revista de cultura # 64
fortaleza, são paulo - julho/agosto
de 2008






 

Caderno de viagem

Joana Ruas

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Joana RuasEm Agosto de 2005 passei uma semana no Recife para contactar o mundo físico e o que restaria do modo de viver da época que se seguiu à queda do Império Luso-Brasileiro, pois João Maurício, um dos personagens do meu livro ainda inédito intitulado A Batalha das Lágrimas, é recifense. A época imperial também me interessava pois António Coelho Guerreiro, um pernambucano, governou Timor-Leste de 1700 a 1704.Outro pernambucano, António de Albuquerque Coelho, foi no século XVIII governador de Macau e, em 1721, passou a governar Timor e Solor. António Coelho Guerreiro foi nomeado para Timor pelo 57º vice-rei da Índia, António Luís Gonçalves da Câmara Coutinho (1638-1701), empossado neste cargo em 1697. Câmara Coutinho foi capitão-general de Pernambuco e, por morte de Matias da Cunha, tomou posse do cargo de capitão–general do Brasil. Atribui-se a este capitão-general a introdução de culturas novas no território brasileiro como a canela e a pimenta da Índia, embora o coqueiro, a mangueira, a carambola e a árvore do fruta-pão já tivessem sido levados do Oriente para o Brasil pelos portugueses no século XVI e XVII. António Coelho Guerreiro, enquanto governador de Timor, devido á disputa com os Holandeses, tal como havia sido instituído no Brasil, atribuiu a patente de coronel a alguns reis e de coronela a algumas rainhas timorenses, instituição que permaneceu até 1975, à excepção da patente de coronela que, por determinação do governador Celestino da Silva, acabou em finais do século XIX com D. Margarida Ribeiro Pires, rainha de Cová, chefe dos reis rebeldes do Oeste e um dos principais personagens deste romance.

Viajando pela primeira vez sozinha para um país distante, esse facto não me perturbava: é que eu tinha concluído este romance cuja acção decorre em Timor-Leste em finais do século XIX e, tendo-me disseminado ao dilatar-me pelas cerca de seiscentas páginas que o compõem, não me ter perdido nelas, o mundo, por muito estranho que me surgisse, não o receava. Tendo convivido durante anos quase só com o mundo que eu própria criava, eis que ia de novo comunicar com o real depois de ter estado fora do meu tempo e do meu espaço e fora da minha vida – pois ela estava anexada à vida dos meus personagens alimentando-se – os personagens históricos e os fantasmas de ficção que quiseram entrar nos palcos da história através da minha imaginação –, da seiva da minha própria existência. A reconstituição de vidas que dependiam de aturada investigação histórica, dos meus saberes e da minha criatividade, assim o exigiu. A actividade criadora tem riscos e perigos e quantos de nós, escritores, não abrimos a porta da criação para depois sumirmos no adro da noite sem nada para concluir e, portanto, sem nos concluirmos, pois nada nos assegura que largando do cais de aquém alcancemos a linha mais próxima da nossa meta ideal. Depois de ter arriscado penetrar no impenetrável, porque teria eu receio do contacto com uma sociedade com tão grandes afinidades históricas com Portugal e Timor-Leste? Eu apenas tinha de me esforçar por fazer a transição da idealidade do passado para a realidade do presente.

