revista de cultura # 63
fortaleza, são paulo - ma
io/junho de 2008






 

O espetáculo do capitalismo, a utopia do orgasmo e o teatro da vida

José Carlos A. Brito

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José Carlos A. BritoI / Introdução: Paris, maio-68, a utopia em ação

Para introduzir ao tema, escolhemos lembrar aquele acontecimento considerado o mais importante do século 20, relativo a um espetáculo montado no cenário mundial, como se fosse a representação viva de uma tragédia (ao estilo dramático do teatro da antiga Grécia). Trata-se de uma revolta contra a burguesia, divulgada pelos meios de comunicação de massa (jornais, TVs, etc.) para os espectadores do mundo: a revolta dos estudantes, em maio de 1968, acontecida em Paris e que fez da sociedade, a partir daquela data, nunca mais ser a mesma.

Comemoramos, em 2008, os 40 anos dessa sublevação dos jovens na França, que reivindicavam direitos como a liberdade ao orgasmo e a emancipação feminina implícita nisso, além das lutas políticas do momento, como apoio à revolução cultural de Mao Tsé Tung na China, o fim do estalinismo ditatorial nos partidos comunistas, e o fim da invasão norte americana ao pequeno Vietnam, país do sudeste asiático.

Se, no aquecimento e ensaio dos atores, estes foram movidos pelas lutas políticas internacionais, na hora de apresentar o espetáculo começaram por expor seus próprios objetivos, contra o autoritarismo geral da sociedade, abalando as estruturas de poder das elites. No cenário, as lutas se dividiam conforme a filosofia dos grupos, mas no cerne da revolta todos coincidiam em pontos comuns como a sublevação contra o capitalismo, contra a sociedade de consumo e os meios culturais que submetem o senso comum às tiranias do poder.

 

O direito a visitar o dormitório das moças

A comuna de 68, em Paris, teve características de internacionalismo porque contou com jovens de várias nacionalidades, muitas raças e credos políticos. Significou uma atitude concreta contra todo tipo de opressão, porém o mais interessante é ter começado por um ingênuo grupo de estudantes libertários que na universidade de Nanterre (subúrbio de Paris), protestou contra a proibição dos jovens de sexo masculino não poderem mais entrar no dormitório das moças. Com estas e outras absurdas proibições a rebelião se estendeu para a Sorbonne e demais escolas superiores e secundárias, sempre com a intervenção da polícia. Daí foi um passo para o movimento de rua, com formação de barricadas pelas vias públicas, afastando as forças policiais, inclusive a polícia de trânsito. A cidade foi liberada das tensões do cotidiano por jovens engajados que impuseram nova ordem; primeiro no bairro latino, depois na cidade paralisada e a seguir na França inteira, com dez milhões de trabalhadores parados em greve geral de solidariedade aos estudantes.

 

Das batalhas de rua à “fuga” do presidente.

Vejamos o que diz Marcelo Xavier no jornal Rabisco: “A batalha começa. De um lado, rapazes e moças jogam nos policiais paralelepípedos arrancados das ruas. Estes respondem com granadas de gás lacrimogêneo. A vanguarda dos estudantes é formada por rapagões, a cabeça protegida por capacetes de moto. As moças repõem a munição, com paralelepípedos e pedras. Duas horas de batalha com 350 policiais feridos. Os estudantes se aperfeiçoam: protegem os olhos com óculos de mergulhadores e bicarbonato de sódio, como antídoto contra gás. Rádios portáteis transmitem-lhes ordens da liderança. É o prenuncio das barricadas que deixaram Paris em chamas nas noites de 10 e 24 de maio”.

O jornalista brasileiro Flavio Alcaraz Gomes, que acidentalmente estava em Paris como correspondente de um jornal brasileiro nos diz: “Acabei de despachar pelo teletipo meu serviço para o Correio do Povo e volto ao Boulevard St. Michel, foco da rebelião. Uma multidão de jovens está entrincheirada em pelo menos 20 barricadas, de onde grita insultos contra o governo. ‘De Gaulle assassino’ é a frase repetida em uníssono. A policia se decide: é preciso ‘limpar’ o quartier antes de o dia nascer. 2h50min. A policia ataca. Parece uma carga de infantes medievais. A primeira barricada, na metade da avenida, cai com pouca resistência. As próximas ao Jardim de Luxemburgo, porém, parecem inexpugnáveis. Quando as tropas se aproximam, são recebidas com uma saraivada de pedras e por dezenas de automóveis incendiados, jogados lomba a baixo. Gente chora, devido ao gás e às pancadas. Sirenes rasgam a noite. Fogueiras por toda a parte. Moços e moças bradam desesperados por socorro – e a guerra prossegue até às 6h da primeira manhã em que Paris esteve em chamas.” [1] [2]

