![]() |
|
revista de cultura # 64 |
|
Cantares de Ramos Cotôco Luciana Gifoni
A pergunta padrão de quem ouve falar pela primeira vez desta figura, “Ramos quem?”, este disco também procura desvendar, mostrando seu lado compositor e poeta. Meu primeiro contato com os cantares de Cotôco deu-se em 2002, quando participei da comemoração dos cem anos do movimento literário Padaria Espiritual, tocando na flauta, acompanhada por Giovanni Sena ao violão, as modinhas de compositores cearenses, cujas melodias foram extraídas do livro A Modinha Cearense, de Edigar de Alencar (Fortaleza, Imprensa Universitária, 1967). Nesta ocasião, pude rever, de forma ainda muito discreta, uma avaliação errônea de que um estudo aprofundado das músicas de Cotôco não causaria maiores entusiasmos, pois julgara precipitadamente que ele fosse mais um representante daquelas modinhas de salão, ligadas ao ambiente dos saraus organizados pelas damas da elite, que acompanhavam a moda européia para ostentar uma distinção social.
O primeiro passo foi a escolha da instrumentação: em vez de piano, canto lírico ou instrumentos convencionais de orquestra, preferi dar lugar ao violão, à flauta doce, ao cavaquinho, a uma percussão pouco carregada (pandeiro, triângulo, tamborim etc.) e a uma voz limpa que enfatiza tanto a expressividade lírica quanto os gracejos do compositor. Ao escutar a versão de Engomadeira, gravada em 1908, por Mário Pinheiro, é notável o contraste da atual proposta para as composições de Cotôco com a interpretação corrente da época (pelo menos, em gravações), que usa – e, para alguns, abusa - o bel canto italiano, um piano acompanhando e um coro imponente nas finalizações do refrão. A inclusão desta versão como faixa bônus lança o ouvinte a um interessante paradoxo interpretativo, que faço questão de explicitar, mas não pretendo impor qualquer resolução.
É difícil explicar em palavras o modo como revivemos o imaginário sonoro de Ramos Cotôco a partir daqueles ensaios, da construção dos arranjos e da estratégia de gravações, conciliando horários e idéias aparentemente impossíveis. Pois foi feito, e está tudo aqui: o cenário fortalezense da virada do século XIX para o XX, o jeitão todo próprio de ser do artista, a poesia boêmia que tematiza o cotidiano e faz questão de tomar partido, e os ritmos musicais comuns ao ouvido popular urbano da época. Em nossa pequena mostra, prevalece a tendência à irreverência e à sátira presente na maioria das composições, bem afinadas com a gaiatice cearense de Cotôco.
Embora não apresente preferência pelos lamentos das modinhas convencionais, o caráter lírico de Cotôco se destaca em Primeiro amor (s/d). Ele indica se tratar de um schottisch, que, a princípio, remete-nos a um tipo de dança de salão que antecede o xote, mas, pela expressividade contida na linha melódica e nos versos sentimentais, interpretamos como a acepção do gênero seguida pelos chorões de fins do século XIX, que chamavam de schottisch um tipo de modinha que poderíamos denominar simplesmente de canção, fundamental elemento das noites de serenata. Sua emotividade está presente, ainda, nas valsas Sonho de noivos (s/d), segundo Edigar de Alencar, muito popularizada na época, e Cabocla (1903), em que o compositor coloca na voz das mulheres a sua preferência pela sensualidade “natural” das mulatas pobres – diríamos, das “cunhãs”. Da mesma forma, no xote Mulata cearense (1900), ele ressalta este “eu” feminino, um caráter explorado, estudado e admirado pela geração da MPB pós-60.
Permito-me responder a questão inicial ainda sob um outro aspecto. De fato, o processo de reviver os cantares de Cotôco foi além do – inevitável - encanto com o objeto musicológico e da cumplicidade da relação musical com sua obra. Um século depois, é possível sentir a presença de Ramos Cotôco propondo uma escuta e um olhar diferenciado para nossa cidade. Suas moças, sejam as “criadas da Mororó” ou as “patroas da Caio Prado”, passeiam hoje pelas lojas de moda nas ruas do centro e nos shopping centers, e exibem suas belezas, postiças ou naturais, nas praias da Barra do Ceará à Praia do Futuro. Sua postura irônica e bem-humorada diante das adaptações locais às novidades do mundo moderno continua sendo um prato cheio na verve de nossos humoristas. Sua música representa a informalidade de uma prática cultural urbana que envolve Fortaleza até hoje, nos bares, nas festas, nas atrações da noite cujo espírito boêmio se mantém. Participar desta vivência noturna da cidade colaborou também para a concepção deste projeto, e agradeço aos amigos que, sendo eles mesmos nas divertidas noites de verão, e de modo involuntário, completaram-me as razões e sensações para encontrar um sentido musical contemporâneo à obra do Sr. Raimundo Ramos Filho, o nosso ilustre Cotôco. |
|
Luciana Gifoni (Brasil). Música, jornalista e pesquisadora de música. Este ensaio é parte do encarte do CD Cantares bohêmios, de Ramos Cotôco (Fortaleza, 2006), cuja direção musical, arranjos e flautas estão a cargo de Luciana Gifoni. Agradecimentos a Raymundo Netto, pela generosa cessão da fotografia de Ramos Cotôco. Contato: nanagifoni@gmail.com. Página ilustrada com obras do artista Iván Tovar (República Dominicana). |
| RETORNO À CAPA | ÍNDICE GERAL | BANDA HISPÂNICA | JORNAL DE POESIA |
|