 Parti para lá contando apenas com a protecção da minha avó materna, a judia Amélia Anette Bensabat Ferraz, morta há muito tempo mas a cuja memória me acolhi quando busquei hospitalidade e amizade na Comunidade Judaica do Recife. O edifício onde existiu a primeira Sinagoga das Américas – Kahal Zur Israel, testemunho da aventura dos Judeus no Novo Mundo, já restaurado, está situado numa rua da zona portuária do Recife, lugar aprazível onde a luz do sol de Agosto se recolhe amenizada pelos reflexos húmidos que lhe chegam das águas do Capibaribe e do Beberibe.Com as suas árvores frondosas, as suas velhas casas em ruínas e os seus pombos voando entre nítidas sombras vacilantes, é um recanto fechado no espelho do passado, pleno de tranquilidade poética e onde o rumor dos séculos traz até nós o nome e a nostalgia de Sefarad, pois os primeiros colonos no Brasil português eram de origem ibérica. A actual comunidade é de judeus ashkenazitas oriundos da Europa Oriental que chegaram a Pernambuco nos séculos XIX e XX. Acolhida com amizade, a Professora Dr.ª Tânia Kaufman, directora do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco e Bernardo e Beatriz Schvartz, foram a mão amiga que me sustinha nos riscos da existência com que me poderia deparar nesta minha peregrinação pelos lugares e tempos volvidos por onde teria andado e vivido João Maurício, um dos personagens do meu livro. Acompanhavam-me também os poetas e escritores brasileiros cujo legado me permitiu compreender o dinamismo próprio de um mundo novo. Cheguei-me a quantos me acolheram com simpatia no Recife, como Dioclécio, o personagem de Pedra Bonita, a imorredoira obra de José Lins do Rego, que aparecera no Assú e que não queria coisa nenhuma. Eu queria, mas o que eu queria pouco valia aos olhos da sociedade actual uma vez que eu ainda ia andando nas páginas do meu romance como se não fosse para parte nenhuma, pensando nas terras longínquas do Oriente e em África e nas noites estreladas que tinham coberto os meus sonhos nessas terras distantes. Os meus amigos da Comunidade olhavam-me com a simpatia com que se olha para alguém que parece querer mais do que devia: criar pontes no espaço unindo as províncias do Ser. E previam as dificuldades que me aguardavam para a publicação de uma obra sem antecessores literários portugueses e que não se apoiava nas tendências actuais que encontram o favor dos editores e dos media. Eu fazia minhas as palavras que Jorge Luis Borges deixou escritas no prólogo das suas Inquisiciones: «só há êxitos de amizade, de intriga, de fatalismo. Oxalá este livro obtenha um deles». No que se refere às tradições literárias portuguesas vigentes em finais do século XIX, os escritores mais eminentes viviam na Literatura e não no mundo, reflectindo, de certo modo, o isolamento e o imobilismo do país. Hernâni Cidade em A Expansão Portuguesa no Mundo dá-nos conta de que no que se refere ao Ultramar a contribuição do romantismo foi pobre em novos interesses mentais e desinteressada do «heroísmo obscuro do colono». Refere que apenas em meados do século XIX foi dada continuidade à História Trágico-Marítima através dos oficiais de Marinha, Joaquim Pedro Celestino Soares com seus Quadros Navais e Francisco Maria Bordalo com seus Romances Marítimos. Hernâni Cidade assinala ainda que a escola realista não provocou novo interesse pela vida de Além-Mar. De facto, Eça de Queirós publicou A Correspondência de Fradique Mendes e a Ilustre Casa de Ramires em 1900, data em que se havia completado a ocupação militar e administrativa dos territórios ultramarinos, dando-se em seguida a sua colonização efectiva. Para a guerra e ocupação de África enviou o escritor o personagem Gonçalo Ramires que de lá volta, sem que nos seja dito como, regenerado. Em 1876, Eça de Queirós dá à estampa O Crime do Padre Amaro, obra que exerceu uma grande influência na difusão do realismo no Brasil. Contudo, no Brasil, ergue-se a voz de Joaquim Nabuco que em vez de denunciar a moral sexual de um padre, visa a doutrina e a prática social da Igreja afirmando no seu livro O Abolicionismo, escrito e publicado em Inglaterra em Agosto de 1883, pago pelo seu bolso:«A deserção pelo nosso clero do posto que o Evangelho lhe marcou foi a mais vergonhosa possível, ninguém o viu tomar a parte dos escravos, fazer uso da religião para suavizar-lhes o cativeiro, e para dizer a verdadeira moral aos senhores». Nas letras anglófonas, nos anos oitenta do século XIX, já Robert Louis Stevenson havia denunciado as cláusulas do Tratado de Berlim referentes à condição dos prisioneiros nas colónias e escrito A Footnote to History, The Ebb-tide e a sua obra pré-conradiana The Beach of Falesa. Nessa época, Joseph Conrad já havia publicado O Negro do Narciso, Histórias Inquietas, Lord Jim e O Coração das Trevas. Foi-nos necessário esperar pelos escritores que se debruçaram sobre a Guerra Colonial para que surgissem nas Letras Portuguesas as vivências de um mundo espoliado face ao processo da globalização capitalista e que Fernão Mendes Pinto com a sua Peregrinação, Ferreira de Castro com a Selva e Castro Soromenho com a sua obra tinham abordado embora com enfoques diversos.

Iván TovarEu atravessava um momento particularmente difícil pois com a morte de meu pai, a partilha da herança familiar abriu fundas brechas na sua coesão e o conflito que sobreveio feriu de morte a continuidade feliz que sempre tinha existido entre o meu presente e o meu passado. A minha infância evadiu-se por esta ferida aberta e uma parte da minha existência ficou abolida. Tendo cada facto recordado perdido o seu sentido particular, o meu passado, emudecido, afundava-se numa grande sombra morta e a criança que eu tinha sido e que eu carregava como uma benção dentro de mim, parecia igualmente morta. Sentindo que o meu presente flutuava sobre um lago adormecido, perguntava-me que força me mantinha viva, a quem devia eu o milagre da minha existência, uma existência esvaziada de todo o suporte, suspensa sobre o nada.

