nossa atualidade. E Badi Assad é algo fabulosa, nos presenteando com um disco que é um verdadeiro espetáculo nos quesitos arranjo e voz. Sua interpretação traz vigor e personalidade em canções que se prestam a estágios contemplativos de alma. É preciso parar para ouvir a força melódica que brota da expressão dessa que é uma violonista de mão cheia. De cara, na primeira faixa, nos deparamos com a magnífica Acredite ou não, composição de Lenine e Dudu Falcão, e que aqui serve como um cartão de visitas e tanto. Com um violoncelo fazendo a base, Badi revisita o sucesso Sweet Dreams, do grupo Eurythmics, conferindo uma cara brasileira ao hit. A Banca do distinto, canção já interpretada por Elis Regina, ganha roupagem numa precisa mescla de chorinho, samba, arranjos eletrônicos e samplers. A veia compositora da cantora soa alto em Zoar, escrita em parceria com Chico César, e na intensa O que seria?, letra que revela uma feição com doses suaves de romantismo. Um grande álbum, com direito a canções de Cartola, Gonzaguinha, Vangelis, Tom Jobim e uma participação especial de Seu Jorge. Se não vivemos no país das maravilhas, Wonderland nos sugere que a beleza sempre esteve perto de nós. Tudo é uma questão de se deixar sentir. [Fabrício Brandão]
Basta ouvir a primeira faixa desse disco para se ter certeza de que o caminho a ser desbravado pelos sentidos tem muito a revelar. Aqui me refiro à belíssima interpretação de Ponta de Areia, canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, que ganha novo impulso na preciosidade vocal da norte-americana Esperanza Spalding. Dona de uma performance capaz de encantar aos ouvidos mais exigentes, a jovem artista, que acumula habilmente as feições de contrabaixista e cantora, traz em seu trabalho todo o vigor contido num ambiente de altíssimo bom gosto onde o jazz impera absoluto. De ponta a ponta, o repertório e seus belos arranjos que mesclam influências variadas como o samba, consegue ser algo deveras arrebatador, unindo com maestria sonoridade e conteúdo. Esperanza é um álbum que devota especial atenção aos recursos melódicos e harmônicos capazes de promoverem uma incursão pelas amplitudes possíveis da música. Nesse aspecto, podemos perceber claramente a presença de uma certa brasilidade no disco, traço que reafirma a condição da artista enquanto apreciadora inconteste de nossa boa música. Exemplo disso é a canção Samba em Prelúdio (Vinícius de Moraes e Baden Powell), onde um diálogo preciso entre violão e contrabaixo acústico produz um magnífico resultado. É difícil eleger um ponto alto do disco, pois o talento de Esperanza predomina por toda a escalada sonora da obra. No entanto, é possível arriscar a sugestão de escutas atentas a I Know You Know, I Adore You (que cativa pela conjunção entre vocalizes, coro, percussão e piano), Body & Soul e Precious. Depois de todo o percurso através das trilhas ciceroneadas pelo apuro inconteste do talento de Esperanza Spalding, a certeza maior que permanece é a de que a boa música se assemelha a um cristal resistente, cuja translucidez acalenta uma vastidão de olhares que se cruzam sem hora marcada. [Fabrício Brandão]
Desde las chocolateadas márgenes del inmenso Río Paraná, en Rosario-Argentina, para Latinoamérica, Brasil y el mundo, nos llega impecable y vibrante, el debut como solista de Irene Cervera, con el título: “Itinerario”. Cervera es una de las voces más destacadas de la difícil y concurrida escena musical rosarina, pero ella, además, es una gran ejecutora de la flauta traversa y la guitarra; así como una fina lectora de poesía. De ahí, que muchas de las canciones de este Itinerario hayan sido, primero, poemas de escritores contemporáneos de diversas latitudes del continente, y solo después que Irene los leyera una y otra vez hasta dar con su sentimiento, se transformaron en canciones. “Itinerario” propone un conjunto de canciones que se vuelven una suerte de mapa para iniciar el viaje de emociones, paisajes, historias y vidas que pueblan Latinoamérica. Se trata de un disco para iniciar un viaje rítmico, sereno, reconfortante y poético cargado de mucho feeling. Es un trabajo discográfico con impecables arreglos musicales, que nos deparan en el goce, la reflexión y el pleno disfrute. Canciones memorables como el tradicional bolero de Chuy Rasgado “Nayla”, que en la excelente interpretación de Irene, adquiere otra luz; “El mar es de llanto”, bellísima canción del gran Luis Alberto Spinetta, cuyo título evoca un verso de Nicolás Guillén; así como la canción de la famosa México-norteamericana Lhasa: “De cara a la pared” que en este álbum, Irene Cervera matiza y tonifica con el aporte de una flauta traversa virtuosa, tanto, que casi habla un idioma no registrado aún. Junto a los experimentados músicos Roberto Claros (guitarras y programación) y Federico Bertero (percusión y voz), Irene Cervera hace gala de su enorme sensibilidad y lógica interpretativa para poner en evidencia, que cada canción, requiere de un pulso distinto; que cada canción es una atmósfera particular, y que su experimentada calidad musical le añade un nuevo valor a cada poema, a cada tema. Además del aporte de Claros y Bertero, en “Itinerario” aportan como invitados Valentín Prieto (bajo), Chivo González (saxo y clarinete), Tato Fernández (trombón) y Pablo Cejas (órgano). Son ya muchos años en la música los que lleva esta versátil cantante rosarina. Irene pasó y dejó huella en notables agrupaciones como “Acalanto” (1979-1982) y “Mundo Bizarro” (1994-200), con las que grabó varios materiales discográficos y realizó varias giras por México, Uruguay, Perú y Costa