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revista de cultura # 63 |
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Ruy Belo: uma aldeia que não existe Henrique Manuel Bento Fialho
O homem da fotografia chama-se Ruy Belo, é poeta, nasceu naquela aldeia a 27 de Fevereiro de 1933. Dali partiu para Coimbra, onde cursou Direito, transferindo-se para Lisboa, seguidamente para Roma, voltando de novo para Lisboa. Aquele homem que um dia partiu da sua aldeia foi jovem, foi criança. É precisamente com esse ar jovial, quase infantil, que regressa agora à terra de onde partiu. Não sabemos em que data terá sido tirada aquela fotografia. É provável que, à época, Ruy Belo já tivesse publicado alguns dos seus livros. O primeiro, Aquele Grande Rio Eufrates, foi publicado em 1961. Já lá iremos. Por ora, é impossível olhar aquela fotografia sem pensar em algumas palavras proferidas pelo poeta numa das três entrevistas reunidas no terceiro volume da sua Obra Poética. Dizia então: Ao chegar a Lisboa, em Outubro de 1954, a primeira coisa que eu fiz foi ir ao Largo se S. Carlos, a aldeia onde nasceu Fernando Pessoa. Eu também nasci na aldeia, uma aldeia que não existe, como a dele. (…) A última vez que lá fui, depois de uma longa ausência, verifiquei que as próprias distâncias não correspondiam ao que eu pensava. Ficava tudo muito perto. A distância de “aquilo do Miguel”, a taberna, até á escola, a distância da escola à Igreja, a distância entre os plátanos. Nunca mais lá volto. Deve ter morrido muita gente. Não calcula como admiro a gente do campo. [1] Como disse, não sabemos quando terá sido tirada a fotografia. Antes ou depois de terem sido proferidas estas palavras? Que queria dizer Ruy Belo ao afirmar que nunca mais voltaria à sua aldeia, à aldeia onde nasceu? Concentremo-nos no problema das distâncias, é aí que reside a chave que talvez nos permita responder a estas dúvidas. Todos nós experimentamos esse problema das distâncias, não é preciso ser-se poeta para crescer. Basta ser-se homem e viver. À medida que crescemos, sentimos que o espaço encolhe à nossa volta. Ele é o mesmo, embora a percepção que temos desse espaço se vá alterando. Regressamos aos lugares da infância como quem regressa a um espaço que já não existe, pois agora a percepção que desse espaço temos torna-o completamente diferente daquilo que foi. A aldeia onde Ruy Belo nasceu ainda existe. Quem por lá passe, pode inclusivamente verificar que as paredes da casa onde nasceu este Homem de Palavra[s] mantêm-se erguidas. Não obstante, avançar na vida, seguir o curso do tempo, implica, sem dúvida, um distanciamento, um redimensionamento dos espaços que transportamos na memória, a ponto de, por vezes, esses espaços encolherem tanto que desaparecem. A aldeia onde Ruy Belo nasceu desapareceu por uma única razão, essa razão tem um nome: tempo. O tempo devorou a aldeia da infância. Ainda que a memória a conserve, conserva-a apenas nesse lugar remoto e inabitável das recordações. Fisicamente, a experiência da aldeia terá agora de ser outra. A aldeia já não existe porque a infância passou, perdeu-se, não se reconquista, o tempo devorou-a, a criança fez-se homem, o espaço encolheu de tal modo que é já outro espaço, um espaço novo, diferente, dissemelhante do espaço primitivo. Que Ruy Belo ali tenha regressado, com aquele ar jovial e quase infantil que observamos na fotografia, apenas consubstancia um paradoxo, talvez o paradoxo mais marcante de toda a sua obra: a poesia como busca do irrecuperável, uma outra forma de suicídio, a antecipação de “um regresso definitivo à terra”, uma espécie de recuperação, pela memória, do que está definitivamente perdido. Tão claro isso se torna no seu Breve Programa Para Uma Iniciação Ao Canto: Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me. (…) Ao escrever, mato-me e mato. [2] O paradoxo aparente do homem regressado à aldeia que não existe, do poeta escrevendo a infância perdida, é uma das marcas mais distintas na Obra Poética de Ruy Belo. Digo aparente por ser este paradoxo uma constante com variadíssimos afluentes. O poeta e ensaísta Manuel Gusmão sintetizou-os com perspicácia: a alternância entre o poema curto e o poema longo, a prática de “uma grande diversidade de entoações, tonalidades, ritmos e formas”, a ironia e, mais raramente, o sarcasmo contrastando