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revista de cultura # 64 |
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A propósito da crítica Nicolau Saião
Moderemos um pouco, digamos, a nossa prosa ainda que nos excite alguma indignação. O assunto seria de facto cómico se não fosse trágico. Ou antes: triste e equívoco. O problema é que temos, talvez, a alma demasiado ardente, demasiado indagadora, provavelmente mal adestrada para negócios escuros. Perdidos entre esperanças e amores mortos - um deles a realidade, que já está mais que apodrecida neste país - desejamos como que num desespero a alegria, a verdade dos tempos recompostos, a beleza. Como aquele jovem e aquela senhorita dos romances. Se calhar o problema é que de há muito o jogo, le grand jeu, não é mais que uma imagem esfumada, um retrato desaparecido, passos que se afastam na noite dura e adversa. A crítica? Sim, sim, em geral uma excelente pendura…
Vogamos em pleno oceano deserto. O da poesia, o da escrita. As provisões começam a escassear, ao longe no vasto mar não se distingue a brancura de uma vela, a nossa escuna desapareceu e só dispomos deste pequeno bote. Nem se divisa o rasto de um corsário de bons fígados, estamos entregues a nós mesmos. E no entanto… E no entanto, de súbito, como vinda dum sonho, aparece uma linha de costa. Coragem, um esforço mais, chegámos a terra firme. Eis-nos já na orla do bosque. E então começam as realidades inquestionáveis a deixar ver o seu perfil difuso, algo começa a fermentar e sente-se que se juntaram sujeito e predicado em estranhos conciliábulos, em frases de esquisitos recortes. Talvez não seja ainda o “que horror!” de Margarita no livro de Bulgakov, mas é já decerto o “uns belos trastes”, quiçá algo injusto, de Péret. Porque é difícil divisar-lhe nos horizontes, a isso da crítica cá da nação, o sul e o norte, a matéria provável e desejável de que seriam feitos os mais belos sonhos de uma realidade não poluída. A evidência, como se compreende, consiste nisto: a crítica é, como dantes se dizia da tropa, o espelho do país. E quase tudo daí decorre. E daí tudo parte: os críticos altissonantes e vazios, mas palavrosos e espertalhões, iguais aos políticos e aos filhos-de-algo vazios e altissonantes que nos arrasam a paciência com as suas mentirolas e o seu arrazoado de vendedores de banha-da-cobra.. Os que são competentes e modestos, como certos homens públicos sofredores e esforçados, membros duma raça em vias de extinção na coisa quotidiana. Há a crítica que se lê nos jornais. Muitas vezes simples aparelho de aferição, mais ou menos galhardo ou gaiteiro mas que podia ser - e nos melhores casos é - algo de suscitador, de exaltante, de nobre e de digno que não envergonha quem a lê e quem a escreve. Mas, em grande parte, trata-se de pequeninas traves duma casa onde já se instalou o incêndio, cocabichices sobranceiras de pequenos empafiados, ignorantes e patifórios nos casos limites. Em suma, pedacinhos não inermes de alguma arrogância ou de seguro fingimento. A sensação que se tem, frequentemente, é a de que se trata duma encenação fraudulenta, duma espécie de jogatana para capangas dum milieu de bairro de má fama revestido de ouropéis de pacotilha.
