revista de cultura # 62
fortaleza, são paulo - março/abril
de 2008






 

José Luís Tavares: um percurso fecundo e luminoso na novíssima poesia caboverdiana

José Luis Hopffer C. Almada

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José Luís Tavares1.

A mudança de paradigmas na poesia caboverdiana contemporânea ocorre de forma insofismável em Paraíso Apagado por um Trovão e Agreste Matéria Mundo, de José Luís Tavares.

Neste poeta, como em poucos poetas contemporâneos de língua portuguesa, é flagrante a irrupção de novos paradigmas mediante o primacial recurso à reinvenção da linguagem.

O já relativamente longo percurso literário de José Luís Tavares (quarenta anos feitos a dez de Junho passado) tem o seu ponto de partida no Liceu Domingos Ramos da Praia, onde co-fundou e dirigiu a folha juvenil “Aurora” (de iniciação às lides literárias), no já longínquo ano de 1987.

Então “aprendiz de poeta e de ficcionista”, embebido de insaciável curiosidade intelectual e em pleno processo de maturação criativa, José Luís Tavares foi frequentador regular das tertúlias literárias que, por essa altura, pululavam entre os jovens revelados dos anos oitenta na cidade da Praia.

Foi nestes tempos praienses que também iniciou a sua colaboração na revista “Fragmentos”, do Movimento Pró-Cultura, publicação fundada em 1987 e na qual pela primeira vez deu um conto (“Quotidiano Cinzento”) à estampa, para além de vários poemas indiciadores da sua progressiva maturação estético-literária.

Nessa mesma cidade, foi visitante assíduo dos Centros Culturais Português e Brasileiro, os quais lhe propiciaram fecundos contactos com as obras de grandes nomes da poesia mundial, como Ezra Pound, António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade ou Haroldo de Campos.

A sorte consubstanciada na estrada para a lonjura que se adivinhava viria abruptamente irromper no destino do jovem professor do Ciclo Preparatório, então diplomado com os Cursos dos Liceus, os prementes problemas editoriais que se viviam na altura, particularmente na capital do país, bem como a morosidade na escrita do prefácio, a cargo do autor das presentes linhas, impediram que, em 1988, José Luís Tavares publicasse “ Entre as Mãos e o Silêncio”, seu virtual livro de estreia, cuja qualidade, no entanto, poderia tê-lo colocado entre os melhores primeiros livros editados nos princípios dos anos noventa por elementos da geração literária revelada na segunda metade dos anos oitenta.

Como se pode facilmente verificar, a referência à escrita de alguns poetas portugueses contemporâneos, com destaque para Hélder Moura Pereira, António Ramos Rosa e Eugénio de Andrade, e as suas reminiscências na nascente poesia de José Luís Tavares não eram negligenciáveis e não se reduziam somente à reconhecida similaridade de alguns títulos (“Entre o Deserto e a Vertigem”, de Hélder Moura Pereira e o título do livro não publicado de José Luís Tavares, a que acrescem “As Mãos e os Frutos” em Eugénio de Andrade e “As Mãos e os Gestos” num poema de JLT).

Do projecto de livro de José Luís Tavares ficaram os poemas publicados na revista “Fragmentos” e/ou integrados na colectânea “Mirabilis - de Veias ao Sol” ( de intenção panorâmica do conjunto dos poetas revelados no período situado entre o imediato pós-25 de Abril de 1974 e Setembro de 1987).

A propósito desses poemas, alguns deles notoriamente juvenis, integrados na colectânea “Mirabilis – de Veias ao Sol”, ironizou José Luís Tavares por ocasião do seu recente regresso a Cabo Verde para o lançamento dos seus dois primeiros livros, dizendo que os mesmos “lhe deveriam valer no mínimo um par de chibatadas”, atestando, por esse modo, além de boa disposição uma louvável capacidade de autocrítica, distanciamento e auto-superação.

Corria, finalmente, o ano de 1988, José Luís Tavares teria a oportunidade de percorrer a sua Estrada de Damasco, quando, navegadas as “nuvens nuas” dos céus da Pasárgada para o saciamento da sede de instrução superior, então somente possível em longes terras, ancorou em Lisboa, onde, a par da frequência do Curso de Línguas e Literaturas Modernas e do Curso de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, protagonizou intenso e profícuo convívio com os escaparates, os auditórios, as tertúlias e outros lugares do saber e do lazer.