Do World Socialist: “Na noite de 14 de maio, trabalhadores da fábrica Aviation Sud começaram uma greve de ocupação. Estudantes fizeram piquetes demonstrando solidariedade. Em 16 de maio os trabalhadores da Renault começaram a ocupar a fábrica, trancando a gerência em seus escritórios. Trabalhadores na Paris Press organizaram uma greve independente. O movimento espontâneo de greve se espalhou por mais fábricas, primeiramente em Paris, e então num movimento crescente para outras cidades. Uma declaração dos estudantes que ocupavam a Sorbonne dizia: ‘camaradas, a fábrica Aviation Sud, em Nantes, está ocupada há dois dias pelos estudantes e trabalhadores da cidade. Hoje o movimento se espalhou por várias fábricas (NMPP Paris, Renault-Cleon, etc.). Portanto, o comitê de ocupação da Sorbonne chama para a ocupação imediata de todas as fábricas e pela instituição de conselhos operários. Camaradas, reproduzam e disseminem essa declaração o mais rápido possível!’ … Apesar da resistência do PCF, as ocupações de fábrica se espalharam rapidamente. Até 16 de maio cerca de 50 fábricas haviam sido ocupadas. Em 17 de maio, 200 000 trabalhadores entraram em greve, e nos dias que se seguiram, o movimento se expandiu com a primeira greve geral na história da França, na qual 11 milhões de trabalhadores se envolveram e que durou por mais de 2 semanas.”

Pepe Arrastia, espanhol, que na época tinha 20 anos e hoje é um professor aposentado que mora na ilha de Ibiza-Espanha, casado com sua companheira Chris, foi naquele momento um dos importantes combatentes-símbolo de rua, que liderou a despavimentação dos boulevards e ruelas para usar os paralelepípidos como armas e na construção das barricadas. Me enviou um e-mail que reconstrói a cena, que pode ser lido no original em nota ao final deste artigo. [3]

 

Mayte BayonClima de flores e amor

No dia 28 de maio, a França foi completamente tomada pelos operários (em greve geral) que foram paulatinamente parando e ocupando as fabricas contra as ordens dos sindicatos oficiais e do Partido Comunista Francês, criando um estado de duplo poder. O presidente De Gaulle desapareceu do país. Na verdade foi juntar-se às tropas francesas da base de Baden-Baden na Alemanha, para de lá montar uma contra ofensiva. Voltou com a promessa do exército francês, de intervir, caso necessário. Dissolveu a Assembléia Nacional e convocou novas eleições para 30 de junho de 68. Enquanto isso Paris viveu um clima de nova sociedade.  

Os edifícios universitários, escolas e prédios públicos do entorno, viraram assembléias permanentes e centros de visitação pública, mas nas tardes e noites as bombas e barricadas voltavam, para renovar as energias do espetáculo, nas zonas limítrofes. Os jovens barricadistas, que atiravam pedras do calçamento, dormiam ao raiar do sol, quando os policiais se renovavam nos plantões. Durante o período de mais calma em que o governo e o exército articulavam o plano de trégua em negociações com os sindicatos, passou-se a viver um clima de flores (só repetido mais tarde na revolução dos cravos em Portugal), aquele clima festivo de solidariedades e afetos entre casais e amigos, em que todos são companheiros.

Ao final, a cúpula dos sindicatos oficiais e a direção do PCF, negociaram um encerramento, mas foi preciso que sindicatos e governo montassem seu “teatro” com aparência de “dignidade proletária” para justificar o fecho do movimento com uma “vitória” sindical. Para isso foi articulada uma lista de “reivindicações” a serem atendidas, como quem diz: as crianças brincaram com exagero, mas os adultos “ajuizados” se acertaram.