com o tom geralmente elegíaco e narrativo, as questões metafísicas interpondo-se no caminho das questões existenciais. Em suma: “A sua poesia é por vezes intensamente dolorida, quase desesperada, mas é também temperada pela auto-ironia, e essas várias modalidades fazem sobressair um modo da alegria que pode ser a vibração de um acordo profundo com a terra ou apenas uma réstia de luz, um pequeno fulgor restante”. [3] Mas não percamos de vista a aldeia que não existe, essa aldeia que é agora uma mera construção da memória, essa aldeia que resiste, como um vestígio vago, nas recordações da infância perdida. Sintomático que a sua primeira obra tenha pedido o título emprestado ao livro do Apocalipse: “O sexto anjo derramou a sua taça sobre o grande rio Eufrates. O rio ficou seco, preparando-se assim o caminho para os reis do Oriente” (Ap 16, 12). Que livro primeiro é este que vai pedir o título emprestado a um livro final? Sexto foi o anjo que derramou a sua taça sobre o grande rio Eufrates, assim como seis são as partes da primeira colectânea de Ruy Belo: Apresentação, Dedicatória, Tempo, Relação, A Cidade e Narração. A colagem ao tema bíblico não pode iludir o facto de Ruy Belo ter-se doutorado em Direito Canónico, embora mais curioso seja o facto do seu primeiro livro aparecer publicado no mesmo ano em que o poeta abandonou a Opus Dei, instituição católica da qual fez parte. Sem pretender especular acerca dos reflexos da vida pessoal na Obra Poética, julgo ser da maior importância termos este dado em conta, mais ainda quando reparamos que os poemas de Aquele Grande Rio Eufrates estão, na sua larga maioria, marcados pela perda, pelo abandono, pela distanciação.
Longe
vai o tempo em que tu homem sem amanhã Paula Morão adverte-nos sabiamente para o risco de uma leitura da poesia de Ruy Belo enquanto poesia religiosa: “tenha-se em conta, isso sim, a integração da matriz bíblica e dos padres da Igreja que também fazem parte do magma do seu imaginário”. [5] De religiosa, a poesia de Ruy Belo tem apenas aquela réstia de fé que socorre os homens no exercício da palavra. Aí, não há volta a dar-lhe. Todo o poema é um acto de fé, mesmo quando recusa essa fé, mesmo quando a nega, pois todo o poema é um depósito, uma entrega aos domínios da linguagem, às suas construções. Daí que escrever seja um acto destrutivo, uma violentação do ser, pois escrever é um despojamento, uma entrega do ser à palavra, uma confissão que apenas a espaços tem que ver com “confessionalismo”. Ruy Belo, Homem de Palavra[s], soube-o desde muito cedo. O catolicismo terá sido uma marca cultural, uma marca que se foi esvanecendo, entretanto renegada, assim como mais tarde Deus acabou reduzido a uma mera palavra, uma palavra que nos permite dar o nome de divinas a certas coisas da terra. A recusa de um Deus causador de sofrimento, tão presente no supracitado livro do Apocalipse, aparece em Aquele Grande Rio Eufrates no tal magma do imaginário beliano de que fala Paula Morão. E nesse imaginário perdura a figura da aldeia que não existe, a infância repetidamente evocada em poemas como Homem Perto do Chão, Atropelamento Mortal, Condição da Terra, As Velas da Memória, Vita Mutatur, Intervalo de Vida, entre tantos outros. Com a infância, evocam-se a casa dos pais,
Já todos
nós esquecemos a casa dos pais a mãe,
Ó meu
amor nem minha mãe os dias da juventude, os camponeses, o pai,
Amanhã
serei outro: os caminhos da infância, para então concluir:
Eu fui
um dia um nome escrito numa pedra Permitam-me, porém, que chame a vossa atenção para um poema extraordinário, um poema tão breve quão decisivo, ao qual apetece regressar como alguém que regressa a uma aldeia que não existe: SEGUNDA INFÂNCIA
À tua
