revista de cultura # 62
fortaleza, são paulo -
março/abril de 2008

livros da agulha

Sobre um abismo, de António Barahona1. Sobre um abismo, de António Barahona. Organização de Floriano Martins. Coleção Ponte Velha. Escrituras Editora. São Paulo. 2007. Contato: fatima.nasc@escrituras.com.br.

A Escrituras Editora, dentro da Coleção Ponte Velha, edição apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB), publica Sobre um abismo, de António Barahona, com prólogo de Maria Estela Guedes e ilustrações de Konrad Zeller.

Esta antologia foi organizada a partir dos três volumes da Obra Poética do poeta: Noite do meu inverno (2001), Pássaro-Lyra (2002) e O sentido da vida é só cantar (2005), e inclui ainda, a pedido do autor, um poema dedicado a Mário Cesariny de Vasconcelos. Barahona revisou intensamente sua poesia e os volumes aqui referidos alteram a estrutura de seus livros, deslocando poemas de seus sítios originais, modificando-os, emendando-os, reescrevendo-os, além de incluir inéditos e dispersos.

António Barahona escreve como um profeta e será preciso dar-lhe atenção, pois desde sempre foi em meio à loucura que irrompeu a Palavra mais constitutiva. O fato de lhe negarmos razão não significa que elabore nas trevas, significa que ele está no outro da nossa rasa racionalidade. Fé não lhe falta e é sincera, mas a fé é uma agitação interior. Barahona ama tanto a Cristo como Muhammad Rashid amou a Allah, dois nomes para o mesmo Desconhecido. É para O encontrar que se senta aos pés de um padre ou de um imã-tala, e continuará, porventura, a sentar-se diante de outros mestres, de outras religiões, enquanto viver. O que fica para trás, quando se ergue, não é Deus, sim a religião. O que à frente avança, quando a religião desmorona-se, é a Poesia, lugar de assombro em que também é possível procurar Deus, e até encontra-Lo. É aqui a Pátria, é Deus aqui, aqui a Família Gramática.

António Barahona nasceu em Lisboa, a 7 de janeiro de 1939. As suas obras exploram preferencialmente os domínios do sonho e do misticismo e revelam, normalmente, uma religiosidade explícita. A paixão pelo sânscrito levou-o ao Oriente para estudar esta língua. Em sua bibliografia há mais de 50 títulos publicados em mais de 40 anos de Literatura.

 

Susurros de la memoria, de Eduardo Mosches2. Susurros de la memoria, de Eduardo Mosches. CONACULTA (Práctica mortal), México, 2006. Contacto: eduardomosches@yahoo.com.

Si algo mueven los recuerdos en el terreno sensorial de un texto poético son las sinestesias. Vemos sonidos, escuchamos aromas, olemos voces, tocamos luces y colores, degustamos atmósferas y movimientos temporales. Esa inmensa red sensitiva que se teje para atraer el tiempo perdido, historia que se toca con la honda navegación del inconsciente. El poeta se planta en los dominios de la palabra, en su capacidad de nombrar y de reinventar la realidad. Eso que para Lacán es por definición insoportable, lo mismo que para el Rey Edipo, quien prefiere sacarse los ojos para no ver el escenario de los hechos. Claro, los ojos podrán estar apagados, pero no la mente.

Eduardo Mosches tira una hebra que lo conduce al otro Mosches, al hijo y al padre, al ayer y al devenir constante. Jorge Eduardo es su propio ancestro y su descendiente, conversa con ambos, persuadido de que se pone en su lugar, en sus zapatos. Juega con la intertextualidad para dar la impresión que en el diálogo entre el padre y el hijo hay una presencia impersonal que no se ruboriza, el poeta, no el hombre. Pero no puede impedir que brote del alma esa voz que habla en primera persona del singular: “Los alisios hogareños quebraron/ no pocas veces mis jarcias infantiles” (…) “La voz susurra una canción hecha milonga/ pedazos de vida hacen reunión/ en el deseo de lo no realizado.”

