Fernando Pacheco Fernando Pacheco
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revista de cultura # 65
fortaleza, são paulo - setembro/outubro de 2008

Fernando Pacheco

editorial

cultura e mercado: um lugar estratégico das feiras de livro

Um dos editores da Agulha é o curador da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, um dos mais importantes eventos literários do país. A oportunidade reflete um interesse do Governo do Estado do Ceará, em particular do Secretário da Cultura, Francisco Auto Filho, em uma ação pioneira cuja consistência permita ao próprio país avançar em sua inserção real (e não retórica) em um ambiente cultural latino-americano. É bastante significativo que se tenha redirecionado um conceito já relativamente gasto das feiras de livro, que tendem cada vez mais a atender as razões de mercado do que propriamente as razões de cultura. Busca-se agora um equilíbrio ágil entre as duas vertentes, e para tanto a própria definição da programação contempla não a lista de mais vendidos ou de autores mais freqüentes em eventos similares, e sim uma dupla comunidade lingüística –portuguesa e espanhola – que em quatro continentes totaliza 30 países e representa, no entendimento da curadoria, uma inadiável perspectiva de conhecimento e reconhecimento de raízes culturais, ao mesmo tempo em que propicia a constituição de um novo modelo de mercado editorial que permita um maior alcance de diversidade estética e conseqüente ampliação de uma visão de mundo para leitores, editores, autores, imprensa, universidade, público em geral etc.

Exige-se, para tanto, a consciência dos obstáculos a serem enfrentados, ao mesmo tempo em que se impõe uma verdade cristalina: a de que tal cenário já de muito necessitava de um puro ato de ousadia. Literatura e reflexão sobre a mesma, no Brasil, como que estancou, a julgar pelo panteão reiteradamente evocado pela comunidade jornalística, a igual que a acadêmica. Sofremos um desfalque estético reforçado por outra perda não menos fundamental: a visão crítica não comprometida com subjetivismos e outros pecados capitais. Este panorama precário não se restringe à literatura. Toda e qualquer manifestação artística hoje, a julgar pelo que nos anunciam as vitrines, sobrevive ao custo de favores e subornos. Há, no entanto, um rio subterrâneo, uma resistência que teima contra o tempo – como cabe a toda arte – e não se deixa contaminar pelos excessos atuais de retórica e arranjos florais. Será plenamente possível enumerá-los e uma visita ao índice geral da Agulha o constata com facilidade, porém se faz indispensável uma concentração dessas estratégias, sua difusão ampla e constante, seu reconhecimento de público.

Não se trata de dizer que uma mudança de rota neste panorama demasiado fútil que nos toca viver dependa de ações institucionais. Não se trata de uma dependência. Há que compreender o papel que desempenhamos cada um de nós em uma comunidade. E constituir a si mesmo como força motriz de uma nova configuração do Estado. Lamenta-se, em muitos casos, que produtores culturais e, sobretudo, criadores, ajam de forma tanto dispersa quanto – aspecto lamentavelmente majoritário – a tratarem-se entre si como concorrentes. Há que entender que cabe a todos ofertar soluções, desafiar o Estado a aceitá-las. Cabe também aos artistas entenderem finalmente que não são semi-deuses, e sim cidadãos. Talvez esta síndrome do estrelato seja o que mais afasta um artista, no Brasil, de sua comunidade. Ao ceder a essas fantasiosas vantagens do palco instantâneo, da glória fácil, de uma cultura eternamente emergente, nos tornamos alvos fáceis de uma promoção de futilidades. Assim é que nos distanciamos de nossas raízes culturais e nos tornamos em uma massa de consumidores – os próprios artistas criadores, intelectuais, críticos – e verdadeiramente desaparecemos como agentes culturais.

Ao apontar na direção contrária a tudo isto, como o faz em seu projeto apresentado a público a 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, entende-se que cabe uma melhor atenção a esta sua maneira de pensar, sua maneira de propor uma nova visão de mundo no que diz respeito ao modelo gasto das feiras de livro em nosso país. O espaço proposto é justamente o lugar estratégico para a cultura cearense expressar-se em sua diversidade, afirmando sua legítima abertura ao diálogo com outras culturas. O apoio da Agulha será integral, e desde já começamos a incluir em nossa pauta matérias de/com alguns dos convidados da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará.

Os editores

Fernando Pacheco

sumário

1 8ª bienal internacional do livro do ceará: uma conversa com o curador floriano martins (entrevista). lira neto
2 editar en tiempos de cólera. uberto stabile
3 eduardo lizalde: cada cosa es nuestro mundo (entrevista). josé ángel leyva | begoña pulido herráez

4
el mundo nocturno de aurelio arturo. carlos bedoya
5
escrito en la otra orilla: reseña del grupo cultural la antorcha. miguel aníbal perdomo
6
grandes centros urbanos: espaço de choque entre exílio e diáspora. maria angélica amâncio
7
horacio kleinman: o centro do labirinto. jacob klintowitz
8
ivan pinheiro machado: a leitura no brasil e os pockets da l&pm editores (entrevista). claudio willer
9
los heraldos negros, de césar vallejo. luis fernando cuartas 
10
los surrealistas en la américa, cuarta parte. carlos m. luis
11
matías amici: sobre la ateofanía del trazo (entrevista). martín palacio gamboa
12
otro nombre del misterio: la poesía de josé santiago naud. floriano martins
13
raúl gómez jattin: irregularidad y razón poética. pedro augusto amaral
14
velas de armas: entrando por el espejo de juan calzadilla. milagro haack
15
vincenzo quillici ou a doçura sufocada. nicolau saião

artista convidado fernando pacheco [pintura, texto de josé aloise bahia]
resenhas livros da agulha aldo pellegrini
ana salles mariano & maria rosa duarte de oliveira [por valentim facioli] jacyra sant'ana joana ruas josé ángel leyva [por eduardo mosches] julio llinás paulo franchetti
música
discos da agulha badi assad [por fabrício brandão]
esperanza spalding [por fabrício brandão] irene cervera [por aleyda quevedo rojas] karina ninni [por fabrício brandão] piero bianchi & ricardo chacon [por fabrício brandão] zuco 103 [por fabrício brandão]
poesia
banda hispânica
cumplicidade 1 galeria de revistas  la cabeza del moro
nova água
cumplicidade 2
galeria de manifestos  
cumplicidade 3
galeria de arte

Fernando Pacheco

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
todos os colaboradores

artista plástico convidado (vária)
fernando pacheco

apoio cultural
jornal de poesia

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ð português]
marta spagnuolo [português ð espanhol]
floriano martins [espanhol
ð português]

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