revista de cultura # 64
fortaleza, são paulo -
julho/agosto de 2008

discos da agulha

[ sugestões musicais de fabrício brandão ]

Adele1. 19, de Adele. XL/Columbia, 2007. Contato: www.myspace.com/adelelondon.

Embarcando ao pé da letra nos "dias de sonho", a melodia corta os espaços e define lugares próprios. Então, topar com a bela voz dessa inglesa traz algo intensamente carregado daquela sensação prazerosa de grata surpresa. E a menina, se é que assim podemos chamá-la, tal como o batismo desse seu disco de estréia sugere, tem apenas dezenove anos. Mas, o quantum 19 é pouco para descrever a possibilidade de signos presentes num trabalho que bebe em fontes de muito bom gosto musical, como Ella Fitzgerald e Etta James. Começar pela belíssima Daydreams, é um cartão de visitas e tanto a quem deseja percorrer a firme veia musical da moça, pois se trata de uma dessas canções que cativam de pronto, seja pela voz que se impõe com assombrosa naturalidade, seja pelo arranjo que exala suavidade. Depois, podemos fazer uma incursão na pegada jazzística precisa de Best for Last, canção que traz um ritmo cadenciado e entrecortado por um coro bem típico do gênero. Por aqui, as melodias também sabem se desdobrar por caminhos como o pop, nas faixas Chasing Pavements e Cold Shoulder.

Os arranjos de 19 não se confinam aos caprichos de um estilo em especial. Muito pelo contrário, mesclam elementos de funk e eletrônica num banquete que sabe conciliar as divisas entre clássico e moderno. Mais adiante, um casamento preciso de voz e piano atravessa a pungente Hometown Glory. Todas as faixas do disco dispensam comentários aprofundados. Quando a arte consegue nos capturar pela sua porção arrebatadora, algo de muito especial se instala. O talento de Adele não se presume vanguardista nem tampouco desconstrói ícones já feitos. Seduz pela presença, personalidade e pela força jovem e decidida de um canto que, certamente, sabe escolher caminhos e vislumbrar outros tantos possíveis.

[Fabrício Brandão]

 

Discobossa, de Juliana Aquino2. Discobossa, de Juliana Aquino. Universal, 2006. Contato: www.julianaaquino.com.br.

Um tempo revisitado e seus matizes sensíveis: eis o resultado do primeiro disco solo da cantora Juliana Aquino, trabalho que devota especial atenção à força melódica e suave das canções em destaque. DiscoBossa é mais do que um início de jornada para a cantora, principalmente pelo fato de ser possível encontrar nele todo um apuro e cuidado dignos de uma artista que revela com personalidade os caminhos a percorrer. E o diálogo entre dois gêneros emblemáticos, a Bossa Nova e a Disco, fez-se com adequação e delicadeza, e, para quem percebe as transposições de um estilo ao outro, acaba também por ser surpreendido com o novo percurso trilhado pelos arranjos. A cadência acelerada e dançante do ritmo que marcou uma época, como é o caso da Disco, deixou-se conduzir pelas mãos suaves da Bossa. Por sinal, essa transferência de um ambiente musical a outro chama a atenção no disco, pois não é tarefa fácil manter a fidelidade harmônica e rítmica bossanovista sem romper com a intensidade das letras interpretadas.

Para se ter uma idéia de alguns dos desafios trazidos nesse trabalho, basta sentir o novo terreno em que passeiam canções como I Will Survive e Don't Let Me Be Misunderstood, verdadeiros hinos da geração setentista e que aqui aparecem encantadoramente revestidos de suavidade e lirismo. Dona de uma voz que se impõe de forma bela e intensa, Juliana sabe conduzir com maestria os nossos sentidos em faixas como On The Radio e Can't Take My Eyes Off Of You. Ninguém menos do que Celso Fonseca, Wilson Simoninha, Leo Gandelman, Torcuato Mariano, dentre outros, vêm acrescentar mais qualidade ao CD dessa baiana que, durante toda a vida, manteve uma relação muito estreita com a MPB. Quando se escuta um disco como esse, percebe-se quão generosa e rica em amplitudes é a nossa música. De fato, outros tantos caminhos possíveis existem, mas a cada um é dada a sua cara, sua força e seu apelo sensível a nos convidar para a redescoberta de nossas porções sublimes de vida.

[Fabrício Brandão]

 

Em pé no porto, de Kristoff Silva3. Em pé no porto, de Kristoff Silva. Jardim Produções, de 2007. Contato: www.kristoffsilva.com.br.

Imagine um lugar onde a sensação primeira das coisas parece estar em suspensão, algo como se tudo pudesse ser apreendido de forma separada, enaltecendo seus próprios valores para depois se encontrar num só ambiente de contemplações sonoras. Eis as impressões marcantes que brotam da musicalidade apurada de Kristoff Silva, artista que agrega em si as faces de compositor, instrumentista, cantor e autor de trilhas para teatro, dança e televisão, dentre outros atributos.

