Iván Tovar Iván Tovar
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revista de cultura # 64
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 2008

Iván Tovar

editorial

Censura, por todos os lados

Burocratas estão aí para burocratizar.

Censores, para censurar.

Tribunais, para legislar.

E para tutelar. Para invadir a esfera privada, tratando todo mundo como se fôssemos uma multidão de incapazes.

Daí as variedades de censura judicial postas em prática, ou que se tenta pôr em prática, de uns tempos para cá. Biografias, pelo visto, só podem aquelas que agradarem ao biografado. Notícias em jornais, desde que algum juiz não discorde delas: pois não houve, outro dia, proibição, censura prévia evidente, de dois jornais de São Paulo (O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde) noticiarem investigações de corrupção em uma corporação de médicos? Quanto ao noticiário político, tivemos as ações contra uma revista e alguns jornais, por supostamente fazerem propaganda eleitoral ao entrevistarem candidatos, desconhecendo a diferença entre noticiário e propaganda.

E, a toda hora, mais novidades. Agora, a resolução 22.718/2008, do Tribunal Superior Eleitoral, sobre propaganda eleitoral pela internet. Textualmente: a propaganda eleitoral somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral. Estão proibidos vídeos de apoio a candidatos no YouTube e afins, páginas em sites de relacionamento, banners em portais informativos, o uso de e-mail marketing, blogs, banners, links patrocinados em sites de busca.

Os magistrados aplicaram ao meio digital as regras que valem para a mídia eletrônica, TV e rádio. O argumento: ambos, mídia eletrônica e meio digital, são concessões públicas. O que vale para uma tem que valer para o outro. Portanto, se algum de nós quiser enviar e-mails sobre algum candidato a qualquer coisa, a favor ou contra, não pode. Ou poderia, sim, desde que contra, e não a favor? Contra o adversário, e não a favor de quem apoiamos ou desejamos eleito?

Mais uma vez, confundiram tudo. Portais de provedores, determinadas páginas e blogs são, de fato, empreendimentos jornalísticos. Extensões dos jornais. Valem para eles as mesmas regras que para jornais e revistas.

No entanto, se eu, você, qualquer um de nós, pessoas físicas, indivíduos, e não empresas jornalísticas, enviarmos mensagens pela Internet, através de e-mails, ou as exibirmos através de nossos blogs ou páginas pessoais, essas regras não poderiam aplicar-se. E-mails são extensões de conversarmos com alguém, de falarmos ao telefone, de mandarmos carta pelo correio, e não de empreendimentos jornalísticos que não somos ou não temos. Passa a haver tutela do indivíduo, do direito de cada um à expressão, e não mais do comportamento de empresas de comunicação.

A propaganda eleitoral através das mensagens, de e-mails, corresponde, sem dúvida, ao mais baixo nível dessa atividade. É por onde mais proliferam a intriga, o sectarismo, a paranóia, a mentira em todas as suas cores e matizes. Nada disso justifica, porém, proibi-la. Que cada um resolva o que deseja receber; que use à vontade os comandos excluir e lixo eletrônico. Que o público deixe de ser equiparado a débeis mentais, incapacitados, necessitando que cada ato seja regulamentado e tutelado por alguma autoridade.

A regulamentação, no caso da Internet, é além de tudo inútil, reveladora do diletantismo. Pertence à mesma família da ingênua proposta de prévio cadastramento a cada envio de mensagens, para impedir e-mails maliciosos; e dos cadastros de usuários, tal como previsto no projeto agora aprovado pelo Senado. Aliás, algo bem análogo aos cadastros de moradores em qualquer lugar, durante o regime militar, convertendo obrigatoriamente todo zelador de prédio em alcagüete a serviço dos órgãos de segurança. E todo mundo em suspeito de alguma militância clandestina, a priori.

Acontece que a Internet é mundial. Não pode aqui? OK, então mando meu e-mail, malicioso ou não, da Tailândia, ou de alguma nação sediada em uma ilha bem exótica. Sem me erguer da minha cadeira. Algum provedor de lá me aceitará.

Um dos erros dos legisladores é o provincianismo. É acharem que o Brasil é planeta separado, descolado do restante da Terra. O que deveriam fazer, se a preocupação imediata deles fosse além de quererem tutelar o cidadão: primeiro, fazerem que o Brasil subscreva alguma boa convenção sobre segurança no meio digital; depois, adaptarem nossa legislação a essa convenção.

Os dispositivos constitucionais sobre liberdade de expressão, banindo a censura, e aqueles sobre privacidade, foram conquistas da sociedade, cansada da tutela durante o regime militar (e também antes). Sinais de novos tempos. Precisam, pelo visto, de algum parágrafo ou artigo adicional, declarando que são para valer.

Ganhamos mais liberdade de expressão porque lutamos por isso. É um legado a ser defendido. E a luta prossegue. A moda atual das censuras judiciais, mais as intervenções em exposições de artes visuais, um ou outro processo contra músicos e escritores por suposta indução ao uso de drogas ou algum outro crime, além de projetos querendo segurança na Internet ao preço de direitos individuais: tudo isso mostra que censores e outros agentes da repressão podem estar à sombra; mas não dormem.

Os editores

Iván Tovar

sumário

1 a propósito da crítica. nicolau saião
2 alfredo fressia: o mais conhecido dos segredos de são paulo [entrevista]. maiara gouveia
3 as bordas do tempo: a idéia de collage em antonio negri. fernando freitas fuão

4
caderno de viagem. joana ruas
5
cantares de ramos cotôco. luciana gifoni
6
entre ostras, pérolas e ossos: a dialética nas criações de tim burton. maria angélica amâncio
7
gustavo pereira: "la poesía es un salvoconducto de lo humano ante sí mismo y tanto como una razón estética una fuerza moral" [entrevista]. franklin fernández
8
herberto helder: entre o barroco e o neobarroco, a fábula no nome. luis eustáquio soares
9
josé lezama lima o los placeres de la conversación. carlos bedoya 
10
juan goytisolo
y su afán siempre polémico [entrevista]. miguel ángel muñoz
11
juan manuel simple de andrade. luis fernando cuartas
12
los surrealistas en la américa, tercera parte: el surrealismo y el expresionismo abstracto. carlos m. luis
13
surrealismo hoje: diálogo. claudio willer & floriano martins
14
un siglo de cesare pavese: 1908-2008. rodolfo alonso
15
vitor ramil: o artista tranqüilo [entrevista]. dellano rios

artista convidado iván tovar [vária, texto de marianne de tolentino]
resenhas livros da agulha
george bacovia | déborah vukušić | román simić [por dan munteanu colán] o surrealismo [org. j. guinsburg e sheila leirner] floriano martins franklin fernández [por juan calzadilla] gilles colleu humberto mata [por aleyda quevedo rojas] jesús david curbelo [por aleyda quevedo rojas] jorge barreto marcelo antônio da cunha valentim facioli [por antônio do amaral rocha] versos comunicantes III [org. josé ángel leyva, por juan manuel roca]
música
discos da agulha adele
juliana aquino kristoff silva rubi selmma carvalho stacey kent 3 na massa [sugestões musicais de fabrício brandão]
poesia
banda hispânica
cumplicidade 1 galeria de revistas confraria (brasil, por aderaldo luciano dos santos)
cumplicidade 2
galeria de manifestos  
cumplicidade 3
galeria de arte

Iván Tovar

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

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todos os colaboradores

artista plástico convidado (vária)
iván tovar

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jornal de poesia

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ð português]
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