 

Os objetivos da revolta

Como explicar a revolta? Ela estava em gestação e tomara corpo a partir dos comitês de luta contra a guerra no Vietnam, na qual os EE.UU., com toda a sua potência militar, acabaram sendo mais tarde derrotados e expulsos do pequeno país asiático invadido. Este feito deveu-se a heróicos guerrilheiros de sandálias, alimentados com um punhado de arroz integral por dia, os famosos Vietcongs, soldados da Frente Nacional de Libertação. Para os estudantes de Paris, a audácia do povo vietnamita serviu de máximo exemplo, provocando a imaginação e ousadia com a qual foi possível paralisar o país inteiro e fazer a Europa e o mundo, perplexos, assistir ao mais atrevido espetáculo revolucionário do século. O exemplo estendeu-se à Alemanha, Praga, Cidade do México, Brasil (a passeata dos 100 mil, contra a ditadura), Itália, Bélgica, Holanda, Suíça, Dinamarca, Espanha, Reino Unido, Polônia, Argentina, Chile, entre outros. É importante assinalar, que nos EE.UU. o movimento de desertores e a opinião pública contra a guerra do Vietnam cresceram em qualidade, movidos por esse surpreendente deslanchar espontâneo de revoltas contra o autoritarismo geral da época.

 

Afinal, o que se queria?

Mas, o que reivindicavam os estudantes e jovens revoltados que instauraram o imaginativo sistema de autogestão? Não pediam nada de concreto e imediato que pudesse assemelhar-se a uma reivindicação sindicalista, apenas protestavam contra o capitalismo, sobretudo contra a repressão ao amor livre, que esse sistema exercia ao impor a ditadura da sociedade de consumo. Portanto, a comuna de revoltados, instaurada na capital francesa, que ganhou as ruas e a simpatia da população, em maio de 68, não poderia obter vitórias palpáveis, porque em seus objetivos nada exigia para sua categoria a não ser o fim da injustiça e do domínio do poder econômico sobre os meios de comunicação, a liberdade de amar, a liberdade política e a crítica ao espetáculo do engano, promovido pelo poder comunicativo da burguesia.

Criticou-se a venda de produtos inúteis, forçada pelo capitalismo e que hoje, 40 anos mais tarde, se comprovaria como causa da maior destruição da natureza e do planeta. Dessa forma, a comuna de maio-68 anteciparia visionariamente as lutas ecologistas do século 21 e as novas propostas de organização social. Os revolucionários de Paris falavam do direito ao orgasmo, do direito à utopia, enfim exigiam uma sociedade igualitária e livre, tudo sintetizado na palavra de ordem pintada nos muros: É proibido proibir; O poder está nas ruas; A imaginação no poder; Seja realista, peça o impossível, entre outros.

A estratégia estava correta, ao não se colocarem reivindicações imediatas, fáceis de atender pelas autoridades - porque se assim fosse a idéia-mensagem seria facilmente extinta - os rebeldes queriam apenas passar o germe do amor e solidariedade às gerações futuras, dizendo: O orgasmo é o símbolo daquilo que se proíbe, e passa a ser o símbolo da utopia, aquilo que se deseja, sendo esta o símbolo da solidariedade, aquilo que deve ser vivido. Os personagens vivos desta revolta quiseram, apenas, representar um espetáculo, assistido pelos expectadores do planeta, o grande espetáculo da revolução libertária, mensagem que posteriormente pudesse não somente ser repetida pela sociedade, como por cada pessoa individualmente. Pois, para amar, duas pessoas são suficientes, no início, e mesmo uma só que irradie amor, poderá incendiar o mundo todo, dependendo do momento em que a humanidade sedenta entender a mensagem.

 

II / A utopia e o orgasmo

A utopia (a sociedade imaginária da igualdade e da felicidade), é o estado mais próximo ao orgasmo e, em definição simples, significa uma integração de espírito, alma e corpo entre duas pessoas que se alimentam uma à outra, nesse clima de consumo e produção do prazer. Pelo fato de estar associado sexualmente ao instinto biológico da reprodução da espécie, o orgasmo é símbolo vivo que atua na criação em todos os sentidos. Tendo sido reprimido milenarmente (veja-se a experiência tântrica, na Índia de 5.000 anos atrás), significa que a luta pelo poder é intrínseca a ter ou não o domínio e monopólio sobre o orgasmo. Da mesma forma, o controle sobre o próprio corpo e as formas de usufruir dele, determina a liberdade social do ser humano.

Esse prazer especial, que possui muitas derivações simbólicas, é conhecido no corpo pela ação de um momento instantâneo, pois, ao mesmo tempo em que acontece passa, e os sentidos (dos amantes) não conseguem apoderar-se da sensação de gozo de forma prolongada. E mesmo que depois se intente reproduzi-lo de muitas formas representadas será sempre representação artística e não o momento do acontecer. A consciência e o inconsciente aflorado são demasiado lentos para adquirir as sensações de orgasmos no intuito de transformá-las em linguagem apropriada e permanente, do corpo e do ser.