Ao longo de Em Pé no Porto, primeiro álbum do artista, podemos perceber a condição privilegiada na qual é posta a canção. De chegada, podemos sentir, em faixas como Mar Deserto e Estação Final, os apelos que constroem um espaço sublime e suave para a música. Faz jus às origens de Kristoff toda a preocupação em dotar as canções do disco com a força que brota dos recursos instrumentais. E estas não são apenas recursos meramente melódicos, pois se harmonizam com letras que se utilizam da solução poética. Prova vigorosa disso está na faixa O último Sol e também na canção Olhos da Nau. Outro aspecto que aumenta a qualidade do CD está nas participações especiais de Jussara Silveira (na belíssima Alma, Riso), Ná Ozzetti (na intensa e poética A Chamar), Luiz Tatit (em O Prazer) e Marcelo Pretto (São). Com toda a vivência contida em seus mais de 14 anos de ofício, Kristoff prova que a originalidade é a virtude principal de seu trabalho. Tudo o mais fica reservado aos imperativos sensíveis de nossas percepções neste que é um verdadeiro convite à boa musica.

[Fabrício Brandão]

 

Paisagem humana, de Rubi4. Paisagem humana, de Rubi. Eldorado, 2006. Contato: www.myspace.com/paisagemhumana.

Vagar e só vagar à procura de novos e bons signos: eis a receita que só o tempo, ao mesmo instante que "esconde", revela gratas descobertas em torno da arte. Não é exceção a essa regra prestar devidas escutas à verdadeira paisagem humana cantada pelo goiano Rubi. De imediato, as atenções se voltam para a singularidade da voz do artista, fato que atrai pela forma personalizada com a qual o cantor naturalmente imprime intensidade ao seu canto. A vivência teatral de Rubi parece ter se espalhado para a interpretação que ele confere às canções de seu repertório. Basta ir ouvindo as faixas do CD para perceber todo o dinamismo que ele sugere. Aqui há lugar para sentimentos mais contidos e sublimes, exalados em canções como De Onde Vem a Calma (Marcelo Camelo), Infinito Meu (Gero Camilo) e Por Tudo Que for (Lobão/Bernardo Vilhena). Por outro lado, expressões que desenham ritos mais plásticos de interpretação estão presentes em faixas como Santana (Junio Barreto), Cabimento (Kleber Albuquerque) e da bela Fica Comigo Esta Noite, composição de Nelson Gonçalves e Adelino Moreira. Do universo de sentidos presente em Paisagem Humana, sobressai a grande dose de sensibilidade trabalhada pelo canto suave e, ao mesmo tempo, incisivo de Rubi. Destas demonstrações, talvez a mais bela esteja em Inverno (José Miguel Wisnik), canção que evoca uma sensação de busca da identidade em meio aos contornos urbanos de uma São Paulo plural. O fato é que somos feitos de substâncias inexplicáveis, traduções imperfeitas. Por vezes insensatos, esquecemos de deitar olhos a esse imenso mosaico do tamanho do mundo, um mar de gente.

[Fabrício Brandão]

 

O que será que está na moda?, de Selmma Carvalho5. O que será que está na moda?, de Selmma Carvalho. Selo Independente, 2005. Contato: www.selmmacarvalho.com.

Terceiro disco dessa talentosa artista mineira, O que será que está na moda? é um trabalho que serve para definir o fundamental da cantora Selmma Carvalho: uma voz de personalidade e cara próprias. Aliado ao seu canto firme, há um repertório de canções muito bem selecionado com letras que mesclam novos compositores e outros já consagrados de nossa MPB. A intensa e tocante faixa Túnel do Tempo é um verdadeiro presente aos ouvidos, trazendo uma letra sensível aliada a um belo arranjo de acordeon. Considero Sinal dos Tempos como sendo a canção que melhor define a pegada de Selmma, pois traz em si todo o vigor de sua interpretação, afirmando, ao mesmo tempo, tons de suavidade e força sugeridos pela mensagem otimista das palavras ali contidas. Canções de gente como Zeca Baleiro, Celso Fonseca, Verônica Sabino e Nando Reis ganham novos sentidos a partir da musicalidade de Selmma. Num trabalho que mescla gêneros variados, há a confirmação das escolhas bem feitas pela artista. Exemplo disso, é o caso da bela interpretação de Imitação, composição do sambista baiano Batatinha, aqui, bem adornada por precisos trompete e cuíca. O título do disco é batizado com uma pergunta que parece insistir em não ter resposta, mas o melhor de tudo mesmo é saber que os caminhos nem sempre apontam para um mesmo lugar.