Foi nessa oportunidade, também de reencontro com os pais e demais familiares de há muito radicados na periferia da ex-capital do Império colonial, que o estudante universitário pôde contactar e conhecer a cintura suburbana da Pedreira dos Húngaros e do Alto de Santa Catarina, de onde, igualmente, pôde divisar e dissecar todo o resplendor de dignidade que fazia por sobreviver “ao logro no coração metropolitano do império” e se acendia, inexaurível, no ser humano encurralado pela segregação social, racial e residencial, sem todavia deixar de se extasiar com o esplendor lato e líquido do Tejo, ele que vem de uma terra despojada de rios, mas bafejado pelo mar e, periodicamente, invadido pelas águas barrentas das cheias dos eventuais meses de azáguas.

Nesta cidade de Lisboa, também crioula por tributo de vivência, de impregnação cívica, de amada descendência, bem como dos dias costurados em suor e esforço das mentes perscrutantes dos estudantes e dos intelectuais e das mãos laboriosas das mulheres e dos operários em construção, todos originários das ilhas sahelianas, colabora no DN – Jovem (suplemento literário do jornal lisboeta “Diário de Notícias”), assim participando, com um outro caboverdiano (António da Névada), na emergência de uma nova geração de literatos de pena lusógrafa e de rosto português (por vezes, inevitável e sub-repticiamente apodado de pretoguês) e no JL (“Jornal de Artes e Letras”), iniciais por que é também conhecido entre os amigos e admiradores mais indefectíveis.

Apaixonado (diria até fanático) cultor de poesia, insaciável na busca do novo na linguagem e na perscrutação do insondável para além do real quotidiano, municiado com os conhecimentos da técnica do verso, da tradição poética e da poesia contemporânea lusógrafas, da teoria da literatura e da filosofia que a formação universitária e um trabalho quotidiano, persistente, as leituras, múltiplas e transpirantes, os dias insones e as noites de noctívago lhe propiciaram, José Luís Tavares propôs-se ser um partícipe activo e fecundo na invenção de um dizer novo, não só na poesia caboverdiana, como também em toda a poesia de língua portuguesa.

Alfredo ViveroDizer novo e fundado num cânone de raiz ocidental e matriz lusógrafa, mesmo se marcado por uma cosmologia pessoal, indissociável, ainda que por modo remoto, de um sopro badio e de uma sensibilidade caboverdiana.

É o próprio José Luís Tavares que se desvela a Maria João Cantinho em entrevista publicada na revista electrónica Storm-Magazine: “Sou poeta e sou cabo-verdiano. O ser cabo-verdiano está subsumido na condição de poeta. Clandestino na ditadura do mundo, como o definiu Herberto Hélder, o poeta nunca é de um só lugar, de uma só língua, de uma só tradição. Híbrida e viajante é a sua condição, e, no meu caso pessoal, ainda mais, em decorrência do ethos, das peculiaridades históricas e do longo afastamento do solo pátrio”.

Na prossecução do desiderato de inovação e renovação a que se propôs, José Luís Tavares tornou-se um festejado artífice da universalização da poesia caboverdiana e, nessa empreitada, cúmplice do labor e da herança ainda viva de poetas, companheiros da língua comum, mas também das ilhas nossas, grandes como João Vário, Gabriel Mariano, T. T. Tiofe, Corsino Fortes, Oswaldo Osório, Mário Fonseca e, deste modo, atípico testamenteiro da consigna de Arménio Vieira: “é pela metaforização do discurso que se salva o pensamento”.

Os livros de José Luís Tavares estão aí para, de forma absolutamente autoritária, comprovar a mudança de paradigma na poesia caboverdiana contemporânea, por um lado, e, por outro lado, contribuir para tornar ainda mais visível a reinvenção da arte de escrever na poesia lusógrafa dos nossos tempos.

 

2.

É o que, aliás, constatou em estado de choque estético, o jornalista, poeta e crítico literário António Cabrita ("corsário das ilhas", in suplemento "Actual" do jornal "Expresso" de 6 de Março de 2004) para quem o livro inaugural Paraíso Apagado por um Trovão é a mais "autoritária” primeira obra que leu nos últimos tempos", sendo ademais comprovativo de “um dos mais flagrantes domínios da língua portuguesa” que lhe foi dado testemunhar.