O estado de orgasmo funciona como um relâmpago em que cada elemento dos corpos é autônomo em sua reação de prazer, e a consciência, via pensamento, jamais consegue atrair esses estados orgásticos para incorporá-los à personalidade como situações permanentes do físico. Por exemplo: no estado orgástico (de troca plena) os olhos brilham e transmitem energia, sem controle dos outros sentidos, e, portanto, sua intensidade energética jamais será captada pelo sistema que deveria incorporar essa rara plenitude ao cotidiano de 24 horas dos seres humanos. O mesmo acontece com os sorrisos involuntários, cuja luminosidade não poderá ser repetida em situações ordinárias de funcionamento do organismo. O mesmo poderíamos dizer da pele, das palavras, sons, carícias, que transmitem algo semelhante a vibrações, só sentidas no instante.

Os ritmos cardíacos, por exemplo, correspondem a uma bonança salutar - mesmo fugaz - que mantém os órgãos em clima de captação máxima das sensações autônomas circulantes entre uma pessoa e outra; porém, o coração dá a impressão de regular as intensidades para não transbordarem e perderem-se no abismo, algo que obriga os sentidos à repetição da volta, estabelecendo o circuito vital dessa utopia. Tudo acontece em instantes que aparentam fração de segundos (uma espécie de big-bang – a explosão inicial que deu origem ao universo - da qual fica apenas a radiação de fundo). No final a utopia acaba no preciso momento em que o corpo se prepararia para incorporá-la ao sistema de pensamento e de sentidos racionais. É como se todas as partes do organismo saíssem de férias, por conta própria, sem prestar contas ao controlador da vida orgânica, mas voltam imediatamente, por não saberem viver nesse “paraíso”.

Mayte BayonA partir disso, o pensamento passa a ser a mais cabal tentativa de planejar os desejos em direção à utopia, por exemplo, utilizando-se da arte e de tantas outras estratégias para obtê-la. E o teatro talvez seja a forma mais antiga de representar esse complexo de vontades libidinais que, em última instância, é o espetáculo da vida, revivido pelas guerras, pelas traições, pelas conquistas, e pela reflexão que o transforma em arte e literatura. Portanto, a luta utópica pode ter três derivações: a) momento do fato: o espetáculo do viver e acontecer; b) representação do fato: o espetáculo do lembrar e desejar; c) substituição do fato: o espetáculo do enganar para dominar.

 

O espetáculo do acontecer

Aparentemente, após a passagem momentânea do gozo, nada fica, a não ser a lembrança vaga do estado de prazer, que se assemelha à recordação da utopia do paraíso (perdido?) e da perfeição não realizável. A partir dos finais dessa apresentação real da utopia, cria-se um estado de vontade permanente de voltar a encontrar o tal clímax que, na visão cósmica do eterno retorno (Miceas Eliade), corresponderia aos atos permanentes que antecedem a todos os tipos de criação do mundo e do universo, a partir do seu incomensurável início, isto é, as explosões, a formação dos astros, e o movimento da química sincronizada dos elementos cósmicos. E depois, as representações míticas desse início nos atos religiosos primitivos, nas orgias, nas festas, nas revoluções, e em todas as crenças pessoais que levem a revelações criativas.

Portanto, aqui, a utopia, como estado paradisíaco idealizado, é associada a uma situação real, na experiência de cada pessoa, mesmo que não seja preciso o individuo ter experimentado o orgasmo, para sentir sua existência, devido a que seu conhecimento está inscrito no inconsciente coletivo de cada um. É obvio que uma repetição tão escondida, misteriosa e desejada, passa inevitavelmente a determinar o comportamento psicológico pessoal e social nas aspirações vitais do ser humano, pois, os estados de orgasmo significam aparecimento físico palpável de um prazer fora do comum e, o que é mais surpreendente, possível de ser conhecido por qualquer individuo comum.

 

O espetáculo do desejar

A ansiedade dos estados que antecedem ao orgasmo é o início da situação que prenuncia todo tipo de transformação e criação nova. Corresponde a um clima psicológico de predisposição á mudança e aos atos ansiosos em busca da mesma. Se em um momento do universo isso aconteceu, pela mobilização de elementos químicos, as mesmas partículas, como componentes dos corpos humanos, reagem quase independentes (e rebeldes) à estrutura que as mantém unidas, na aparência estética de seu conjunto articulado (a forma física humana), para irem, quase libertas, ao momento orgástico da transformação, que é o estado vivenciado no ser humano pelo conceito de utopia e simbolizado pelas tão familiares explosões: auto-explosão dos corpos em atentados, explosão dos fogos de artifício, explosão das bombas na guerra, além das explosivas estrelas e como analogia a explosão dos sentimentos.

