Mayte Bayon Mayte Bayon
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revista de cultura # 63
fortaleza, são paulo - maio/junho de 2008

Mayte Bayon

editorial

O cinismo como último recurso contra a arte

O universo da criação artística não é definido somente por seus períodos de vanguarda. Ali atuam também aspectos como confirmações, vencimentos e diluições. Este último aspecto resulta de maior perigo, porque em seu nome se concentram os falsos testemunhos, que em muitos casos não se restringem a simples questão de ingenuidade ou falta de talento. O grau de perversão instituído pelas relações comerciais no que respeita à produção artística trouxe uma conotação programática para este precioso aspecto: a diluição. Romances, filmes, telas, canções, poemas escondem, por trás de sua aparente fragilidade estética, todo um sistema de facilidades contratuais, difusão e consumo. Em meio a este bem sucedido empreendimento, baseado nas leis do mais austero imediatismo, já ninguém dá pela conta dos prejuízos culturais que tais ações possam acumular em sua trajetória.

Sendo o Brasil um país com deficitária percepção do sentido histórico de todo e qualquer ato, individual ou coletivo, o prejuízo mais alarmante é que legitimamos a circunstância independente de seus mecanismos de produção e promoção. Não importa que as evidências tenham sido plantadas: são evidências e é o que basta. E nada mais incondicional do que a devoção que nos leva a repetir: “Foi Deus quem quis assim”, sendo este outro falso testemunho que hoje se incorpora à instituição da diluição, considerando o cinismo com que se abusa da ingenuidade da grande maioria da população brasileira que sofre em nome dessa credulidade no destino.

Ao legitimarmos o falso testemunho perdemos por completo o direito a cobrar ressarcimento à realidade por quaisquer avarias em seu organismo vivo. Assim é que a criação artística aqui tratada ao início possui uma interferência mais ampla, pois é em seu nome que se estabelece uma massa uniforme de componentes da diluição que são indiscriminadamente apresentados como arte contemporânea, quer tratemos de filmes, romances, peças de teatro, telenovelas, canções, jingles, performances, anúncios publicitários, já não importa, todo este tecido está corrompido pelas novas leis da diluição. E tudo muito bem alimentado pela equívoca reação das supostas vítimas deste sistema. Uma reação que mescla preconceito e inveja, quase erradicada já a contestação como um exercício de quem busca repor, através do diálogo, do argumento, a ordem natural às coisas.

É verdade que o mecanismo dessa trapaça é muito astucioso e revela a natureza de quem lhe contesta da mesma maneira como a daqueles que silenciam movidos por uma expectativa de serem aceitos no clube. De nada vale, por exemplo, aproveitar-se da notoriedade espantosa de um Paulo Coelho para recriminar-lhe os inúmeros erros gramaticais cometidos em seus livros. É mais um caso de falso testemunho, motivado por um preconceito, que evita tratar do tema em seu aspecto central: o domínio da linguagem. No que diz respeito especificamente à deficiência vernácula, é raro encontrarmos no Brasil um autor que não cometa as suas impropriedades, e aqueles que não as cometem, no geral, apenas escrevem corretamente, o que em termos estéticos é insuficiente.

Claro está que a criação artística não se limita a tal domínio, que não é a destreza gramatical que faz de alguém um bom poeta ou romancista. Seria como imaginar que o estudo de anatomia e a habilidade ante uma paleta de cores fosse o suficiente para que alguém se tornasse uma excelência na pintura. Em grande parte, o que há de sagaz no estratagema da diluição é que ela se apresenta como uma arte com pleno domínio do aparato técnico. O avanço tecnológico a que chegamos permite o traço dessa tênue linha que separa dois mundos.

Com bons músicos, arranjadores, estúdios de gravação, produtores, mídia etc., como separar o joio do trigo no estágio atual em que se encontra a canção popular no Brasil? Acrescente-se a isto o empenho institucional – em parte motivado por um complexo de culpa gerado pela extinção da Embrafilme no governo de Fernando Collor de Mello – em promover indiscriminadamente o cinema brasileiro, e a dificuldade será a mesma. Literatura, artes plásticas, teatro, não enfrentam circunstâncias distintas, igualam-se no que diz respeito a princípios e destinos.

É um sinal dos tempos? Não pode haver argumento mais débil, posto que tudo é sinal dos tempos. A arte, ao contrário, sempre foi um sinal de resistência ao tempo. Como recentemente escreveu a um dos editores da Agulha o poeta e artista português Cruzeiro Seixas, “tenho para mim que a verdadeira obra de arte é aquela que não pode ser reconhecida pela sociedade que a gerou”. É curioso observar como o mercado tem reconhecido obras de arte antes mesmo que elas tenham sido criadas. Sinal de menos? Sinal da condição atemporal da arte? Sinal de exclamação ou sinal de interrogação?

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Floriano Martins & Claudio Willer                            Floriano Martins & Claudio Willer

Na noite de 10 de abril de 2008, o SESC SP foi palco da cerimônia de entrega do Prêmio ABCA 2007, evento que a Associação Brasileira de Críticos de Arte vem realizando há 30 anos. A Agulha foi agraciada com o Prêmio Antonio Bento, como melhor veículo de difusão da cultura e das artes no ano de 2007. Parabéns a todos nós: editores, colaboradores, leitores.

Os editores

Mayte Bayon

sumário

1 1938-2008 ¿césar vallejo ha muerto? rodolfo alonso
2 a poesia de fernando echevarría. maria joão reynaud
3 cidade, segunda natureza. luís estrela de matos

4
dois amores de stendhal. joana ruas
5
fred svendsen: objeto de arte ou arte-objeto (entrevista). ricardo anísio
6
gérard de nerval aos 200 anos. claudio willer
7
john berger: el golpe poético de la mirada (entrevista). miguel ángel muñoz
8
lembranças do carnaval de pernambuco ou uma breve história do frevo. weydson barros leal
9
los surrealistas en la américa, segunda parte: los surrealistas y el arte de los nativos americanos. carlos m. luis 
10
o alvorecer da consciência em yukio suzuki. jacob klintowitz
11
o espetáculo do capitalismo, a utopia do orgasmo e o teatro da vida. josé carlos a. brito
12
o quarto submerso: introdução & regresso. jules morot
13
poemas digitais. floriano martins
14
raul proença, leitor e crítico de florbela espanca. joão garção
15
ruy belo: uma aldeia que não existe. henrique manuel bento fialho

artista convidado mayte bayon [vária, texto de nicolau saião]
resenhas livros da agulha
bertha martínez castilla [por enrique sánchez hernán] cielo g. festino [por valentim facioli] edgardo rivera martínez federico nogara [por héctor rosales] gabriela kvacek betella grupo surrealista de madrid
poesia banda hispânica
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cumplicidade 3
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expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
todos os colaboradores

artista plástico convidado (vária)
mayte bayon

apoio cultural
jornal de poesia

traduções
éclair antonio almeida filho [inglês, francês
ð português]
marta spagnuolo [português ð espanhol]
floriano martins [espanhol
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