Na verdade, Paraíso Apagado por um Trovão choca, desde logo, pelo seu apuro de linguagem, num português raro (quiçá rebuscado) na sua erudição.

Característico dessa linguagem é o seu quase despojamento do coloquialismo identitário da poética e do concreto léxico da caboverdianidade, por vezes marcada pelo chamado português literário de invenção claridosa, frequentemente chão, mesmo se – como foi anteriormente dito - assaz elaborado na sua inventividade literária e irrecusavelmente autêntico na sua pertinência cultural.

De todo o modo é o apuro da linguagem, na sua raridade e erudição, que tornam patente e incontornável o efeito universalizante de ruptura com o telurismo atávico, quer o de raiz claridosa, quer o de feição novalargadista e vanguardista.

O despojamento e o efeito de ruptura acima assinalados denotam-se como tanto mais insólitos, quando a convocação dos lugares onde o poeta enterrou o seu umbigo e passeou a sua sombra, os lugares onde habita o trovão (título do primeiro caderno) e das pessoas, redimidas da amnésia nos retratos cativos (título do segundo caderno), adensa-se de referências telúricas ou conexas com o real caboverdiano.

Referencialidade des-ocultada na medida em que, em regra, os motivos são inequivocamente caboverdianos e se trata da evocação da infância e dos seus trilhos memorizados como paradisíacos na sua devastada nudez bem como (sentimo-lo, adivinhámo-lo!) da encenação da memória junto ao mar do Tarrafal de Santiago de Cabo Verde - o da circunscrição do medo no ex-campo de morte lenta do chão bom - e à agreste paisagem onde cristos de negra pele se crucificam na azáfama da corta de frutos raros e cada dia na labuta dos pescadores é uma atribulação sagrada e rente à escassez do paraíso.

Referencialidade velada e surpreendente, no entanto, devido ao cunho universalizante logrado por efeito da meditação retrospectiva, orquestrada pelo “rigor e pela cadência” da palavra tornada cúmplice, como se parte indispensável da utensilagem doméstica, percutindo inventariante (para utilizar o título do terceiro caderno “Matéria de Inventário”) sobre as vivências experienciadas (Erlebnis und Erfahrung, diríamos em alemão), observadas ou, melhor, imaginadas e recriadas do e para o interior rural de Santiago e da vizinhança rude e numerosa, e por mor da elevação, até a um certo preciosismo, da linguagem.

Preciosismo, ressalve-se, não no sentido de fátuo e barroco exibicionismo verbal e lexicográfico, mas da adequação da palavra exacta e memorável à prolífera santidade dos lugares, à recusa do olvido e ao politeísmo dos olhares da revisitação sobre a chã variedade dos objectos de culto.

É essa linguagem elevada que, por vezes, é inesperada e insolitamente contaminada quer por expressões que remontam a Camões e à poesia medieval de D. Dinis da frol do verde pino e ainda sobrevivem no idioma caboverdiano, quer por termos oriundos do crioulo fundo (basilectal) de Santiago (por exemplo: txabeta, lacacan, tabanca).

Se para um leitor não caboverdiano (ou não conhecedor da variante-matriz da língua caboverdiana) presumimos que o uso de termos do crioulo fundo de Santiago pode provocar um efeito de estranheza - enquanto misto de espanto, surpresa, assombro e curiosidade em face da intimidade com o raro, quais pedras preciosas incrustadas num antiquíssimo e valioso tecido, já, de per se, de altíssima qualidade -, para um leitor caboverdiano os mesmos termos poderão, muito provavelmente, provocar um efeito de inesperada e inusitada autenticidade telúrica, cosmogónica, humana e identitária.

É esse efeito que vem somar-se ao assombro porventura sentido em face do insólito adveniente da linguagem utilizada e na qual ressumam tradição e modernidade, em toda a sua plenitude e soberania estéticas. Linguagem reverenciadora do cânone da mais alta estirpe mas também portadora de constantes, inusitadas, provocatórias rupturas que o autor prefere denominar sabotagens linguísticas.

É o mesmo efeito de autenticidade acima assinalado que vem juntar-se à magoada resplandecência do chão da infância, das suas veredas, dos seus trilhos e das suas genealogias, do seu indizível espanto, agora exumados por mor da encenação da memória pela linguagem – a mais alta, a mais trovejante - da poesia.