Rica. “De noche el Fuego” se titula uno de los tres CD que creó con “Mundo Bizarro” y que más admiradores y seguidores le aportaron a Cervera. Esta rosarina, de exquisita charla, preciosos ojos verde almendrado y generoso trato, hizo parte también, por varios años del “Cuarteto de Flautas traversas de Rosario” y participó en diversos talleres y festivales de música. Desde el 2001 se lanzó como solista, gracias a la sabiduría de una voz sin modelos o clichés comerciales, la presencia de una sólida flauta traversa y la estética de quien vive para y por la música, solo por el gusto de sentir a plenitud la poesía envuelta en alas absolutamente contemporáneas. La crítica ha dicho sobre “Itinerario”: En las letras e interpretaciones de “Itinerario” puede leerse también ese vaivén entre las cuerdas musicales que se templan en el “Río de la Plata”, en el Litoral y en América Latina. Canciones mexicanas y del Caribe de Colombia, con arreglos no tradicionales, aires pop, con giros fuertemente jazzeros y cadencias folklóricas, encienden este magnífico disco. La voz de Irene Cervera alcanza especiales texturas y distintas sensibilidades, que junto a un muy bien cuidado repertorio, muy apegado a lo mejor de la poesía contemporánea que actualmente se está escribiendo, definen a “Itinerario” como un álbum imposible de etiquetar y ahí radica su belleza. Cervera no es exactamente una cantante popular, ella estudió en el Instituto Superior de Música y en la escuela Nacional, es decir, que su formación en técnica vocal, canto y flauta fue académicamente clásica. Pero también le interesa mucho el jazz, el folklore, Debussy, Eric Satie, Bola de Nieve, Bela Bartock y otros muchos y diversos afluentes de enorme potencia estética y creatividad. [Aleyda Quevedo Rojas]
É algo patente a riqueza que habita a MPB, seja pelas
letras, seja pelas vias exploradas em torno de arranjos e outras tantas
combinações melódicas. O mais interessante de tudo é poder perceber a
peculiaridade que está contida em cada recanto dessa nação de proporções
continentais. Imensos em extensões, somos também um país que denota caras e
formas diferenciadas a cada porção de terra onde quer que os pés adentrem
territórios. No entanto, para que os ecos típicos de cada lugar sejam
reconhecidos como tal, é necessário abrir as alamedas da sensibilidade e
conjugá-las aos contornos de cada ambiente retratado. Pelo Retrovisor
é um desses exemplos em que de um lugar percorremos não somente a sua
musicalidade, mas, junto a ela, vemos também desfilar sensações e imagens
que fazem parte do universo das pessoas. Conduzidos pela paulista Karina
Ninni, visitamos composições inteiramente feitas por músicos e letristas
paraenses, num repertório que mescla elementos de chorinho, samba, bossa
nova, bolero, dentre outros. [Fabrício Brandão]
Um mirar apurado aos nossos próprios espelhos e não demora
a percebermos que há algo muito além de um óbvio refletido. Os relances
patentes de nosso caldeirão de caras se alargam para muitos ambientes onde
habita em profundidade nosso mais genuíno sangue. Por mais que sejamos
rostos travestidos do novo, um sentimento apegado à gênese de nossas
virtudes pulsa nas entrelinhas. E é assim que recobramos e reacendemos
nossos sentidos quando visitamos as alamedas musicais construídas pelos
pernambucanos Piero Bianchi e Ricardo Chacon. Terra Papagali Coffee Shop
é o batismo pelo qual somos conduzidos para os caminhos que levam dentro
de um Brasil sensível, terra-mãe generosa que por aqui exala seus traços
exuberantes. As canções integrantes do disco revelam o altar em que são
devotadas as raízes de nossa música, mesclando referências a temas como o
amor e a natureza. No entanto, o pano de fundo das verdades ali cantadas tem
razão de ser quando exorta uma busca leve pela essência humana. [Fabrício Brandão]
Junte uma brasileira (Lilian Vieira), um alemão (Stefan Schmid) e um holandês (Stefan Kruger). Em seguida, acrescente à mistura um pouco de eletrônica, samba e bossa nova sem receio de errar nas dosagens. Para finalizar, tempere tudo com pitadas de suingue, essências de brasilidade e beats diversos. Agora, aguce os sentidos e deguste os ritmos. Se você não pecar nos preparos culinário-sonoros aqui reunidos, terá como resultado dos esforços uma bela porção chamada Zuco 103. O trio, formado em 1999 nos Países Baixos, assinala o sexto disco de sua trajetória demonstrando que os caminhos que afirmam sua musicalidade estão cada vez mais sólidos. After The Carnaval agrada pela combinação muito bem equilibrada de estilos, mesclando em suas treze faixas a já tão registrada marca do grupo, o pop eletrônico, com influências da MPB. No entanto, todo o aparato costurado pelos apelos sonoros e rítmicos da banda não teria o mesmo vigor sem a bela voz de Lilian Vieira, que também faz as vezes de compositora. A boa música embalada no CD já nos lança de cara em canções como Nunca Mais, no suingue cadenciado de The Same Way, no canto que exala sentimentos regionalistas em Pororoca, no samba de Cria e em toda a atmosfera sentimental de Madrugada. Integrado ao que se convencionou chamar de World Music, o Zuco 103 percorre em sua trajetória trilhas que ambientam gêneros ligados à música latino-americana, ao dub, soul e ritmos africanos. A conexão estreita entre o global e o local certamente gera efeitos que se harmonizam sem a pressão das vanguardas. Aos nossos ouvidos, de certo, fica reservado o prazer de desenhar contornos próprios nesse borbulhante caldeirão multicultural. [Fabrício Brandão] parceiros da agulha nesta seção |
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