El miedo emerge como cáscara del pasado, como eco de la desolación y el vacío de una familia sometida al holocausto, al exterminio. El niño del poeta, hijo de sí mismo, se reconoce en la verbalización del espanto. Mosches, el niño, no deja de jugar con los huesos y las glándulas de Eros y Tanatos: “Es posible que cierto lejano familiar/ mordiese muslos que bajaban de los trenes/ en Treblinka o Auschwitz” (…) “Todo eso fue antes/ que creciera la sombra de un bigote/ y enfrentase otros dientes amenazantes/ en alguna manifestación en contra o a favor/ calidez y nostalgia/ cariño de niñez perdida por la obligación de las pesadillas”

El hilo de la memoria no son sólo recuerdos de imágenes vividas sin la historia vívida del hombre y sus antecedentes, la historia a lo grande con sus revoluciones, sus utopías, sus desastres, de la mano de esa otra historia personal en el cambio de la voz y los deseos. Luego esa memoria, esa noción del abismo en el laberinto del tiempo donde: “algunos amigos de la infancia/ han quedado por siempre en los túneles de los desaparecidos.” Hay pendientes que no dejan dormir o reposar en un sofá y quizás tampoco en el diván de las confesiones sino en la agitación de los sentidos, en el hervor de imágenes que se vuelven letra, signo, conjuro para que nadie olvide, más allá de las genealogías, la experiencia humana.

Asi llegamos al ajuste de cuentas, donde no hay edad para el dolor y la catarsis. Conmueve, sí, porque no es llanto y alarido, sino pasión que se comparte, voz que canta su destino, su verdad. El poema “Reconocer” es un botón de muestra: “Llegó el momento de tomar/ mi pasado familiar/ roerlo entre dientes/ desgarrarlo con uñas/ abrirlo como lata de sardina/ para concluir como en noticia de periódico/ con dolorosa certeza:/ mi madre fue mujer golpeada.”

[José Ángel Leyva]

 

O espelho libertino, de Luiz Pacheco3. O espelho libertino, de Luiz Pacheco. Organização de Floriano Martins. Coleção Ponte Velha. Escrituras Editora. São Paulo. 2007. Contato: fatima.nasc@escrituras.com.br.

A Escrituras Editora, dentro da Coleção Ponte Velha, edição apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB), publica O espelho libertino, de Luiz Pacheco, com prólogo de Maria Estela Guedes e ilustrações de Hélio Rôla.

Esta obra mescla textos que tão bem caracterizam a interferência de Luiz Pacheco na Literatura Portuguesa, mesclando gêneros que assinalam a essência da crítica deste voraz libertino, que descrê na moral, principalmente no que ela tem de amparo para justificar a barbárie. Some-se a isto a agudeza com que Pacheco sempre tratou dos temas a seu dispor, uma leitura cortante de atores e circunstâncias viscerais.

Pacheco sempre conviveu com suas ambições, com seus erros e acertos. Longe dele a idéia de ser um exemplo. Está bem mais para um antiexemplo, considerando a hipocrisia que denuncia com seus textos, a penetrante leitura que faz de assuntos que envolvem, sobretudo, o temperamento do intelectual português. Há sempre um tom de manifesto ou mesmo de escracho em tudo que escreve, como se a todo instante buscasse desmascarar situações veladas. Caberá ao leitor ir se aproximando da torrencialidade da escrita de Luiz Pacheco, de sua sinceridade caudalosa,percebendo nesta aproximação que não se trata do discurso de um meramente descontente ou de um frustrado, mas antes se trata da indignação sempre a postos, de alguém que expõe com exímia lucidez as entranhas agonizantes de uma época.

Luiz Pacheco (Portugal, 1925-2007) é autor de mais de 40 livros, publicados ao longo de quase 50 anos de Literatura. Seus textos foram publicados em diversos veículos de comunicação portugueses, entre eles os jornais Expresso, Diário de Notícias e Correio da Manhã, as revistas Kapa e Visão, além de sites especializados em Literatura.

 

Palavras secretas, de Maria Teresa Horta4. Palavras secretas, de Maria Teresa Horta. Organização de Floriano Martins. Coleção Ponte Velha. Escrituras Editora. São Paulo. 2007. Contato: fatima.nasc@escrituras.com.br.

A Escrituras Editora, dentro da Coleção Ponte Velha, edição apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB), publica Palavras secretas, de Maria Teresa Horta e ilustrações de Siegbert Franklin.

Quando escreve, Maria Teresa Horta não busca interlocutor. A poesia pura e simplesmente brota como o cristal de rocha na parede de uma gruta. Algo que ela não controla nem pretende controlar nessa viagem pelo interior dela mesma. E nessa medida, sem dúvida, pelo interior da essência feminina.

Maria Teresa defende que há sempre algo a mais atrás de qualquer tema, assim como há sempre uma nova inquietude e, no caso do erotismo particularmente, essa inquietude está sempre lá, embora a maior parte das vezes oculta. Quanto aos falsos pudores, esses continuam, infelizmente, quase tão fortes hoje como antes. Não deixa de ser curioso verificar que no Portugal pós 25 de Abril, onde a pornografia já é aceita e até mesmo procurada sem qualquer escândalo, sua poesia continua a incomodar!