Opinando que Paraíso Apagado por um Trovão se oferece como “formidável trabalho arqueológico da língua portuguesa”, em recensão publicada na revista Artiletra situa Fátima Monteiro o labor de José Luís Tavares no limiar de uma certa erudição dicionarista.

Explica a académica: “Encontramos nele muitas palavras que quase só têm lugar nos dicionários do português, enquanto se afirmam, ao mesmo tempo, como substrato e latência do medievo e do Renascimento na fala rural do cabo-verdiano de hoje. No universo vocabular, Gil Vicente e Camões não se sentiriam certamente em terra estrangeira. A presença de Camões não se denota, aliás, somente no vocábulo. Ela surge na prosódia, isto é, na forma de compor os versos, quando não na paródia directa do verso camoniano, seja o épico, seja o lírico”.

Alfredo ViveroEm Paraíso Apagado por um Trovão, a linguagem é, assim, ardentemente sincronizada, deliberadamente sintonizada com a poesia contemporânea e a tradição poética (o “veio da tradição”, como refere o poeta), com a lusografia poética da mais alta nobreza, incluindo a de teor iconoclasta e pecaminosa (quer essa poesia – contemporânea ou oriunda da tradição erudita ocidental- tenham sido originalmente escritas em língua portuguesa quer tenham sido nela vertidas por via da tradução).

É também sobre a linguagem vazada em Paraíso Apagado por um Trovão que discorre o universitário Pires Laranjeira (“Um paraíso cintilante”, in JL, nr de 26 de Maio/ 8 de Junho de 2004):” Escreve com uma pontuação e um estilo perceptíveis, que ajudam à percepção, sem “modernices” (que, por vezes, escondem falibilidades em principiantes), receptor evidente da lição medieval, camoniana, bíblica, ática, ovidiana, dominando a língua portuguesa no seu esplendor oracular, dramático, digressivo, narrático. Em que a espessura discursiva não impede o gosto da leitura (…). Enfim o domínio certeiro do vocabulário requintado num fraseado longo, complexo e paradoxalmente cristalino, dizendo as doces lembranças, os amargos traumas sócio-políticos (escolares também) e a saga popular”. É esse mesmo universitário que tece as seguintes considerações conclusivas sobre o livro em pauta: “ É uma das maiores surpresas, desde há muitos anos, da poesia africana e mesmo de toda a poesia de língua portuguesa, porque alcança uma maturidade inabitual em estreias, consegue a desenvoltura prosódica, a harmonia melódica e legibilidade de sentidos com sustentação simultaneamente de recorte clássico e moderno”.

O universo rural de Santiago, lugar nunca nomeado mas tornado reconhecível e quase mí(s)tico devido aos rastos do suor e do cieiro que perlam essa poesia, adentra-se todo no que poderia ser considerado como uma longa e ininterrupta meditação sobre a infância e a sua maturação, ao sabor das estações das vidas que crescem e fenecem no decurso dessa única estação rústica, assombrada pela chuva (“lágrimas desses antigos / rios sucumbidos à voragem dos estios”) que era o tempo desse “país verde sem estações”.

Por vezes de indescritível heroicidade: ”Vejo-o erecto na paisagem / Como um índio emboscando a tarde. /Tem junta de bois e alqueire de sequeiro. Tem filho na estranja e um nó no coração”.

Ou: ”Feliz o que abraçou o árduo destino/ da gleba - embora sobre ele se abata / amiúde a inclemência, não lhe faltará/ o magro condão de haver tocado/ a cósmica densidão da terra”.

Densidão da terra por onde circulam os ciclos todos da vida e da morte, as marés completas do choro e do mar, as tentações repletas de alegria, de pecado e do sermão, então solenemente em latim, e junto ao qual, aparentemente inócuo, debita-se o tempo também concentracionário:”Aqui, circunscrição do medo. / Aqui, as letárgicas armas vigiam. / Aqui, tributos pagos em arrobas/ de queixume. Aqui, chamiços de ossos pela húmida tarde de Dezembro (…) Aqui a pedra berço da incubação. /Aqui, cárcere de sediciosos sob o assédio / dos mosquitos (…)”.

Não é, pois, a ausência de referencialidade (explícita ou adivinhada) a coisas nossas o que empresta a marca distintiva de Paraíso Apagado por um Trovão, mas a sua convocação mediante um dizer novo na sua riqueza metafórica e obsidiante erudição e no que elas têm de universalidade ontológica.