palavra me acolho lá onde Tentemos acompanhar o poeta na sua viagem interior. Apanhemos a barca do tempo, a memória, e entreguemo-nos às águas do rio, deixemo-nos levar por elas aonde elas nos queriam levar. Já não é apenas nos textos bíblicos que penso. Penso antes na imagem heraclitiana do rio. Dizia o filósofo: “Para os que entrarem nos mesmos rios, outras e outras são águas que por eles correm… Dispersam-se e… reúnem-se… juntas vêm e para longe flúem… aproximam-se e afastam-se”. [10] Com Heraclito, Ruy Belo está plenamente consciente da fluidez do tempo. A consciência da transformação, desde logo do próprio corpo, é a consciência do tempo que passa, da irrecuperabilidade do passado, neste caso da infância. Não há como deter essa transformação, ela é parte integrante da própria história dos homens e do mundo. No entanto, a Segunda Infância afirma um regresso, um renascimento, a possibilidade de novamente recém-nascido regressar ao regaço da infância. Talvez esta segunda infância configure apenas a metáfora de um desejo, de uma ambição incobrável, pois o tempo da infância, a aldeia que resgatou a primitividade do olhar, já não existe. O poeta está plenamente consciente da falência desse regresso, as origens ficaram num lugar para sempre perdido. “Esta questão é retomada em O Problema da Habitação, adquirindo mesmo uma maior ressonância. Aí deparamos não só com a inviabilidade da infância, como com a inviabilidade da sua evocação”. [11] No seu segundo livro, a impossibilidade do regresso à infância aparece melancolicamente contornada na figura do estrangeiro:
Como
saber de mim? Eu – que diabo! – Como saber de mim? A questão é ontológica e existencial. O poeta é um estrangeiro na cidade, um exilado do campo, é uma infância a caminho da morte, um rio imparável, um desterrado. O poeta é alguém que procura um lugar, um lugar habitável, uma casa, e o seu problema é, precisamente, desconhecer o seu lugar, a sua habitação. Qual o lugar do poeta? Qual o lugar do homem no poeta? O poeta é uma infância desterrada na solidão dos dias:
Inútil
ir pedir conselho ao rio
Não direi que Boca Bilingue e Homem de Palavra[s], publicados respectivamente em 1966 e 1970, encerram um primeiro ciclo na Obra Poética de Ruy Belo. Eles apenas dão continuidade a essa obra, uma obra erigida, como tem sido assinalado pela crítica, sob o signo da circularidade. O problema da habitação ainda não foi resolvido, talvez apenas a morte o resolva. É um problema do homem e do poeta, daquilo que torna indissociáveis as dimensões do Ser. Note-se como ambos os títulos denotam uma certa duplicidade, duplicidade essa que acaba confluindo na unidade do ser boca e do ser homem. Duas extraordinárias sequências na colectânea de 1966 sublinham esse facto. Refiro-me aos poemas reunidos sob o título Portugal Sacro-Profano e às Variações sobre “O jogador do pião”. No primeiro caso, joga-se a condição do homem dividido entre a sacralidade e o profano. Ruy Belo já havia abandonado a Opus Dei. Fê-lo, é de todos sabido, por aí se ter visto impedido de escrever poesia. Mais ainda nos conta o poeta quando, na introdução à segunda edição de Homem de Palavra[s], confessa não ter apenas abandonado aquela instituição, como também o catolicismo e a própria fé. O Portugal Sacro-Profano é a pátria de um homem voltado para as coisas da terra, entregando-se à aleatoriedade da vida, afirmando-se entre o múltiplo na sua continuada errância, é o país de um homem já não apenas concentrado nas suas íntimas questões, mas transbordando as margens do rio, ou do tempo, num terreno de palavras. O estrangeiro, o emigrante, o desterrado, encontra abrigo na palavra, habita-a enquanto a edifica, e é o edificar essa casa que lhe permite exercitar o regresso à origem. Este edifício de palavras permite-lhe voltar-se para trás, regressar ao ponto de partida, como quem joga a memória ao jeito de quem joga o pião:
Rasga o
espaço num gesto ríspido de vida Na excelente introdução à 5.ª edição de Homem de Palavra[s], Margarida Braga Neves inventaria as pegadas que Ruy Belo vai deixando nos seus poemas, colocando a tónica “na importância da palavra enquanto instrumento de salvação” e “na origem e na pertença à terra, o que faz com que a própria fala tenha por objecto as coisas terrenas”. [15] As coisas terrenas dividem-se entre uma paisagem rural e urbana, fragmentos memorialísticos e apontamentos quotidianos diversos, marcas autobiográficas onde pressentimos, explícita e implicitamente, aquele permanente regresso à aldeia desaparecida:
Nasci
numa aldeia perdida Observe-se o modo paradoxal como essas evocações do passado servem para apontar o futuro:
O
portugal futuro é um país E ainda:
Na