Já que mo perguntam, o que é um crítico, ou antes: o que devia ser? Tenho para mim que um ente que acredite mesmo, co’a figura inteira, na sua actividade de guia bem informado, um ente de boa-fé realmente empenhado em saber e em dar a saber aos outros o que há por ali - por aquela poesia, aquela música, aquela pintura, aquela prosa - que constitua tesouro, fruto e mistério encantador. Assim como uma espécie de missão tranquila e honesta? E porque não? Nisto não cabe nenhuma espécie de moralismo e sim de uma ética. Acaso o cinismo espertalhaço e lusitano já retirou do nosso vocabulário (dizem-me do lado que talvez sim) palavras como decência, saber, imaginação e outras mais que não recordo ou simulo não recordar – porque têm a ver com a honra de se existir, de se viver acima da lama, de se andar de rosto erguido entre réprobos ou malandrins? Críticos por dever de ofício? Sim, se tiverem o fulgor de um Sainte-Beuve, de um Silone ou dum Claude Roy. Mas triste mester, vergonhosa tarefa a de acatitar eventuais jogos de editoras, de grupos de pressão, de castas sedimentadas num país de tartufos. Valer-lhes-á a pena semelhante trabalho? E há também a crítica encorpada em livros, em cartapácios. E que é um gosto ler quando severa e argumentada, feita por homens de uma só cara. E há alguns que a praticam, parece que com um impulso vindo das tripas e das meninges. Mesmo que, aqui e ali, pontapeado e ferido pelo mal de vivre da sociedade portuguesa, que é uma coisa repelente e sinistra, tenaz como aquelas sujeiras que se nos colam aos fundilhos.
Por outro lado, esse encordoamento, essas “calosidades morais” a que Fitzgerald aludia, serão devidas a um tom hirto de escola ou de vezo universitário? De novo, do lado, me dizem que talvez sim, mas daí não viria mal ao mundo se os exemplos fossem entusiasmantes e consistentes. Mas em geral são taciturnos e duram pouco mais que a hora clássica das rosas do lírico francês. Quem pode, por exemplo, ler hoje as obras pretéritas de um conhecido figurão mediático sem um riso de escárnio, essas obras cobertas de citações, de espertezas saloias, de frases esgalhadas apenas para abater o presumível adversário? Para colocar no pequeno Olimpo deste triste parque dormitando à beira-mar determinados vates que não podemos, apesar de com carradas de razão, apelidar de poetinhas – que é o que eles são – sem ficarmos passíveis de cadafalso? No fundo, a nossa voz – se a pudéssemos soltar – seria não mais que a voz pobre contra as vozes que sem cessar rolam nomes pelas quebradas, pelos largos e praças, pelas tabernas do reino onde se fazem reputações. Porque o penoso é também isto: a crítica servir para fazer reputações… Vejo na crítica - quero eu dizer, gostaria de ver na crítica - uma ajuda real, inteligente e despreconceituosa para entrarmos melhor nos universos propostos pelos autores, sem facciosismos nem atitudes de baixa política. Para jogarmos a dois, digamos, a aventura do conhecimento e, mais tarde, das linhas de sombra da sabedoria possível. Para compulsarmos, talvez, numa casa solitária, ante o espelho onde o Eterno parece que irá aparecer um dia, o nosso próprio rosto, a nossa própria figura. Uma luz ardente que nos devastasse o rosto com súbitos clarões, para que pudéssemos um dia surgir com a verdadeira figura a que o nosso ter vivido, o nosso ir vivendo com a escrita nos concederia direito. E, afinal, o que visam oferecer-nos na melhor das hipóteses é apenas um lugar numa espécie de campeonato de competências…
Aqui há dias, num periódico lido na casa de um familiar, topei com a prosa de um fulano que dizia serem “inanidades” os belos poemas de José Luís Puerto (que não conheço), dados a lume na “Apeadeiro”. Comprovei ser este o estilo fuliginoso usado em certos meios críticos. Que defesa haverá para uma opinião de tal jaez? O vómito urbano desculpará ou explicará coisas assim? No cartão onde cortêsmente me convidavam a opinar, deram-me – como a todos – espaço até às trinta páginas. Nunca poderia lá chegar. Tal como Marie Noel não sou uma árvore nem sequer, talvez, uma planta útil. Estou sim ao lado da urze, do heléboro, do serpão. Intelectualmente, não consigo viver em bosques tranquilos. E, apesar de tudo, para minha alegria e inquietação simultâneas o sol continua a brilhar sobre todas as coisas - até sobre imundícies que alguns propagam. |
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Nicolau Saião (Portugal, 1946). Poeta, artista plástico e ensaísta. Autor de livros como Passagem de nível (1992), Flauta de Pan (1998) e Os olhares perdidos (2000). Contato: nicolau19@yahoo.com. Página ilustrada com obras do artista Iván Tovar (República Dominicana). |
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