Uma manhã, no Recife, a voz da minha infância regressou a mim do passado nas vozes dos homens e mulheres que punham as mesas para o café da manhã no amplo salão do hotel, mesmo frente ao mar, essa rumorosa floresta de ondas e vento. Com uma grande desenvoltura, enquanto alegremente trabalhavam, cantavam, conversavam, riam e assobiavam. Em casa dos meus pais, em Angola, também esse ritmo que embala o trabalho era consentido o que não acontecia na maioria das casas dos demais colonos. Meus pais amavam a música, meu pai tocava viola e minha mãe, bandolim. No Recife, com gratidão e alegria, senti essas vozes assomarem, ressurrectas, ao meu ouvido. Não senti saudades desse passado, senti apenas que algo desse passado regressava ao meu coração reconciliando-me com a sua memória. Parte da minha existência que parecia ter-se perdido no tempo deixando-me mais pobre e sem o amparo das memórias felizes, graças ao milagre da ressurreição afectiva, a relação precária que mantinha com uma existência passada, logo que algo as fez vibrar de novo em mim, ressurgiram para se unirem a uma corrente que parecia irremediavelmente quebrada. Sentindo de novo o apoio da recordação do lar familiar e do meu ser enquanto criança, a insularidade da minha infância exótica ficou salva.

O tempo caminha na direcção do instante isolado para a continuidade temporal. O Tempo não nos é dado; o que nos é dado é o instante e, com esse instante, compete-nos a nós refazer a continuidade entre o passado e o presente. Compreendi que se o meu presente flutuava sobre o lago adormecido do meu passado remoto e que se a minha frágil existência, suspensa sobre o nada, era um milagre, era apenas porque a minha obra o requeria. Não tinha sido a minha obra a indicar-me o caminho da minha ressurreição? Graças ao dinamismo inerente ao envolvimento criativo, eu era erguida pelo que erguera e achara, naquela terra distante, a renovação de um ser antigo, da criança que eu tinha sido e que tivera um lar, uma alegria. Aquele passado próximo ao qual eu estava ligada por mil laços de hábito e angústia desaparecera e, no meu presente liberto, renasceram as formas de vida há muito esquecidas, um mundo fresco, intacto, tirado dos limbos pelas vozes que me trouxeram de volta as vozes recuperadas ao esquecimento. Foi o regresso à inocência e aos laços generosos com o mundo. Recordei então os versos do poeta francês Jules Supervielle que, nascido no Uruguai, foi aos nove anos para Paris com os pais: «Enquanto existir em mim uma braçada de recordações, não fico sem fogo nem lugar, ocupo ainda um pouco de espaço pois há mais alegria numa única recordação reencontrada do que em mil recordações conservadas». Despertar em nós seres adormecidos no tempo e também no espaço, foi a tarefa não só de Supervielle como de Saint-John Perse, outro poeta de língua francesa que também teve uma infância exótica.

Foi em terras brasileiras que tive consciência da antinomia entre dois mundos e da singular paralisia que resulta para quem faz a experiência simultânea dessa antinomia. Neste mundo novo, as populações, compostas de entidades que mutuamente se excluem, sem homogeneidade, vivem num mesmo espaço mas numa pluralidade anacrónica, a cavalo entre vários tempos.Há uma ordem cósmica no viver do povo e uma ordem voluntária das elites económicas que dirigem o crescimento do país, ignorando a nação. Sendo os tempos das diversas camadas sociais independentes uns dos outros, uma mesma pulsação convoca a nação, um mesmo ritmo a anima – o samba. Os poetas e escritores brasileiros são poetas e escritores de um país novo e de um mundo novo. Venero nestes trabalhadores indómitos dos campos gerais da Escrita, o terem trazido até nós a complexa vivência entre raças e modos de estar de povos de culturas e hábitos diferenciados que a população assimilou e de terem inventariado todo o mundo físico, moral, sexual e mental da sua terra, cientes de que ninguém é dono do que não conhece. Lins do Rego, negando a sua filiação ao Movimento Modernista de 1922, assinou o Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre. Segundo Cavalcanti Proença, os dois movimentos anelavam tudo o que fosse autenticamente brasileiro, opondo-se os do Movimento Regionalista á estilização e homogeneização da linguagem preconizada por Mário de Andrade, teorizador do Modernismo saído da Semana de Arte Moderna de São Paulo.Os regionalistas trouxeram os falares do Brasil para a narrativa literária, dando voz às angústias e esperanças das suas gentes, falares feitos de luz e sombra cujo esplendor obscuro Guimarães Rosa nos revelou em Grande Sertão:Veredas e, lapidarmente, nas iluminadas páginas das suas derradeiras obras. Paradoxalmente, os regionalistas foram bem sucedidos graças à renovação das mentalidades operada pelo Modernismo. O contributo dado pelas duas correntes frutificou nas melhores novelas televisivas e no cinema graças aos seus realizadores e argumentistas e à maravilhosa arte das actrizes e actores brasileiros. As obras dos seus escritores transmitem-nos a dinâmica que anima o homem brasileiro situado num ponto de tensão em que o passado e o futuro para ele convergem, enquanto ele deles diverge, achando-se o ponto de partida do que virá na forma como se resolverem as tensões sociais que dinamizam a sua comunidade aberta a vários rumos. Como duas vagas correndo em sentido contrário, a continuidade e a duração sendo um duplo movimento que surge do futuro e do passado, é no centro dos dias que se encontra a tensão do presente, nele se conciliando épocas e mundos remotos, povos e raças diversas.