Em sua poesia, o erótico reflete, fundamentalmente, a perenidade do corpo, enquanto lugar da natureza, da beleza, do contínuo florescimento do prazer; logo, refletindo a sua condição imanente. Mas, o fato dos meus poemas pouco ou nada terem a ver com o sagrado, não quer dizer que não se alimentem do mistério, não mergulhem na ambigüidade, não se entreguem ao fascínio da ambivalência, não sejam atraídos por aquilo que os transcende. Mas, sempre para tornarem a si próprios enquanto corpo terreno: o frágil e o fogo, o tudo e o nada, o voo e as raízes, num entrançamento enredado e infindável.

Maria Teresa Horta é poeta e narradora lisboeta, nascida em 1937. Comum uma vasta obra publicada, destacam-se títulos como Minha senhora de mim (1971), Educação sentimental (1975) e Les sorcières feiticeiras (Paris, 2006) – na poesia; Novas cartas portuguesas (1971), Cristina (1985) e A paixão segundo Constança H. (1994) – na narrativa. Organizou ainda uma importante antologia intitulada A mãe na Literatura Portuguesa (1999).

 

Por que se mete, porra? - Delicadezas de Paulo César Peréio (org. Lara Velho)5. Por que se mete, porra? - Delicadezas de Paulo César Peréio (org. Lara Velho). Editora do Bispo. Brasil, 2008. Visite: www.editoradobispo.com.br.

É o super-homem de Nietszche? Um romance? Um fabulário geral do hospício? As mitologias fragmentadas do discurso amoroso? Ficções de um hombre que vive sem medo da queda? Uma gaveta de abismos? A arte do mal-dizer? Retrato do artista enquanto Campos Viejo? Assombrações para encorajar os covardes? Que porra é essa?, como ele mesmo diria, salivando o escárnio e a fome permanente de viver. Não adianta decifrar. Melhor jogar o taco sobre o pano cinza de la vida e pedir a conta.

Por que se mete, porra? - Delicadezas de Paulo César Peréio” é um quebra-cabeças para crianças passionais que sabem que na vida, como sempre disse o protagonista destas páginas para seus próprios filhos e os seus chegados, É CADA VEZ MENOS.

Este livro é um homem gastando os ossos em intermináveis exercícios de nados no seco. Só os delicados e sensíveis... Porra, num explica, diria novamente ele, mirando a bola mais difícil. Mais uma ficha?

Tudo bem, só um rápido didatismo: tal livro-álbum é o Peréio fora de cena, fora da fita, fora da marcação escrota da tal arte, o artista cagando para a obra e vice-versa. O cara que escreve fábulas como quem joga sinuca na madrugada da Liberdade e da Augusta.

Uma biografia guardada como velhas fotos numa caixa de sapato dum armário edipiano perdido. E se dói, mais um uísque caubói!

“Peréio, eu te odeio”, como no título do filme do Allan Sieber, que vem por aí, que venga! Peréio, o amor e o ódio, nunca alguma coisa de intermédio, pilar da ponte do tédio entre um e o outro, como no poema que recita na noite, à beira dos buracos da existência, salve salve Sá-Carneiro! Merda no amor, azar na sinuca, cadê aquela linda moça?

E o cara perde a moça de vista, É CADA VEZ MENOS, garoto, e vai compondo tangos e assobiando desesperos na longa viagem ao fim da noite, assim como passarinho que caga sobre as folhinhas do calendário, agora a bola mais difícil, a bola escondida, viver é sinucar-se ao infinitum, foda-se.

Que venham os Turdos para o embate sobre o pano cinza da consciência, como na fábula pós-Calvino que Peréio escreve neste livro. Que venham as mulheres sem ossos, as lindas invertebradas de outra fábula deste volume que ora cresce em vossas mãos sujas. Giz no taco, bola em diagonal, raspando a bola inimiga!

E quando chegou o catatau do Peréio na editora, aquela epopéia avulsa, coisa de um Homero que gamou mas também tirou onda com sereias ullyssianas, um carregamento de achados e perdidos, cartas, cartões, contêineres de amores e dolores, cantos malditos de guardanapos e vômitos, olhamos assim um para o outro, os nobres editores dessa saga, e dissemos, com inocentes balõezinhos crumbianos: “Fudeu!” Como é que vamos fazer desse caminhão de mudança um livro? Ô dom Palmério, nos acuda!

“Foi como montar um quebra-cabeças sem imagem pra copiar - olhar, sei lá...”, diz Pinky Wainer, a autora da façanha de fazer dos guardados desse grande homem um grande livro. Sem essa de o homem, o mito, a lenda viva. Peréio tira onda também disso tudo. Nós bebemos, não temos esses problemas de nos auto-esculhambarmos sob o mesmo teto da taberna. Mas pelo menos que tenha uma sinuca. Pra gente se entretrer com os buracos da existência. Garçom!, o uísque e o seu duplo, como sempre, muito gelo, muito gelo, copo longo, mas sem metáforas, faz favor!

