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editorial
O cinismo como último recurso contra a arte
O
universo da criação artística não é definido somente por seus períodos
de vanguarda. Ali atuam também aspectos como confirmações, vencimentos e
diluições. Este último aspecto resulta de maior perigo, porque em seu
nome se concentram os falsos testemunhos, que em muitos casos não se
restringem a simples questão de ingenuidade ou falta de talento. O grau
de perversão instituído pelas relações comerciais no que respeita à
produção artística trouxe uma conotação programática para este precioso
aspecto: a diluição. Romances, filmes, telas, canções, poemas escondem,
por trás de sua aparente fragilidade estética, todo um sistema de
facilidades contratuais, difusão e consumo. Em meio a este bem sucedido
empreendimento, baseado nas leis do mais austero imediatismo, já ninguém
dá pela conta dos prejuízos culturais que tais ações possam acumular em
sua trajetória.
Sendo o Brasil um país com deficitária percepção do sentido
histórico de todo e qualquer ato, individual ou coletivo, o prejuízo
mais alarmante é que legitimamos a circunstância independente de seus
mecanismos de produção e promoção. Não importa que as evidências tenham
sido plantadas: são evidências e é o que basta. E nada mais
incondicional do que a devoção que nos leva a repetir: “Foi Deus quem
quis assim”, sendo este outro falso testemunho que hoje se incorpora à
instituição da diluição, considerando o cinismo com que se abusa da
ingenuidade da grande maioria da população brasileira que sofre em nome
dessa credulidade no destino.
Ao legitimarmos o falso testemunho perdemos por completo o
direito a cobrar ressarcimento à realidade por quaisquer avarias em seu
organismo vivo. Assim é que a criação artística aqui tratada ao início
possui uma interferência mais ampla, pois é em seu nome que se
estabelece uma massa uniforme de componentes da diluição que são
indiscriminadamente apresentados como arte contemporânea, quer tratemos
de filmes, romances, peças de teatro, telenovelas, canções, jingles,
performances, anúncios publicitários, já não importa, todo este tecido
está corrompido pelas novas leis da diluição. E tudo muito bem
alimentado pela equívoca reação das supostas vítimas deste sistema. Uma
reação que mescla preconceito e inveja, quase erradicada já a
contestação como um exercício de quem busca repor, através do diálogo,
do argumento, a ordem natural às coisas.
É verdade que o mecanismo dessa trapaça é muito astucioso e
revela a natureza de quem lhe contesta da mesma maneira como a daqueles
que silenciam movidos por uma expectativa de serem aceitos no clube. De
nada vale, por exemplo, aproveitar-se da notoriedade espantosa de um
Paulo Coelho para recriminar-lhe os inúmeros erros gramaticais cometidos
em seus livros. É mais um caso de falso testemunho, motivado por um
preconceito, que evita tratar do tema em seu aspecto central: o domínio
da linguagem. No que diz respeito especificamente à deficiência
vernácula, é raro encontrarmos no Brasil um autor que não cometa as suas
impropriedades, e aqueles que não as cometem, no geral, apenas escrevem
corretamente, o que em termos estéticos é insuficiente.
Claro está que a criação artística não se limita a tal
domínio, que não é a destreza gramatical que faz de alguém um bom poeta
ou romancista. Seria como imaginar que o estudo de anatomia e a
habilidade ante uma paleta de cores fosse o suficiente para que alguém
se tornasse uma excelência na pintura. Em grande parte, o que há de
sagaz no estratagema da diluição é que ela se apresenta como uma arte
com pleno domínio do aparato técnico. O avanço tecnológico a que
chegamos permite o traço dessa tênue linha que separa dois mundos.
Com bons músicos, arranjadores, estúdios de gravação,
produtores, mídia etc., como separar o joio do trigo no estágio atual em
que se encontra a canção popular no Brasil? Acrescente-se a isto o
empenho institucional – em parte motivado por um complexo de culpa
gerado pela extinção da Embrafilme no governo de Fernando Collor de
Mello – em promover indiscriminadamente o cinema brasileiro, e a
dificuldade será a mesma. Literatura, artes plásticas, teatro, não
enfrentam circunstâncias distintas, igualam-se no que diz respeito a
princípios e destinos.
É um sinal dos tempos? Não pode haver argumento mais débil,
posto que tudo é sinal dos tempos. A arte, ao contrário, sempre foi um
sinal de resistência ao tempo. Como recentemente escreveu a um dos
editores da Agulha o poeta e artista português Cruzeiro Seixas, “tenho
para mim que a verdadeira obra de arte é aquela que não pode ser
reconhecida pela sociedade que a gerou”. É curioso observar como o
mercado tem reconhecido obras de arte antes mesmo que elas tenham sido
criadas. Sinal de menos? Sinal da condição atemporal da arte? Sinal de
exclamação ou sinal de interrogação?
***

Na noite de 10 de abril de 2008, o
SESC SP foi palco da cerimônia de entrega do Prêmio ABCA 2007, evento
que a Associação Brasileira de Críticos de Arte vem realizando há 30
anos. A Agulha foi agraciada com o Prêmio Antonio Bento, como
melhor veículo de difusão da cultura e das artes no ano de 2007.
Parabéns a todos nós: editores, colaboradores, leitores.
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