Com a revelação da vida aberta, vivendo entre o dia e o sonho, admirei as moradias baixas de tipo colonial, circundadas de varandas de ver as nuvens e quintais ao fundo que me lembravam as das vilas do interior de Angola, assim como os prédios altos e modernos me recordavam os da Luanda que nos anos 50/60 se erguiam ao longo da marginal e de cujas pequenas varandas, contemplando o mar de um azul profundo, comíamos batatas fritas e bifes, cheirando o odor picante da maresia. No Recife, a novidade eram os condomínios fechados que com a entrada e saída dos carros e com a abertura dos portões ermam os passeios desse lado da marginal. Lembrei Lins do Rego que no seu romance Banguê, pela boca do seu personagem Carlos de Melo, sinalizava os novos tempos:«Como nos tempos do velho Zé Paulino, as portas da Casa-Grande trancavam-se à boca da noite. O velho tinha medo do vento. O neto, dos homens». A receptividade que a extensão da marginal oferece a quem a aborda é abruptamente barrada pela fortaleza ininterrupta dos condomínios fechados que oferecem ao transeunte a vista dos seus jardins fechados ornados com estátuas de pedra nos seus bem cuidados relvados. Os nomes dos proprietários, num número restrito de placas colocadas à entrada desses condomínios, perpetua os nomes de quantos se tornaram notados nas lutas pela liberdade nas Américas.

Iván TovarNo grande Shopping Center Recife comprei, para as longas caminhadas, peúgas de algodão de excelente fabrico brasileiro. O algodão esteve na base desta indústria florescente. O escritor José Condé, autor do livro Terras de Caruaru, dá-nos conta de que Caruaru, sendo inicialmente lugar de pernoite das boiadas vindas do sertão bruto, em demanda do litoral,«na década de vinte do século XX, a cidade crescia contornando o monte Bom Jesus e que da caatinga – brotando, nativo, entre mandacarus, xiquexiques e palmatórias – vinha a seiva que lhe dava vigor ao corpo: o algodão». Entre os arredores do shopping e a rua Visconde de Jequitinhonha, andando na direcção do mar, deparei com um bairro popular. As minúsculas casas comerciais, de pedra e cal, ladeavam ruelas estreitas onde tudo se negociava entre levas de gente circulando, vendedores de pitéus, alguns destes empurrando carrinhos com panelas de sopa fumegando, vendedores de camarão, quitandeiras e, numa azáfama ociosa, por ali andavam também muitos moleques, os Ricardos que, como escreveu Lins do Rego, «idos do campo se iam ali empregar, moleques limpos, de olhos vivos, de cara boa, um achado para o Recife, onde moleques daquele tipo se faziam de gente, se metiam em sociedade de operários, quando não se perdiam na malandragem». Lembrei-me das opulentas negras que à sombra das mangueiras e das acácias rubras vendiam nas ruas de Luanda, cocadas, quifufutila, doces de ginguba e fruta. As casas comerciais tinham as portas abertas e dos exíguos passeios podíamos ver açougueiros espiando a rua atrás de quartos de rês pendurados em ganchos de aço, mecânicos transportando peças de automóvel, mulheres frisando ou desfrisando os cabelos, raparigas com os pés calçados de sandálias de couro tatuando braços e ventres, mulheres avantajadas dando banho a crianças e, em todo o lado, a beleza solta das mulatas em cenas do quotidiano dignas do pincel de Utamaro, de tal modo as casas, as ruas e as cenas do quotidiano me recordavam o que vira no filme de Mizoguchi, Cinco mulheres à volta de Utamaro, pintor japonês que viveu no século XVIII em Quioto. Nas escassas casas particulares, as janelas abertas, entre o esvoaçar dos cortinados, num gosto tipicamente holandês, deixavam os seus interiores expostos à curiosidade alheia, revelando essa permuta entre o espaço público e o privado o que a Holanda copiou do Japão. Notei no movimento descontraído e amável de toda aquela gente enchendo as ruas na parte pobre da cidade, algo da elasticidade predominante nas apinhadas ruas do Oriente. Senti todo aquele povo como gente minha que eu já conhecia e com quem aprendera a conviver através das páginas de Gilberto Freyre e José Lins do Rego, este nos seus romances do ciclo da cana-de-açúcar: Menino de Engenho, O Moleque Ricardo, Fogo Morto, Doidinho, Banguê e Usina. Tendo vindo ao mundo apressados por terem um pé na vida, nas largas avenidas o ritmo da multidão, sem ser agressivo, era mais enérgico talvez por terem aprendido que povo que quer pouca coisa do destino não progride e que a recusa do progresso traz infelicidade. Não se sente ali, no entanto, a dureza dos indiferentes com que deparamos nas grandes urbes europeias. Indo naquela multidão cheia de força anímica que me rodeava, como me acolhessem, senti que fazia parte deles à medida que eles iam fazendo parte de mim. Ligeiros e primaveris moviam-se e só eu fermentava ainda, regurgitando, para fora de mim, uma confusa mescla de sentimentos e terrores.