Assim, o orgasmo, por ser tão presente na psicologia humana - mesmo que ninguém fale nele - trata-se de um mito real que determina, tanto os comportamentos pessoais, como direciona os rumos da sociedade nas representações do desejo. E o termo representação, tem aqui o sentido do espetáculo, isto é, as diversas representações do teatro da vida.

A partir da impossibilidade da utopia orgástica, como modus vivendi, nascem as reações do pensamento, da consciência, ou do inconsciente imaginário, para um trabalho permanente em conseguir os estados de utopia, que significam a luta do ser humano pelo amor, e a luta social de grupos pelas situações de solidariedades, com um correspondente articulado de relações físicas, que na forma social de grupos, comunidades, seitas, repetem as aspirações da relação amorosa a dois, no rumo utópico, isto é, prazer orgástico, ou estado da vontade libidinal, em direção à próxima etapa de transformação e equilíbrio. E assim, sucessivamente.

No entanto, durante o tempo de preparação, o pensamento e a consciência, se não podem provocar a permanência indeterminada da situação orgástica (correspondente ao prazer descontrolado e instantâneo) trabalham na situação de representar, lembrar, teorizar e sonhar essas situações de prazer máximo, pouco conhecidas estruturalmente no emocional. Situações símbolo do desejo utópico. E para isso usam todas as metáforas que possamos imaginar.

Na cultura moderna esse trabalho da consciência, sobretudo da consciência crítica, representa e dramatiza as inúmeras contradições que poderiam levar à utopia; são representações chamadas de escrita ficcional, poesia, dramaturgia, (todo tipo de literatura), teatro, cinema, música, pintura, escultura, etc. E para aqueles que querem ir direto ao assunto – ou não tem paciência de curtir os prazeres intermediários da arte – podem simplesmente vivenciar a situação da busca utópica, vivendo casos amorosos - a tentativa dos amantes comuns - como forma de representar o prolongamento da situação orgástica., através de impulso interno, irresistível e espontâneo que movimenta alma em direção à paixão.

Portanto, a humanidade é mobilizada por um mito paradisíaco a ser alcançado; aquele sentimento experimentado de relance, na forma de um raio eventual no próprio corpo ou na repetição arquetípica do inconsciente coletivo através das sedimentações orgásticas (energia difusa) guardadas na memória genética da humanidade e retransmitidas ao nosso ser, através dos movimentos da alma psicológica interior. Esses arquétipos, como forças genéricas, permanecem na psique e são despertados pelos objetos-imagens e desejos concretos (captam a energia para transformá-la em ação – como é o caso da revolta ou da arte). A energia difusa dessa espécie de instinto de fundo, direcionado ao amor é como chama viva guardada no inconsciente, determinando comportamentos, aspirações e personalidade. E a partir da sensibilidade específica há pessoas que tem esse instinto mais a flor da pele.

No ápice desse espetáculo do desejo, encontram-se as revoluções sociais, que para o ser humano representam muito mais do que a mudança imediata anunciada, mas sim o prazer da explosão orgástica inicial, sediada no instinto animal e que na humanidade se estende por um processo histórico transformativo de médio e longo prazo.  

Cada revolução social é uma inevitável explosão de novas forças, que se insurgem contra o regime antigo, corrupto e tirânico. O sentido revolucionário baseia-se na solidariedade dos oprimidos; há revoltas que vencem de imediato, mas quase sempre serão o germe de uma mudança ao longo do tempo. Pois, na cultura das novas forças, quando vitoriosas, ainda predominam formas comportamentais e valores do sistema anterior, pressionando a sociedade a retrocessos. Esse aspecto, quase inevitável, leva a erros de repetição sempre que um novo conjunto de relações sociais tenta substituir o anterior. Mas a semente do novo, uma vez plantada, germinará sem volta; o fruto consolida-se nas gerações seguintes, mesmo sem o entusiasmo do momento explosivo, por ser uma sensação insubstituível, transmitida pelo mito da insurreição revolucionária. Esse momento especial que se confunde com a orgia.