lágrima – pequena capital do pranto – O poeta explica: O peixe da infância é mesmo o sável. Vinha nas cheias do Rio Maior, quando os barcos navegavam entre as cepas. [19] Na enxurrada do tempo, entre as suas inflexões, vislumbramos uma continuidade na Obra do poeta. O tempo passa, com o passar do tempo a vida muda, tudo se transforma e perde, o olhar volta-se para a terra, cai do céu a chuva que o enubla, e ele olha as ondas do mar e pensa não ter outro destino senão o daquela transformação, ou olha a água que passa no rio e recorda Heraclito, melancolicamente sentado nas bermas do tempo, o poeta angustia-se a pensar o País Possível, um lugar para a sua errância, uma terra de alegria. Mas é n’A Margem da Alegria que sobrevivem os homens de palavra[s], porque eles sabem ser da Língua toda a sua existência, e ser da Língua quer dizer que se é de uma pátria sem reis, sem chefes de estado, sem ditadores, a pátria livre de quem não sabe nada, a pátria de quem ama, a pátria de um homem social fundindo-se com um sujeito poético: NÃO SEI NADA Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu – eu e os meus irmãos – sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura. Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora “pássaro” seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar – e de se ficar – pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei. Todos os ismos são perigosos, senão mesmo indesejáveis, quando falamos de poesia. No entanto, olho para o nada beliano e julgo-o distante da humildade socrática perante o saber. Nesse incrível e dramático poema longo intitulado A Margem da Alegria (1974), a vanidade da palavra do poeta é assumida de uma forma radical: “nem sequer eu sei se não sei nada”. Apesar das rugas sublinharem a degradação do corpo, apesar dessa degradação indiciar a morte como única resposta possível à condição de se estar vivo, o nada na poesia de Ruy Belo remete-me antes para um certo niilismo de tipo nietzscheniano. Também no filósofo alemão o problema da origem foi colocado desde o início, encontrando resolução no conceito de eterno Retorno. Esse Retorno, tal como sucede em Ruy Belo, não significa um regresso do Mesmo. Ele significa antes a afirmação de uma vontade selectiva que consiste num movimento de recuperação da alegria. Gilles Deleuze assim o interpreta: “Retornar é precisamente o ser do devir, o uno do múltiplo, a necessidade do acaso. Assim, é preciso evitar fazer do eterno Retorno um retorno do Mesmo. (…) O Mesmo não volta, é o voltar apenas que é o Mesmo daquilo que devém. (…) Só volta a afirmção, só volta aquilo que pode ser afirmado, só a alegria volta”. [20] Vejamos como se processa este movimento na Obra Poética do autor que ora nos ocupa. A primeira parte dessa Obra ficou concluída com os volumes Aquele Grande Rio Eufrates (1961), O Problema da Habitação (1962), Boca Bilingue (1966) e Homem de Palavra[s] (1970). Nesses quatro volumes assistimos a um deslocamento instaurado pelo abandono de Deus, pela tentativa de erigir uma casa no terreno da palavra. Essa casa, conexa aos dados da memória e do quotidiano, arriscou a sua fundação na linguagem, na prática da poesia, ainda que essa prática não só não resolva o problema da habitação como termine reafirmando-o. É a própria condição do poeta, do fazer-se poesia, que aqui fica colocada. Os poemas dos livros seguintes – Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977) – adensam essa paradoxalidade que contamina o coração do poeta, ou seja, relevam aquele esgotamento que advém da prática da escrita como um suicídio, uma destruição, a antecipação da morte. Poemas longos, circunstanciais, quotidianos, transportando-nos permanentemente para os planos do perdido, do esquecido, do desaparecido, de um nada que, ao mesmo tempo que faz voltar a alegria, nos coloca na margem dessa mesma alegria, pois sabemos ser esse um falso e impossível regresso. Há como que um balanço outonal nesta última fase da Obra Poética de Ruy Belo, um balanço onde são variadíssimas as referências a lugares concretos, a amigos, a influências literárias e artísticas, a situações políticas da época, locais e internacionais, à aldeia onde nasceu. No poema O Jogo do Chinquilho, por exemplo, a infância volta novamente a nascer, o passado volta a reflectir-se no presente, a consciência do tempo volta alguns anos atrás transportando-nos, com o poeta, ao café onde bebeu a meias com seu pai a primeira cerveja. Mas logo esse regresso se transforma numa confirmação do envelhecimento, “o jogo acabou / e pelo céu do tempo houve um homem que passou”.