Na densa mata que abraça a Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre, saltitam, de ramada em ramada os macaquinhos miniaturas chamados saguins. Eu ia exaltada com a ideia de encontrar na vasta biblioteca do mestre, entre outros, o livro de Gonçalves Dias, O Brasil e a Oceânia, obra de que eu tomara conhecimento na bibliografia de Casa Grande & Senzala. Informou-me Sonia Maria Freyre Pimentel, sua filha e presidente da Fundação, que me era impossível consultá-la pois não estava feita a catalogação dos seus volumes. Decepcionada, olhei com mágoa as lombadas dos livros adormecidos atrás das vitrinas. Aquela magnífica biblioteca assemelhava-se a um diamante de raro esplendor brilhando, escondido, na obscuridade de uma mina inacessível. Impressionou-me o escritório onde Gilberto Freyre trabalhou com dedicação de apaixonado pois deixou escrito : «Foi o que mais quis ser desde que quis ser alguma coisa: escritor».

 Em Olinda, classificada pela UNESCO como Cidade Património Mundial, visitei os sobrados coloniais, o Museu de Arte contemporânea sito no antigo aljube ou Cadeia Eclesiástica, os monumentos do barroco tropical e curvei-me junto do túmulo de um homem da Igreja e cidadão insigne, D. Helder Câmara. De volta ao Recife, aceitando o amável convite do Dr. Humberto França, chefe de Projectos Especiais da Fundação Joaquim Nabuco, tencionava visitá-la mas resolvi adiar para depois da viagem a Caruaru pois queria ver o agreste, esse faroeste de pobre onde, no dizer de um dos seus escritores, a coragem morria sempre assassinada. O tempo, instável, afastava os turistas pelo que as excursões a Caruaru tinham sido canceladas. Como me dispusesse a viajar sozinha aconselharam-me a ir de táxi pois, segundo diziam, era perigoso viajar nos transportes públicos que atravessavam as mais mal afamadas favelas do Recife, incluindo o Metro que me levaria até à estação central de camionagem. A quantia que me foi pedida pela viagem de ida e volta de táxi era exorbitante e durante a noite digladiou-se em mim o medo que paralisa e o impulso para lhe quebrar as amarras. Quem tem medo não vive, dizia para comigo e pensei que a empresa de táxis que servia o hotel teria o máximo interesse em espalhar o medo para obter clientela. Encorajou-me também o pensamento de que cada hora tem o seu mundo pelo que não ia perder tantos mundos por medo da escuridão ou de interesses alheios. Logo pela manhã colhi informações na rua e as pessoas abordadas aconselharam-me a comprar roupas e objectos de artesanato na feira de Caruaru pois é lá que o povo do Recife se veste e se calça. Viajei para lá consciente da solidariedade de quantos abordam o desconhecido. As multidões têm os seus predadores mas também guardam no seu seio profetas, santos e peregrinos. Esta gente que sofre tantas vezes o desprezo dos que vivem isolados na sua abundância e riqueza, talvez sentissem a minha presença no meio deles como um benefício e eu tinha o sentimento de que um dom circulava entre mim e eles. Sabia por experiência própria que muitos predadores, perante uma presa, ficam desarmados pela palavra. Nuns casos, a palavra, apelando para a sua humanidade, desarma-os, enquanto noutros casos, quebrando-lhes a concentração, desmobiliza-os. O homem que no Metro me levou até à direcção a tomar para a central de camionagem, disse-me que morava no Prado, talvez para afastar a minha apreensão por ele se ter desviado do seu caminho para me guiar. Com o seu modo amável e discreto, assim como o das monjas e militantes de esquerda ali presentes, tive o sentimento de coexistirmos não só no tempo e no espaço mas o de sermos, uns para os outros, apenas transeuntes no universo, sem outro embaraço que o das nossas próprias pessoas. As monjas, cujas ásperas privações as torna fecundas, buscam no próximo o pólen de Deus e são boa companhia. Logo no aeroporto de Lisboa, esperando embarcar, juntei-me a uma monja muito jovem que viajava abraçada a um violoncelo. Sempre que no avião nos cruzávamos, saudávamo-nos alegremente como acontece aos peregrinos. A religião não precisa de templos. O templo não deve servir para abrigar medrosos ou incapazes. A monja, porque é mulher, é o ser mais fraco da natureza. No entanto, ela ergue-se face às tempestades que afligem os homens e mais do que no retiro vazio de um templo, é nesse contacto que o seu espírito frutifica. Sentia sobre mim os olhares dos passageiros, mas não eram olhares de espanto ou de curiosidade, eram simplesmente olhares de gente que não se espanta com nada deste mundo e do outro. Não é no Brasil que os dois lados da vida, o visível e o invisível se intercomunicam num sincretismo religioso único no mundo? Se me abordavam era apenas para saberem a minha opinião sobre o escândalo do mensalão, notando-se que seguiam com paixão os debates que eram transmitidos em todos os meios de comunicação social. O Governo fazia um notável esforço no sentido da alfabetização e da educação cívica dos brasileiros e Lula da Silva detinha ainda a confiança da maior parte dos seus compatriotas. Não pude deixar de reflectir no dilema do P. T., no castigo reservado a quem cede à tentação do real e que é em tudo idêntico ao que encorre o audacioso quando força as barreiras do ideal.

