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revista de cultura # 64 |
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Vitor Ramil: o artista
tranquilo Dellano Rios
DR A ação em Satolep é desencadeada a partir do retorno do narrador a cidades com este mesmo nome. Seu regresso à cidade, após uma temporada no Sudeste, foi a experiência base para esta descrição, marcada pelo ambíguo choque de estranhamento e reconhecimento?
DR A inversão do nome de sua cidade natal, de Pelotas para Satolep, é bastante recorrente em sua obra, tanto na música como na literatura. Qual a razões por trás desta transformação? VR É engraçado por que a razão é bem simples. Quase boba, na verdade. Coisa da minha adolescência, quando tinha uns 19 anos e estava fazendo uma canção, que viria a se chamar “Satolep” (do disco “A paixão de V segundo ele próprio”, de 1984). Estava escrevendo um verso, só que a palavra Pelotas não ficava boa e, não sei direito porque, decidi inverter. E, com Satolep, o verso funcionou bem melhor. Depois ela foi se transformando para mim e passou a ter significado. Passou a ser uma entrada diferente e começou a caracterizar algo que não é exatamente Pelotas. Satolep é uma espécie de mitificação de Pelotas. Não a Pelotas dos dias de hoje, mas uma cidade do começo do século XX. Ela também apareceu na versão que fiz de “Joey”, do Bob Dylan (“Joaquim“ do disco “Tango”, de 1987). Depois, quando escrevi meu primeiro romance Pequod, também nomeei Satolep a cidade em que as coisas se passam. No Satolep, lido com figuras reais, como o João Simões (Lopes Neto, escritor) e o Lobo da Costa (poeta), mas de uma forma livre, sem nenhuma preocupação com rigores históricos. Algo que seria bem mais difícil se trabalhasse com Pelotas.
VR Você viu como o livro começa? O personagem está no Norte, no calor, e lembra do frio. Esta história meio que aparece em A Estética do Frio, quando falo do dia que estava no Rio e vi uma notícia no jornal sobre um carnaval fora de época no Nordeste. A partir desta imagem, eu lembrei do Sul, quis estar lá. A estética do frio vai sendo meio sugerida ao longo do livro, sem ser nomeada. O romance vem a aprofundar pontos dela, a exemplificar o que tá naquele textinho. DR Neste texto, da estética do frio, você frisa as diferenças entre a região Sul e o resto do país. Internamente, no estado do Rio Grande do Sul, há diferenças entre sub-regiões e cidades. Quais os traços característicos da “estética do frio” de Pelotas? VR A cidade tem coisas muito próprias. Por exemplo, Pelotas, durante muitos anos, foi o lugar da cultura no estado. Era uma cidade com grandes prédios, passavam por lá as grandes óperas. Mas não era uma cidade feita só pela cultura branca, do europeu. Em certo momento da história, há mais negros que brancos na cidade. As escolas de samba do estado nasceram em Pelotas. Nosso carnaval de rua era maravilhoso. No livro, o personagem fala disso “é a cidade mais brasileira desse Sul branco”. Em A Estética do Frio, não cito Pelotas porque não queria particularizar. Mas a verdade é que, a rigor, toda sugestão formal do meu trabalho vem daqui. DR E em Satolep, como esta influência se faz presente?
DR Para você, música e literatura estão ligadas? VR Me sinto uma pessoa só. O que tenho feito na minha vida toda é não acelerar demais a música, nem correr demais com a literatura. Produzo mais facilmente canções que textos, dai ter gravado mais discos do que escrito livros. Mas estou muito feliz com este momento, com o “Satolep Sambatown”, em estar lançando o livro. Queria chegar destas duas maneiras. Afinal, meu dia a dia, desde meus 11 anos, é escrever e compor. Tento fazer algo em alto padrão, não lanço livro só por vaidade, nem quero fazer música para tocar em novela.
VR Temos que pensar neste “voto popular” não como algo viciado, em um sentido contaminado. Significa que as pessoas votam, não um corpo de jurados. O que está em jogo não é quem é o artista mais popular. Disputando comigo tinham o Caetano e Lulu Santos que, certamente, são populares. A diferença é que o prêmio possibilitava que as pessoas votassem pela Internet. O público que se mobilizou se sente cúmplice do meu trabalho, da minha postura. E ele se mobilizou de verdade. Depois que ganhei é fiquei sabendo da quantidade de gente que pedia votos, nessas correntes. Hoje, as pessoas vem falar comigo não como se eu tivesse ganhado sozinho, mas como se fosse uma vitória coletiva. Com relação a Ivete, não sei quem eram as outras concorrentes, mas ela tem uma coisa particular que, apesar de ser de fato muito popular, tem fã-clube fanático e com certeza se mobilizou para ela ter uma votação muito mais expressiva que as outras. Acho isso interessante porque traz a tona um público que não tem voz, que a mídia tende a menosprezar. Quem não ouve rádio, não vê novela. Tem outro mundo que a gente não tá vendo. Acho que esse público, talvez anos atrás, não existisse pra mim. Venho construindo dessa forma há muitos anos. Tem um personagem em Satolep que diz que “nascer leva tempo”. Nunca investi na minha fama. Sempre achei que o que me dá prazer é a longevidade, é a coisa sólida. |
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Dellano Rios (Brasil, 1982). Jornalista e repórter do Caderno 3, do Diário do Nordeste (Ceará). Entrevista originalmente publicada no Diário do Nordeste em 20 de junho de 2006. Contato: dellano@gmail.com. Página ilustrada com obras do artista Iván Tovar (República Dominicana). |
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