Quero
uma aldeia umas pedras um rio No poema A Guerra Começou Há Trinta e Quatro Anos, são lembrados a mãe (“esperava que a minha mãe se acabasse de arranjar para irmos todos / ao som de guizos e do trote do cavalo à feira de rio maior”) e o pai (“Na feira de rio maior donde o meu pai lembro-me sempre voltava / com cadeiras de choupo e cebolas para todo o ano”) em relação com um momento festivo local; no tão longo quão comovente Nem Sequer Não recordam-se os rostos vizinhos da aldeia (o Marcolino bêbado, a domitília fina, o leovigildo seco, o amadeu, o mário pregador, etc) para, logo de seguida, virem à tona na Fala De Um Homem Afogado Ao Largo Da Senhora Da Guia No Dia 31 De Agosto De 1971 as dúvidas sobre o destino desses objectos da recordação da origem:
Quem lá
na minha aldeia sacrifica hoje E o remate transparece no poema Ao Regressar Episodicamente A Espanha Em Agosto De 1534 Garcilaso De La Veja Tem Conhecimento Da Morte De Dona Isabel Freire:
Rio
maior meu rio de criança único rio Sempre a aldeia onde nasceu acompanhou a obra do poeta. Desaparecido em 1978, com apenas 45 anos, conta-nos Joaquim Manuel Magalhães que Ruy Belo foi um homem discreto, “retirado das ribaltas”, condenando, talvez por isso mesmo, ao ostracismo de um país que convive mal com a recusa. Na verdade, Joaquim Manuel Magalhães é bem mais incisivo: “Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar”. [24] Coroas de flores serão depositadas no lugar onde repousam os restos mortais do poeta. Ao poeta, já de nada servirão. Que serviam a nós para alguma coisa, mais que não seja para voltarmos a esse lugar que já não existe, numa aldeia que não existe, onde agora descansa um homem que não pode deixar de existir: A ILHA DE ARTUR
Habito
na morada do castigo
NOTAS 1. Obra Poética, vol. 3, org. Joaquim Manuel Magalhães e Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Lisboa, Presença, 1984. 2. Obra Poética, vol. 2, org. Joaquim Manuel Magalhães, 2.ª edição, Lisboa, Presença, 1990. 3. Manuel Gusmão, Pequena fala sobre a poesia de Ruy Belo, in A Phala, n.º 86, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001. 4. Aquele Grande Rio Eufrates, in Aquele Grande Rio Eufrates, 5.ª edição, Presença, Lisboa, 1996. 5. Paula Morão, Ruy Belo: “Não há tempo ou lugar onde habitar” - Questões de poética, in Românica – Revista de Literatura, Edições Cosmos, Lisboa, 1999. 6. Elogio da Amada, in Aquele Grande Rio Eufrates, 5.ª edição, Presença, Lisboa, 1996. 7. Povoamento, idem. 8. A História de Um Dia, idem. 9. Mors sempre prae oculis, idem. 10. G. S. Kirk, J. E. Raven, M. Schofield, Os Filósofos Pré-Socráticos, 4.ª edição, trad. Carlos Alberto Louro Fonseca, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1994. 11. Ángel Marcos de Dios, Gabriel Augusto Coelho Magalhães, Pedro Serra, Terras e tempos: o espaço e o tempo na poesia de Ruy Belo, in Românica – Revista de Literatura, Edições Cosmos, Lisboa, 1999. 12. Imaginatio Locorum, in O Problema da Habitação, 4.ª edição, Presença, Lisboa, 1997. 13. Prince Caspian, idem. 14. O Jogador do Pião, in Boca Bilingue, 4.ª edição, Presença, Lisboa, 1997. 15. In Homem de Palavra[s], 5.ª edição, Presença, Lisboa, 1997. 16. No Way Out, idem. 17. O Portugal Futuro, idem. 18. Pequena Capital do Pranto, idem. 19. De Como Um Poeta Acha Não Se Haver Desencontrado Com A Publicação Deste Livro – explicação preliminar à sua segunda edição, idem. 20. Gilles Deleuze, Nietzsche, trad. Alberto Campos, Edições 70, Lisboa, 1981. 21. Obra Poética de Ruy Belo, vol. 2, 2.ª edição, org. Joaquim Manuel Magalhães, Presença, Lisboa, 1990. 22. Idem. 23. Idem. 24. Joaquim Manuel Magalhães, Os Dois Crepúsculos – Sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas, A regra do Jogo, Lisboa, 1981. |
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Henrique Manuel Bento Fialho (Portugal, 1974). Publicou, entre outros, os livros antologia do esquecimento (2003), Estórias Domésticas & Outros Problemas (2006) e O Meu Cinzeiro Azul (2007). Contacto: universosdesfeitos@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras da artista Mayte Bayon (Espanha). |
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