A intertextualidade com autores como Rilke, Seamus Heaney, Vitorino Nemésio, Ted Hughes ou João Cabral de Melo Neto torna mais irrepreensível e latamente perceptível a condição humana que, sem fátuas sacralizações, se quer incensar em Paraíso Apagado por um Trovão.

Condição humana certamente de todos os lugares, onde crocitam corvos, e nos quais se almeja erguer-se “para a mortal vocação de ser humano”, mas privilegiadamente de Cabo Verde, “chão antigo, / agreste, familiar” de “vida rude elementar, vereda de antigos passos” para onde se regressa pelo lúcido padecimento do informe, que pela arte em mundo se converte.

Arte que sem se nomear é um verdadeiro epos à infância, “essa idade também de desatinos”, e justificaria, por si só, a colocação de Paraíso Apagado por um Trovão no lugar reservado à poesia de intenção e/ou ressonância épica, como ocorre com a poesia de T. T. Tiofe e Corsino Fortes.

 

3.

Ainda não se arrefecera o impacto do primeiro livro, impacto esse tornado mais visível pela atribuição do prémio Mário António da Fundação Calouste Gulbenkian, publica José Luís Tavares o muito denso e volumoso Agreste Matéria Mundo.

É de novo António Cabrita quem opina ("O Ouro do ilhéu", suplemento"Actual", do jornal "Expresso", de 23 de Abril de 2005) que em Agreste Matéria Mundo (“uma prova de fôlego com 220 páginas”) "a geografia volve absolutamente literária e acentua-se numa auto-reflexidade que se compraz na remodelagem de géneros e tropos literários mas com um sentido de oportunidade e uma vivacidade que salva sempre o texto da literatice. Ao que acresce um humor, numa sábia dosagem de espontaneidade e cálculo, que nunca perde o pendor parecem particularmente válidas para o primeiro caderno do livro trágico:" e a vida, essa canção verrina, / entretém-se a fiar navalhas (…)".

Para Maria João Cantinho “denúncia de idealismos, apresentação de um mal-estar essencial são magma essencial que constitui esta obra, conferindo-lhe a luz de um sol negro que brilha sobre a encosta da melancolia” (texto de apresentação pública do livro publicado na storm-magazine. com). Outro modo de dizer que o livro é também de interrogação e de perplexidade sobre o próprio acto de criação poética.

Tal asserção é particularmente válida para o primeiro caderno do livro “A Deserção das Musas (meditações metapoéticas em chave lírica)”, onde também é escalpelizada a condição maldita do poeta:”Recolhido ao brusco silêncio, crês / que a poesia nos solve das nossas faltas para com o mundo. Não te apercebes / que o tempo, ou outro deus qualquer, / nos pede contas dessas tardes /em que entregamos à pugna irredentora; a que não promete despojos, / embora trace os contornos do reino a haver”.

Alfredo ViveroNos cadernos seguintes (“Cena de Cinzas”, “Vernais”, “Matinais”, “Vesperais”) o poeta prossegue as meditações - desmistificadoras, porque dessacralizadoras - sobre o mundo, e um dos seus correlatos, o amor (carnal, místico, religioso, etc.) e os seus escombros, tornados também visíveis em sítios trilhados pelo olhar nómada, pela descrente lucidez do poeta, e, por isso, tornados próximos e, por via da reflexão, expropriados. Ainda que com o despojamento de quem tem na descrença a sua fé e a pertinência do mundo resida na circunstância de o mesmo ser um único e indiviso lugar de resplandecência do verbo.

Escreve Maria João Cantinho que ressuma de Agreste Matéria Mundo um certo cinismo, o qual resultaria, nas próprias palavras do poeta inseridas na entrevista concedida à estudiosa, de uma “clarividência amarga e triste, e uma secreta intimidade com as coisas e os seres”. É a mesma estudiosa que ressalta: “mas um cinismo que é amenizado pela ironia (e também nesse aspecto José Luís Tavares nunca descamba na paródia fácil) e podemos dizer, assim, que a ironia é a sua consolação metafísica”.

Em Agreste Matéria Mundo persiste José Luís Tavares no labor da transfiguração do real, do “informe” da “agreste matéria”, pela linguagem e pelo seu poder sobretudo demiúrgico, porque também transfigurador.

A este propósito comenta Maria João Cantinho: “não lhe é alheio o uso de uma linguagem conceptual”, ressalvando, no entanto: “se a usa, privilegiando o uso de vocábulos difíceis e acasalando-a com a trivialidade da experiência e mesmo, cruzando-a com a linguagem rasteira, não se deixa arrastar para o exercício estilístico e retórico, literário”.

A concluir este breve escorço pelos livros publicados de José Luís Tavares, poderíamos dizer que o nascimento de um livro (sobretudo quando portador de uma cosmogonia pessoal e de uma assumida deliberação de ruptura estética e não só) é sempre comparável ao nascimento de um mundo e, quando de poesia se trata, ao desvelamento de um mistério que, mesmo extravasando-se para os outros, continua a ser sobretudo interior e habitado primordialmente pela solidão.

 Então, somos nós, leitores, como que investidos no papel de escrutinadores da busca de reconhecimento por parte do autor, em boa medida devido à circunstância de também sermos testemunhas quase oculares desse parto da sombra, primacialmente desencadeado por uma infatigável e missionária radicação na criativa maldição da escrita.

E, por isso, sentimo-nos, nós também, feridos na nossa razão ética e na nossa sensibilidade estética - como se fôssemos nós próprios as vítimas eleitas da injustiça e os alvos preferenciais da perfídia – quando, escandalizados, porém impotentes, contemplamos o modo quase sacramental como se vem intentando sonegar e ocultar a luminosa qualidade da obra assim produzida e exemplarmente ilustrada nos dois livros acima referenciados.

Para tanto, tem-se lançado mão de estratagemas vários, de entre os quais avulta a sistemática preterição de estas e de outras obras em conhecidos concursos literários, assim logrando-se alcandorar outros às luzes da ribalta mediática e aos altares do reconhecimento público.

Mesmo se, reconhecidamente, menos merecedores de tributo literário, porque autores desiguais, nos quais a mediania e a convencionalidade coexistem com a mediocridade e, em menor grau, com alguma qualidade da escrita, todavia credita-se a esses outros, aliás muito festejados, autores maior sagacidade na manha e na manipulação dos bastidores do obscuro mundo das vénias mútuas.

Mundo, aliás, no qual têm imperado os duvidosos gostos da “monocultura identitária” (como corajosamente relembrava JLT aquando de uma sua sagração na Gulbenkian), do canhestro telurismo ou de quotas, instituídas de forma sub-reptícia para compensar vozes alegadamente detentoras da natural vocação para as artes, bem como melífluas e bem-parecidas “minorias”, suposta e convenientemente vitimizadas pela história, pelo género, pelo lugar do nascimento ou pelo tempo do sofrimento.

Ainda que a mesma manipulação tivesse que significar o sacrifício de princípios éticos e deontológicos devidamente consubstanciados em regulamentos de concurso tempestivamente produzidos para a nominal salvação da equidade, da objectividade e da transparência do inapelável juízo dos decisores de serviço e, por esta forma, implicar o desassombrado e desapiedado enterro da estética, ela própria.

Nessa saga tornou-se possível a concretização do indisfarçável intuito do favorecimento ou da aceleração de outras - pretensamente mais sonantes - carreiras de proclamados ícones e candidatos assumidos a lugares cativos na nomenclatura literária e não só, mesmo se reconhecemos que, por vezes, à sua revelia e sem a sua activa cumplicidade.

Nesta circunstância, parece-nos oportuno relembrar António Cabrita quando no artigo “O Ouro do Ilhéu” se referia à (não) reacção de alguma crítica “metropolitana” (portuguesa, queremos dizer) em relação aos livros de JLT:” Loas à língua de um poeta com mais de mil palavras da comum fronteira lusa (…) estamos diante de um “caso literário”, a que só a miopia de uma certa crítica obcecada com os graus de parentesco não dá o devido relevo. Com Tavares apetece lembrar o que Brodsky escreveu sobre Derek Walcott: ‘esta cobardia mental e espiritual patente nos intentos para converter este homem num escritor regional pode explicar-se também pela pouca vontade da crítica profissional em admitir que o grende poeta da língua inglesa é negro”.

Mutantis mutandis, pôde-se identificar idêntica vontade de ocultação e de exclusão do livro Agreste Matéria Mundo em certos meios literários mais reféns e prisioneiros do nacionalismo identitário, mesmo se convenientemente escudada numa argumentação de sinal contrário, fundada no pretenso exclusivismo literário do pretérito slogan do “fincar os pés na terra” do sahel insular. É assim que se pôde testemunhar a insidiosa actuação de proeminentes figuras desses meios literários no sentido da ressuscitação dos antiquíssimos e famigerados anátemas de desenraizamento e do suposto comprometimento com uma corrente estética defensora da arte pela arte, com os quais, aliás, quiseram também vitimar, em tempos idos, a grandiosa obra de João Vário consubstanciada nos Exemplos.

Alfredo ViveroNo entanto e como se viu, nada disso se tem mostrado capaz de diminuir ou de melindrar o alto juízo que reputados conhecedores da literatura fizeram e continuam a fazer da poesia de José Luís Tavares.

Repetimo-lo: não obstante a endémica persistência em marginalizá-la, ora condescendentemente confinando-a ao lugar menor de alegada obra de jovem escritor africano, ora traiçoeiramente condenando-a a um não – lugar, próprio de lusógrafos expatriados, mesmo se detentores de inapagáveis credenciais.

Os prémios Cesário Verde, da Câmara Municipal de Oeiras, e Mário António da Fundação Calouste Gulbenkian, para Paraíso Apagado para um Trovão, e Jorge Barbosa, da Associação de Escritores Cabo-Verdianos, para Agreste Matéria Mundo, bem como o lugar cimeiro atingido nas Correntes da Escrita Ibero-Americana da Póvoa de Varzim pela primeira das obras mencionadas (entre as dez nomeadas num universo de mais de uma centena de livros) vieram de alguma forma laurear o inegável mérito da transpiração poética (e, assim, o estatuto de escritor de qualidade de JLT), como também evidenciar a perplexidade ética e estética que perpassavam a, por vezes translúcida, ambiência que presidiu à sua atribuição.

 

4.

Depois da publicação dos seus dois livros, enveredou José Luís Tavares também pela escrita de uma poesia em língua caboverdiana.

Para tanto o poeta tem-se socorrido de três vias: 1) a tradução, a partir do português, de grandes obras da poesia mundial, com destaque para os Sonetos de Luís de Camões e a Ode Marítima e outros poemas de Álvaro de Campos; 2) A versão em crioulo de poemas lusógrafos de lavra própria ou de outros poetas caboverdianos, como os seleccionados para uma antologia bilingue em preparação e devidamente assinalada em nota do autor do presente texto; 3) A escrita original de poesia em língua caboverdiana.

Os mais atentos puderam seguir alguns sinais desses desenvolvimentos mais recentes, na medida em que José Luiz Tavares (opção recente do poeta para assinar os seu textos e, assim, marcar a sua condição de escritor) tem-se transformado num dos mais produtivos cultores actuais da língua caboverdiana, como atestam os muitos “raps” e outros poemas – canções, publicados na sua maioria no jornal electrónico “liberal-caboverde”, bem como um dos mais abalizados defensores e utilizadores do ALUPEC (Alfabeto Unificado para a Escrita do Caboverdiano), mesmo se, à semelhança e com a cumplicidade de outros “alupecadores” (como o autor das presentes linhas humildemente se confessa), permanecendo, contudo, assaz crítico em relação a algumas soluções, como a generalizada acentuação das vogais abertas.

Nesse labor, denota-se, desde logo, que o poeta tenta imprimir à sua poesia em crioulo a mesma riqueza lexical, a mesma exuberância imagética e o mesmo rigor estilístico, muito marcado pelo uso da métrica e da rima, que têm presidido à muito elaborada feitura da sua poesia em língua portuguesa.

Deste modo, tem-se tornado muito visível o seu intento de afastamento e de distanciamento da oralitura mais elementar, sem todavia descurar a exploração de todas as potencialidades morfo-sintácticas e lexicais do crioulo, incluindo aquelas propiciadas pela oratura e pelo continuum linguístico que vai do basilectal ao mesolectal.  

José Luís Hopffer C. Almada (Cabo Verde, 1960). Poeta e editor. Autor de À Sombra do Sol (1990), Assomada Nocturna (1993) e Assomada Nocturna - Poema de Nzé di Sant’ y Águ (2005). Contato: josehopffer@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Alfredo Vivero (Colômbia).

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