 Iván TovarLins do Rego escreveu que devido à miséria, «iria custar ao povo um século para se aperceber das verdades e dos seus direitos». Não foi preciso tanto tempo pois toda a gente me informava pormenorizadamente dos meus direitos, no hotel, nos táxis, nos bancos, nos ônibus, nas repartições públicas. Os direitos não são pertença apenas de uma elite informada que defende o seu interesse mantendo os outros cidadãos na ignorância do que lhes é devido. Esta mentalidade vigente em Portugal é visível aos olhos dos estrangeiros e obriga a que os portugueses sejam tratados à parte, pois indiferentes aos prejuízos causados a terceiros, não preenchem a documentação que lhes é distribuída a meio da viagem, com a informação de que quaisquer dificuldades que nela encontrassem poderia ser resolvida pelo pessoal de bordo. Desembarcados não lêem cartazes nem indicações, arrastam-se até serem conduzidos por policiais ali postados expressamente para os conduzir, permanecendo em intermináveis filas até aos postos de polícia onde finalmente os papéis são preenchidos. Instruídos nesse sentido, há profissionais empenhados em salvar gente sociável presa na armadilha da ignorância e da insociabilidade dos seus conterrâneos. Os Portugueses, sem dúvida pessoas honestas, estão habituados a uma mediocridade bem paga, vivendo sem o sobressalto de uma vida moral responsável que já envolve a experiência sensível da maioria dos brasileiros. A educação, consistindo em atribuir os actos praticados a um sujeito, não a implementando, a elite que orienta o modo de estar dos nossos concidadãos, está a contribuir para a sua domesticidade moral cuja consequência é a desconstrução da nossa condição de portugueses como experiência colectiva. As vantagens sociais alcançadas surgem acompanhadas da diluição da responsabilidade individual e do laço social.

 A paisagem de um verde opaco e monótono que eu enxergava através da vidraça da camioneta, vinha da linha do horizonte morrer no ocre da beira da estrada asfaltada. Sob o céu velho do agreste surgia, de súbito, uma montanha coroada de verde e, desvoando das suas neblinas, a asa-branca que Luís Gonzaga imortalizou numa canção. As terras de Caruru eram primitivamente habitadas pelos índios cariris. No largo da feira, finalmente consagrados pela urbe de que estavam excluídos, estão as estátuas de Virgolino Ferreira da Silva, Lampião, rei dos carrascais e trilhas de cangaço e de Maria Bonita, sua companheira de luta. Ainda por ali correm as narrativas dos milagres do padrinho padre Cícero do Juàzeiro. Em Caruaru recordei o vaqueiro descrito por Lins do Rego nas suas gloriosas páginas, esse vaqueiro que só encontrou no aboio das vacas o som adequado à sua dor. Terra do frevo e do forrô e maior centro de arte figurativa das Américas, nela imperava a dura lei da caatinga em que a morte não era o fim: era o meio de seleccionar aqueles que mereciam viver, e coitado daquele que não tivesse coragem bastante para cumprir o seu próprio destino. Eles conheciam a estranha sorte de quem não faz o uso da força numa terra que só a força respeita. – Se eu não tivesse matado, não estaria aqui sentado, nesta rede – disse consigo João Teixeira, um dos fundadores de Caruaru segundo nos conta o escritor caruarense José Condé no seu livro Terra de Caruaru.

 Julien Green, escritor americano de expressão francesa e de pais originários do sul dos Estados-Unidos, narra em As Terras Distantes, as perplexidades em que se enredam as consciências dos conquistadores brancos que, assumindo que a sua prosperidade tinha sido alcançada à custa da espoliação e do extermínio dos índios e da escravidão dos negros, e desdenhando a miséria dos brancos pobres porque é sinal de falhanço, se livram do remorso pela ideia que lhes foi transmitida pelos pregadores Episcopalianos que davam essa tragédia como compreendida algures, no plano divino da salvação. Nesta terra de caboclos, estou certa de que alguma doçura teria havido na rudeza daquele abraço entre os conquistadores e as índias levadas por eles das tribos vencidas, caso contrário não teríamos podido apreciar a deliciosa tapioca ( comida ameríndia) com queijo (produto da criação do gado ali levada pelos conquistadores brancos). Também diverso do americano é o modo como é encarada a pobreza. Segundo alguns autores, os pernambucanos tinham o desprezo e o pudor do dinheiro embora soubessem o valor da pobreza. José Condé conta no livro acima citado que na década de 20, numa festa de inauguração de um dos luxuosos palacetes da Rua da Matriz, terminadas as comemorações houve uma festa extra: um grande almoço para todos os pedintes da cidade em que cegos e aleijados comeram na mesa principal da grande sala de jantar servindo-se com talheres de prata, copos de cristal e pratos de porcelana.

Comprei na feira, a um simpático e jovial casal de idosos que pareciam mãe e filho mas que podiam ser esposos ou amantes, os bustos de Lampião e Maria Bonita e um bumba-meu-boi. Apreciei-os pois a união de moços com mulheres muito mais velhas sem que sejam atrapalhados por convenções ou troças, é vulgar no Brasil. Recordei o belíssimo conto de Guimarães Rosa, A Estória de Lélio e Lina. Lina, amando Lélio não queria concretizar o amor pelo que o amado, tendo sido deixado dono de si, ficou intocado no alvor dos seus anos. Se Lina tivesse querido concretizar o amor, o amado iria ter que escalar os degraus do tempo que os separava e nesse esforço se despediria de suas mocidades como se de roupas usadas e sem préstimo se tratasse. Eu estava perante um mistério e o mistério ainda maior do amor ter muitos modos de parecer que morreu como deixou escrito Guimarães Rosa. A estação do amor concreto chegou para ambos depois que as paixões de Lélio se extinguiram. O simpático casal com quem comi e conversei, com receio que as figurinhas de barro se partissem na viagem, embrulharam-nas em várias folhas de jornal. Em Lisboa, quando as desembrulhei, deitei uma olhadela àquelas folhas e tive a grata surpresa de encontrar as páginas integrais do Diário de Pernambuco de 13 de Maio desse ano de 2005, dedicados a Joaquim Nabuco, cuja Fundação não me fora possível visitar por falta de tempo. Estes dados eram para mim preciosos pois informavam-me sobre a política brasileira de finais do século XIX. Joaquim Nabuco (1849-1910 ) nasceu no Recife num sobrado. Foi colega, na prestigiada Faculdade de Direito de São Paulo, de Castro Alves e Rui Barbosa e de dois futuros presidentes do Brasil: Rodrigues Alves e Afonso Pena. Tendo completado os estudos no Recife, cedo entrou em choque com o conservadorismo da aristocracia açucareira que nessa época ditava os rumos da província de Pernambuco. Em 1869 rebentou um dos maiores escândalos de que houve memória, quando Joaquim Nabuco, tomando a defesa de um escravo condenado à pena de morte, colocou a escravidão no banco dos réus pela primeira vez na história. Eleito deputado por Pernambuco em 1878, inicia, em 1884 a campanha pela abolição, cujo projecto de extinção completa da escravidão foi aprovado na Câmara em 8 de Maio de 1888. A glória de Nabuco foi, no entanto, efémera. Joaquim Nabuco tinha sacrificado aos seus ideais abolicionistas, a sua carreira política e diplomática. Segundo o Diário de Pernambuco que tenho vindo a citar, e cito ainda: «Joaquim Nabuco viveu com um ordenado mesquinho, fez dívidas que não podia deixar de fazer e não teve sequer a gratidão dos negros, como teria deixado escrito nos seus Diários». Tendo retornado ao Brasil depois de um exílio voluntário, escreveu:«Ainda não achei trabalho. Sou incompatível com tudo que é do governo pela engrenagem moral em que me meti desde 1879 – e os negócios estão em mãos quase todas de mercenários. Não sirvo a ninguém para nada, porque o trabalho honesto e inteligente, nas posições que eu podia conscienciosamente servir, não compete com a maleabilidade e o servilismo». Contra as teses de Louis Couty e Herbert Smith, sociólogos que na época, acentuando o vácuo existente entre os senhores das casas-grandes e os negros das senzalas, assim como a situação dos brancos e mestiços encarados como párias inúteis, concluíam que no Brasil não havia um povo, Joaquim Nabuco mostrou que o havia ao afirmar com esplêndido desassombro:«Em primeiro lugar,a parte da população nacional que descende de escravos é pelo menos tão numerosa como a parte que descende exclusivamente de senhores; isso quer dizer que a raça negra nos deu um povo. Em segundo lugar, o que existe até hoje sobre o vasto território que se chama Brasil foi levantado ou cultivado por aquela raça; isso quer dizer que foi ela que construiu o nosso país».