 

Mayte BayonO espetáculo da substituição

O gozo significa uma mudança que não se concretiza exatamente naquele momento preciso, porque os organismos formados fisicamente e relacionados socialmente não conseguem incorporar a essas relações sociais e a essas reações físicas o estado continuado da utopia, uma força energética tão intensa, que corresponderia a um mundo (paraíso) socialmente em estado de orgasmo permanente e que não caberia na estrutura do ser, como é conhecida hoje. As repetições da orgia revolucionária, podem renovar-se no imaginário do dia a dia, substituídas por auto-realizações, ou as mais diversas aspirações utópicas, como pode ser uma militância revolucionária, social, ecológica, etc. ou a relação mística em grupos de convivência, lidando com temas alternativos como arte, literatura, ou pesquisas que incidam na compreensão do mundo, da natureza, da psicologia, etc. Tudo isso na busca autônoma dos movimentos da alma.

Mesmo sem poder imaginar a possibilidade real de um estado semelhante, o ser vive a vontade secreta de obtê-lo, e quando não o consegue, em seu lugar fica um vazio, no qual a ideologia de consumo capitalista penetra e usa as mercadorias ou desejos de poder político (familiar, grupal, empresarial ou governamental), como compensação substitutiva a tal frustração. E todo ato rebelde em direção ao prazer será castigado, por contradizer o acúmulo de produção e consumo desse mercado, ou questionar o acúmulo político ditatorial do poder. Assim a poesia será relegada ao estado da inutilidade, substituída pela valorização do espetáculo televisivo, essencialmente mercantil, por induzir ao consumo do supérfluo e da vida artificial, subserviente à hierarquia. E as novelas de TV, por exemplo, tem esse poder de penetrar com imagens, da falsa utopia, domesticando a psique do senso comum das massas, para estabelecer o habito de aceitar o falso, de forma natural e inevitável. Significa uma preparação para comprar o produto supérfluo (e escravizar-se nisso), como única atitude válida em substituição ao inalcançável.

A guerra pelo poder econômico significa, em última instância, a atitude psicológica dos seres pela conquista do tempo livre, apoiando-se no trabalho “escravo” dos outros, para acumular dinheiro – igual a acúmulo de tempo disponível - e assim conseguir, melhor que os outros, a absorção do prazer. No entanto, como já afirmamos, a essência do capitalismo, via sociedade de consumo, tem sua cultura ideológica fundamentada na perda de consciência da utopia e incute aos consumidores, em seu lugar, a busca permanente de objetos de consumo, escravizando os seres humanos a essa compra obsessiva do produto de ostentação. É como aspirar a ter um automóvel novo para conquistar um amor, e na impossibilidade do amor o consumidor acostuma-se a aspirar sempre ao carro do ano, ou na falta de dinheiro, outro bem inútil que possa substituí-lo. E cada objeto inútil termina onde começa o próximo, deixando frustração a ser preenchida por outro consumo. E todos parecem buscar o tempo livre, para atender aos apelos de um amor de fundo que clama por satisfação.

Mas, nesse caso, nunca haverá tempo livre disponível porque o mercado vive da entrada de novos seres conquistadores (fatores de poder) que estabelecem a engrenagem da procura incessante para a excessiva circulação de mercadorias sem remédio, através do grupo capitalista que direciona a tirania do consumo. Estes processos repetitivos geram a sociedade neurótica, na qual a psique reclama inutilmente pela falta de autenticidade.

 

O capitalismo está no fim?

Provavelmente sim, porque se não houver uma vontade libidinal que o interrompa, ele levará a sociedade ao caos irreversível, e nesse momento a Terra, ao dissolver-se junto com os elementos químicos articulados e moldados em seres humanos, animais, plantas, etc., dissolverá essa articulação chamada sociedade e natureza, formando nova utopia além da consciência humana, que libertará as partículas químicas em novas articulações cósmicas desses elementos.

Na luta social e humana pela utopia, tomada como estado orgástico instantâneo que memoriza em nós a permanente sensação do amor possível, existem três categorias sociais de posicionamento frente à luta contra o capitalismo: a) A categoria dos seres revolucionários, que lutam para interromper bruscamente o processo de caos capitalista e que vivem a libido pessoal de representar o prazer sendo revolucionários; b) A segunda opção seria dos seres que trabalham e se envolvem numa representação mais sofisticada da utopia, ao reproduzir dramaticamente as contradições que levam a ela; escrevem literatura, pensamentos, fazem teatro, arte, música ou são aficionados leitores que usam esses instrumentos para sonhar; estes vivem as imagens da utopia no imaginário, mesmo com ironia, ceticismo, fim da esperança e as metáforas literárias do caos, entre outros; c) Em terceiro lugar, entre os lutadores dos últimos combates do capitalismo, colocaria os que tentam representações da vida amorosa, como no caso os solidários, os amantes, os místicos, os apaixonados, etc.