[Fabrício Brandão]

 

Breakfast on the morning tram, de Stacey Kent6. Breakfast on the morning tram, de Stacey Kent. EMI/Blue Note, Ano: 2007. Contato: www.staceykent.com.

A apreciação e o gosto pessoal certamente nunca seguiram uma ordenação determinada. Na verdade, nem devem ficar presos a isso, pois impulsos aleatórios fazem parte de nossas primeiras impressões e sintonias com a sonoridade que nos é proposta. Entretanto, se você se deixar conduzir de imediato pela primeira faixa de Breakfast on the Morning Tram, dificilmente perderá a vontade de seguir adiante e descobrir o que reserva o trabalho dessa americana talentosa cuja voz sugere uma feição de serenidade à música. Stacey Kent nos toma pela mão e nos chama desde já pela suave The Ice Hotel, faixa que funciona como um bom convite ao romantismo. Coisa bacana nesse CD é perceber que a artista sabe muito bem em que terreno pisa, apresentando um disco que reflete sua amplitude musical. Prova disso está na interpretação belíssima de Samba Saravah (Samba da Bênção), canção de Vinícius e Baden Powell, aqui magistralmente cantada em francês.

Amante confessa da Bossa Nova, Stacey deixa isso bem claro em seu disco, sobretudo na sublime I Wish I Could Go Travelling Again, faixa cujos arranjos promovem um acertado percurso no gênero. A predileção pelas composições de Serge Gainsbourg também faz parte da obra e visita as faixas Ces Petits Riens e La Saison des Pluies, ambas dotadas de suavidade e cujos caminhos melódicos apontam para o que a própria cantora define como sendo uma espécie de tristeza otimista. Breakfast on the Morning Tram soa intensamente jazzístico e é um álbum onde o apuro e o bom gosto percorrem as estradas musicais de mãos dadas. Depois de sete discos gravados, a palavra de ordem para Stacey Kent parece ser a maturidade refletida no tom confessional que marca o seu mais novo disco. A você, caro leitor, fica a oportunidade válida para se deixar levar pelos espaços infinitos que só a boa música pode proporcionar.

[Fabrício Brandão]

 

Na confraria das sedutoras, de 3 na Massa7. Na confraria das sedutoras, de 3 na Massa. Candeeiro/SeloInstituto / Nublu Records, 2007. Contato: http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=118597145.

Há quem diga que as mulheres são o ponto fundamental do equilíbrio desse nosso desvairado e errante mundo. Guardadas as devidas proporções das diferenças entre os sexos, o universo feminino parece levar uma certa vantagem quando o assunto é a habilidade em lidar com a árvore frondosa dos sentimentos. Para se ter uma noção, reúna num mesmo banquete o coro de vozes afinadas em torno de um mesmo propósito: a exposição do desejo. O resultado disso chama-se Na Confraria das Sedutoras, disco que celebra as visões femininas dentro da ótica das relações amorosas. Quem escuta a fundo o CD, pode perceber a avalanche de impressões que é despejada pela ótica feminina, tudo reunido num verdadeiro caldeirão a misturar erotismo, sensualidade e, acima de tudo, sensibilidade.

Toda essa confluência de sentidos faz parte do projeto 3 Na Massa, grupo que reúne os músicos Pupillo e Sucinto Silva (ambos integrantes da Nação Zumbi), além de Rica Amabis (Instituto). Os três colocaram a "mão na massa" numa produção onde vozes como as de Céu, Thalma de Freitas, Karina Falcão, Pitty, Nana Miranda, dentre outras, ecoam seus recados num verdadeiro diálogo aberto com aquele que se afigura como o objeto dos desejos exalados. Na Confraria das Sedutoras utiliza-se de arranjos que sabem recriar os ambientes sobre os quais repousa a temática viva das canções. É difícil destacar faixas, pois cada uma vislumbra uma faceta peculiar desse jogo complexo de emoções. Além disso, o disco traz em si um apelo imagético muito forte, como se cada canção, pela via dos arranjos, sugerisse de imediato o contorno dos cenários que servem de pano de fundo para o canto. Deixando de lado a velha mania de se atribuir "vanguardismos" a esse ou aquele artista, mais vale a idéia de se transformar aquilo que já existe em algo valioso e capaz de tirar, bem abaixo de nossos narizes, os móveis de lugar.

[Fabrício Brandão]


parceiros da agulha nesta seção

   Putumayo World Music

 

Discos para Agulha deverão ser enviados aos editores, nos endereços a seguir:
Floriano Martins - Caixa Postal 52874 Ag. Aldeota - Fortaleza CE 60150-970 Brasil
Claudio Willer - Rua Peixoto Gomide 326/124 - São Paulo SP 01409-000

 AGULHA # 64 ÍNDICE GERAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA