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revista de cultura # 62 |
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Projeto Dulcinéia Catadora Lúcia Rosa
O coletivo Dulcinéia Catadora funda sua ação principal na compra de papelão a R$1,00 o quilo - os catadores o vendem em cooperativas e sucatas a 20, 30 centavos. Essas caixas são cortadas em formato A4 (o tamanho de uma folha de papel sulfite). Às marcas que indicam a origem da caixa (logotipo da empresa, o nome do produto…) soma-se um colorido intenso: filhos de catadores, artistas e outros colaboradores pintam o papelão em uma oficina de aproximadamente 20 m2. Têmpera. A pintura é livre, vigorosa. Depois o papelão pintado é dobrado, forma uma lombada. Montam-se livros, vendidos a R$ 5,00. A renda arrecadada é distribuída entre os adolescentes participantes. Assim funciona o Dulcinéia Catadora, um projeto híbrido, apoiado em um tripé: social, artístico e cultural. Contos e poesias são “publicados” pelo coletivo. Xerox é o recurso utilizado. Quarenta, cinqüenta livros de cada autor são montados por vez e a “produção” é feita de acordo com a demanda. Com isso acentua-se o caráter de resistência, de andar na contramão do mercado editorial, ou mesmo de trilhar um caminho alternativo que possibilita, ainda que em escala pequena, a divulgação de novos autores, abrindo caminhos paralelos na história da literatura latino-americana.
Dulcinéia Catadora é o núcleo brasileiro que integra uma rede de ação
cultural na América Latina. O primeiro deles, o Eloísa Cartonera,
iniciou suas atividades na Argentina há cinco anos.
Lúcia
Por
apresentar uma possível resposta a esse questionamento, o
Eloísa recebeu o convite para participar da Bienal. A proposta do grupo
foi reproduzir
Dulcinéia Catadora
estreou * * * Dulcinéia Catadora funda-se na percepção da vida cotidiana como processo criativo. Tem como conceito-pivô a troca, a interação, a ação. Essa ação não é simplesmente um meio de convívio, mas uma "ferramenta cognitiva", uma forma de gerar sentido e conteúdo.
A convivência entre pessoas com origens, atividades, experiências e visões de mundo diversas, é benéfica e enriquecedora para todos os participantes. Os diálogos transformam o resultado do trabalho. Visa-se à valorização do catador, à inclusão social, a novas possibilidades de atividades profissionais, ao desenvolvimento do potencial artístico. Ressalte-se que, antes de gerar renda, as atividades no atelier promovem a auto-estima, a troca de experiências, geram o prazer de criar. A oficina é um espaço aberto, que procura estabelecer encontros intersubjetivos. (Entenda-se intersubjetividade como a consciência de ambos os lados da experiência perceptiva: de que ela é formada através de técnicas e práticas externas e através das capacidades subjetivas do próprio corpo e do sistema nervoso do observador). O coletivo fundamenta seu trabalho no conceito de estética relacional, de Nicolas Bourriaud. No entanto, é importante enfatizar que Bourriaud não considera a estética relacional como sendo simplesmente uma teoria da arte interativa. Ele a considera um meio em geral: a arte relacional é vista como uma resposta direta à mudança de uma economia – se desde o início do século XX ela fora baseada em bens, a partir das duas últimas décadas do século XX e mais marcadamente no início do século XXI, ela se volta cada vez mais para a economia de serviços. Isto implicaria, na arte, uma preocupação maior com o processo, a atividade desenvolvida com a colaboração do público, ou até pelo próprio público, independentemente, e não mais o produto, o resultado. Esta liberação da arte, de um objeto para uma experiência interligada, mudou a relação fundamental entre o público e o trabalho. Bourriaud propõe que ao contrário de um objeto que se fecha em si mesmo pela intervenção de um estilo e uma assinatura, a arte atual mostra que a forma só existe no encontro e no relacionamento dinâmico com artistas e pessoas com outras formações. O trabalho mantém-se em fluxo contínuo, cujo significado é elaborado coletivamente. Nesse sentido, dilui-se a noção de obra autoral. Ressalte-se que esse convívio não contempla apenas a extrema harmonia. Há certa tensão interna e às vezes o claro antagonismo gerado entre um grupo que prima pela diversidade. Também, na ação do coletivo há certa ironia, uma postura questionadora, crítica. A própria reação de parte do público na Bienal, que viu com olhar quase que indignado a participação do Eloísa na Bienal mostra isso. São artistas e críticos formalistas, presos às noções de estética convencionais.
"As pessoas podem se sentir desconfortáveis com alguns dos projetos exibidos porque eles operam com um pé no domínio da arte contemporânea e outro no âmbito do chamado "mundo real". Temos de aprender a viver com esse desconforto, que é algo comparável ao final dos anos 1960, quando artistas começaram a desmaterializar o objeto de arte e trabalhar conceitualmente." (Folha de S. Paulo, 12/12. Claire Bishop, entrevista dada a J. Monachesi) A estética relacional não alimenta a utopia de provocar uma mudança social, mas busca apenas provocar pequenos “abalos” que funcionam como micro-utopias no presente. Esta é a dimensão política do coletivo, que procura fazer arte politicamente, como explica T. Hirschhorn: “Fazer arte politicamente significa escolher materiais que não intimidam, um formato que não domina, um dispositivo que não seduz.” |
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Lúcia Rosa (Brasil, 1953). Tradutora, formada em letras pela FFLCH-USP. Artista plástica integrante do Coletivo Dulcinéia Catadora, iniciado em 2007. Participou com o coletivo Eloísa Cartonera da 27ª Bienal de São Paulo, em 2006. Contato: dulcineia.catadora@gmail.com. Página ilustrada com obras do artista Alfredo Vivero (Colômbia). |
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