Iván TovarAcompanhei de longe o 3º Festival Recifense de Literatura – A Letra e a Voz e visitei, no Instituto Ricardo Brennand, entre muitos tesouros raros, um importante acervo de pinturas do Brasil Holandês (1630-1654). Entre livros, alfarrábios e espadas, passei uma inesquecível manhã no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco em conversa amena e proveitosa sobre a organização militar no Brasil Colonial, com os amáveis Professores Doutores Mota Menezes, Reinaldo Leão, Galindo, Luzilá Gonçalves e a escritora Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque. Com grande pena minha, não assisti à conversa íntima, como Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque chamou à cerimónia do lançamento do seu livro– Luz do Abismo – que iria ser lançado um dia depois da minha partida na maravilhosa Livraria Cultura. Atraía-me nesse livro, o tema e ainda a encantadora personalidade da sua autora.

Sempre o Brasil foi parente do Oriente. Em 1879, Joaquim Nabuco, em discurso na Câmara dos deputados, traçou um paralelo entre a China e o Brasil:«...ambos esses países são dois dos maiores impérios de mundo; ambos têm à sua frente um governo patriarcal; em ambos o imperador é, como se diz na linguagem oficial da China o pai e a mãe do povo, ambos têm os seus mandarins, a sua organização especial, apenas a China leva ao extremo o respeito das suas tradições, dos seus antepassados». Gilberto Freyre, em China Tropical, livro recentemente publicado, retomando a tese de Joaquim Nabuco, deixou escrito que «o parentesco do Brasil e do Oriente se deve ao clima, ao sistema de organização patriarcal de economia e de convivência de raças e classes».

 No Recife, como no Oriente, o que une os homens no imenso formigueiro de gente que faz da rua a sua casa, é o que tocamos com os dedos, são as palavras, os sorrisos e os olhares e há uma alegria misteriosa nesta união de gente ambulante formando um mundo. No Recife entrei em contacto com um mundo novo e estranho e, ao mesmo tempo, familiar : familiar pelo clima tropical, pela cor da pele da maioria dos seus habitantes, pela natureza e pelo modo de estar desprevenido de quem passa; estranho porque de mim se distancia uma terra onde não tenho vizinhos nem amigos de infância. No Recife, misturada com os pernambucanos e brasileiros de passagem, senti que fazíamos parte de um universo real e estar no meio dele e partilhar essa realidade era tornar-me igualmente real e palpável e senti a paz de estar com tudo o que me rodeava e senti que tudo o que me rodeava, confiava-se-me. Foi o meu despertar para a liberdade de viver e de me viver. A minha obra A Batalha das Lágrimas, lança uma ponte no espaço entre Portugal, o Brasil e Timor-Leste.E o bom povo brasileiro retribuíu-me refazendo uma ponte no tempo, a ponte que refazia a continuidade entre o meu passado e o meu presente. Como aconteceu com Saint-John-Perse de quem retomo a maravilhosa síntese, a insularidade da minha infância exótica tinha encontrado ali uma amplitude espiritual a que a Escrita, dando-lhe uma forma, amplificou.

Joana Ruas (Portugal, 1945). Jornalista cultural e tradutora no jornal da República da Guiné-Bissau e na Radiodifusão Portuguesa. Trabalha na escrita de uma obra em três volumes sobre cem anos de Resistência Timorense. Contacto: joanaruas@sapo.pt. Página ilustrada com obras do artista Iván Tovar (República Dominicana).

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