É um fato real que o mundo, na sua existência, já passou momentos cruciais como este em que vivemos. Trata-se da ameaça da autodestruição, orquestrada pelo espetáculo do capitalismo, carregando a consciência do ser humano para o abismo. O pior é a reversão de valores na qual os seres são esvaziados dos sentimentos de autenticidade e amor, para adorar a destruição, transformada em objetos inúteis de uso. Mas, uma coisa é certa: a utopia está próxima, sempre que sonhemos com ela, e amar é uma forma de manter o capitalismo em cheque. Ao restar uma pessoa no mundo, que ame, estará garantida a passagem da memória genética para o próximo ato revolucionário, como processo evolutivo na direção da utopia orgástica. E enquanto não chega a utopia, esta pode ser lembrada no amor pessoal, na solidariedade ou mesmo praticando arte.

Mayte Bayon 

NOTAS

1. Neste combate, o líder espanhol Pepe Arrastia, perdeu a vista direita ao lado do autor deste artigo. O autor, por sua vez, foi atingido e ferido por um projétil especial das tropas de choque na perna, que o imobilizou durante um tempo. Pepe Arrastia, posteriormente combateu a ditadura franquista na Espanha, sofrendo prisão e perseguições como líder sindical e militante comunista de raízes libertárias, até a abertura democrática naquele país. Casado, vive hoje como professor aposentado na ilha de Ibiza, participou da ONG ATTAC-Madri e escreve artigos sobre conjuntura política. E-mail: pepearrastia@hotmail.com.

2. O autor deste artigo, após sua participação ativa no Maio-68, voltou ao Brasil para integrar-se à luta clandestina contra a ditadura militar; foi perseguido, sofrendo prisões políticas, e vários tipos de tortura pelos asseclas da ditadura. Por pressão foi obrigado a voltar para o segundo exílio e participou em parte da ”Revolução dos Cravos”, em Portugal, sendo por pouco tempo líder dos sindicatos livres na construção da refinaria de Sines (ao sul de Lisboa). Nesse país participou da fundação de cooperativas na LISNAVE ( à época em que esta grande empresa naval estava sob autogestão dos funcionariios). Retornou novamente ao Brasil, antes da abertura democrática, para participar da organização das greves em São Bernardo do Campo. Sobre isso escreveu o livro “A Tomada da Ford, nascimento de um Sindicato Livre” publicado pela Editora Vozes e esgotado. Fundou o Fundo de Greve dos Metalúrgicos de São Bernardo e foi membro de sua primeira diretoria, afastando-se por divergências com os sindicalistas do ABC. Fundou a Associação Comunitária de Autogestão, desenvolvendo projetos como Sacolão Comunitário, Restaurante Comunitário, Construção de Casas por Mutirão, trabalho com crianças de rua, etc. Posteriormente participou em vários projetos sociais na região metropolitana de São Paulo e interior (sobretudo Campinas). Foi por quatro anos membro bolsista da Fundação Ashoka (sede nos EE.UU. e núcleos em países do mundo). Hoje trabalha com a ONG CCECAS – Conselho Comunitário de Educação e Cultura, na região dos municípios do Alto Tietê (Grande São Paulo) e no litoral Sul do Estado - Itanhaém e Paruibe - em projetos de habitação popular. Em 1987, fundou o Partido Verde em São Paulo, um ano após Fernando Gabeira ter feito o mesmo no Rio de Janeiro. Do PV, continua membro filiado, mas sem militância. Também é poeta, com alguns livros; publica ensaios sobre literatura e crônicas; escreve teatro e algo de ficção.

3. Mensagem enviada desde Ibiza, por Pepe Arrastia em abril de 2008, dirigida ao autor do artigo:

La proximidad del 40 aniversario del mai68 me pone nostálgico. Sarkozy ha prometido acabar con todos los vestigios del mai68, eso me ha sorprendido, no creía yo que todavía perviviesen. Es gratificante saber del vil intento de Sarkozy. Aunque en el fondo se trate de atacar el inexistente “fantasma” del mai68… ¿quién sabe?...

Nadie podía prever el 1 de mayo del 68 que un par de semanas después Francia iba a conocer la mayor y más larga huelga general de su historia, y como “tout c’est posible” esperemos que ese fantasma vuelva a recorrer Europa -y el mundo- aterrorizando a las clases dominantes. “Sé realista, pide lo imposible” genial slogan sesentaochista. Aunque el que a mí más me gustaba era aquel de “Sous les pavés la plage” porque como tú muy bien recordarás ¡qué agradable era, tras el duro esfuerzo por arrancar los primeros pavés, encontrar la suave arena que ocultaban!

Fuimos los primeros en empezar a arrancar los pavés, golpeándolos con una pesada reja de hierro y cemento, en el Boulevard St Michel a la altura de la Rue Monsieur le Prince, rodeados de jóvenes moderados de la SFIO que nos increpaban y que en nuestra defensa acudieron camaradas de la JCR que formaron un cordón a nuestro alrededor para protegernos, hasta que les dijimos que en lugar de defendernos se pusieran también a arrancar pavés, cosa que hicieron y… fue maravilloso volver a aquel lugar varias horas después, ya anochecido, y contemplar la Place Edmond Rostand convertida en una playa de fina arena, en la que cientos de silenciosos y laboriosos jóvenes, en perfecto orden, haciendo cadena, iban pasando los pavés, como futura munición, hacia las barricadas que ya se habían levantado.

Sí, querido amigo, allí estábamos nosotros, después de haber repartido unas octavillas en las que dábamos información de cómo fabricar un cóctel Molotov e instrucciones de táctica guerrillera para liberar La Sorbona. Aquellos pusilánimes jóvenes socialistas cuando recibieron nuestras octavillas comenzaron a gritar “Provocation policière!!!” y por un momento temí que nos linchasen. Sin recibir órdenes ni consignas de ningún partido (yo actuaban al margen de AC) nos reunimos un pequeño grupo (¿recuerdas a alguno?) y tuvimos la osadía de asumir un papel vanguardista que hoy considero absolutamente acertado. Fue una gran suerte haber podido vivir esa extraordinaria experiencia en la que se conjugó armoniosamente la espontaneidad de las masas y el voluntarismo ejemplarizante de una minoría. Formábamos parte (sin saberlo) de una vanguardia natural surgida del movimiento espontáneo al que a su vez lo dinamizaba. Esos núcleos vanguardista se dieron en otros muchos lugares. En los centros de trabajo, creando los comités de ocupación y los comités de base, entre los soldados venidos de Alemania que rodeaban con sus tanques a Paris y que hicieron surgir “les Comités d’action des contingents de chars de combat”, entre la tripulación amotinada del portaviones Clemençeau (me viene a la memoria la sublevación liderada por André Martí (futuro fundador del PCF) de la armada francesa en el Mar Negro, enviada por el imperialismo galo para sofocar la revolución bolchevique), entre los que formaron el Comité Central de Grève de Nantes, que controló la ciudad durante varios día, estableciendo su sede en la Mairie (Alcaldía) y no dejando al Maire otra atribución que disponer de un ujier para traerle café. Entre los trabajadores de la militarizada fábrica de telecomunicación TSF, que la pusieron en funcionamiento bajo control obrero para producir WalkTalkies para ser usados por los manifestantes, los comités de acción y otras organizaciones surgidas en el movimiento, y entre los soldados del regimiento de telecomunicaciones encargado de desalojar dicha fábrica, que se negaron a hacerlo y confraternizaron con los obreros huelguistas. 

Desgraciadamente faltó la estructuración orgánica de esos núcleos de vanguardia, y en su lugar se intentó crearla artificiosamente y burocráticamente en aquel miting en el estadio Charlety, mediante componendas entre organizaciones tradicionales y personalidades de gauche… Suplir tal carencia sólo hubiese sido posible si el moviendo se hubiese prolongado más tiempo y las formas organizativas surgidas espontáneamente se hubiesen consolidado y adquirido un nivel de coordinación más elevado y si las formas de lucha también hubiesen dando un salto cualitativo (por ejemplo, respondiendo con las armas que se habían requisado en las comisarías asaltadas, a los disparos efectuados por la policía en varias ocasiones) o extendiendo el movimiento a los cuarteles e incluso en el seno de la propia policía cuyo malestar era notorio.

Como “ensayo general” de una revolución actual en un país del Primer Mundo, el Mai68 no estuvo nada mal.

José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras da artista Mayte Bayon (Espanha).

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