[Xico Sá]

 

Perspectivas sobre Agostinho da Silva na imprensa portuguesa, de Renato Epifânio6. Perspectivas sobre Agostinho da Silva na imprensa portuguesa, de Renato Epifânio. Zéfiro – Edições e Actividades Culturais. www.zefiro.pt - zefiro@zefiro.pt.

Nesta obra procura-se reconstituir a forma como Agostinho da Silva foi sendo retratado na Imprensa Portuguesa, desde o seu despontar intelectual enquanto jovem até à data da sua morte e para além dela: as Comemorações do Centenário do seu nascimento – reconstituindo as "sete vidas" de Agostinho da Silva.

“O presente livro de Renato Epifânio ocupa um lugar natural e importante nos estudos agostinianos e no processo ainda em curso das comemorações do centenário do nascimento de Agostinho da Silva. Na verdade, Perspectivas Sobre Agostinho da Silva na Imprensa Portuguesa funciona como um espelho de conjunto dos múltiplos espelhos diferenciados que o Professor teve da sua actividade e obra ao longo da vida e após ela.”

Paulo Borges [in Prefácio, A oitava vida de Agostinho]

Renato Epifânio é Membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e da Direcção da Associação Agostinho da Silva; Secretário-Executivo da Comissão das Comemorações do seu Centenário; investigador na área da "Filosofia em Portugal", com dezenas de estudos publicados. Tem Licenciatura e Mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; doutorou-se, na mesma Faculdade, com a dissertação Fundamentos e Firmamentos do pensamento português contemporâneo: uma perspectiva a partir da visão de José Marinho (IN-CM, no prelo). É autor das obras Visões de Agostinho da Silva (Zéfiro, 2006), A Via Aberta do Pensamento Português Contemporâneo (Zéfiro, no prelo) e Repertório da Bibliografia Filosófica Portuguesa (Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2007), já em parte publicado na Philosophica, Revista do Departamento de Filosofia da F.L.U.L. Partilha, com Paulo Borges e Celeste Natário, a Direcção da Revista Nova Águia, sendo o Director da colecção com o mesmo nome na Zéfiro. Faz ainda parte da Comissão Coordenadora do MIL: Movimento Internacional Lusófono.

 

Convergencia y contratiempo, de Miguel Ángel Muñoz8. Convergencia y contratiempo, de Miguel Ángel Muñoz. CONACULTA/FONCA. México. 2007. Contacto: miguelamunozpalos@prodigy.net.mx.

Lejano me resulta ya, el primer libro de Miguel Ángel Muñoz, un breve conjunto de textos que dedicaba a veinte pintores de su país, México. Poeta, historiador y  crítico de arte, he visto ante mis ojos dibujarse una figura intelectual de primera magnitud, no sólo en su  país, sino también ya en España, y cuyo trabajo alcanza una inusual coherencia concebido como una estricta indagación sobre la palabra creadora.

Leyendo a Muñoz, como a todos los futuros escritores, se descubre más bien que el poeta no se enfrenta a una opción entre inspirar su  discurso poético en las artes plásticas y la poesía pura, como si fueran dos posibilidades ya preexistentes, sino que sólo puede elevarse hasta su propia condición elaborando, creando en su palabra una inmediatez que nunca está dada en una  experiencia visual, sino que debe ser transmutada en verbo en las manos del artista, así como tampoco puede descender hacia una  profundidad prefabricada, sino fabricarla con el humilde material de su voz, y el sufrimiento y la alegría que la modulan.

Muñoz no se desplaza hacia un supuesto círculo hermético que estuviera ya disponible, sino que es un ejercicio de maduración literaria, visual y vital, que ha ido construyendo poco a poco ese espacio que hoy reconocemos como suyo, pero que no existía antes de su esfuerzo en los poetas jóvenes que conozco, ese espacio gracias al cual podemos sentir las voces de San Juan de la Cruz o Miguel de Molinos en un castellano asediado por la usura de la actualidad. Sólo el lenguaje puede, en efecto, ofrecernos un alimento distinto de esa actualidad que nos entrega, es decir, un pasado y un futuro. Y Muñoz ha llevado a cabo esta lenta maduración desde la indiscutible lucidez que caracterizaba  ya sus primeros poemas. Ya había en ellos un tema primordial: la pintura. Trazos, líneas y signos poblaban esos primeros versos. Pero lo hacían, con la densidad con que escuchamos ahora su otra voz, la palabra que siempre llega a los poetas: madurez.

En esa maduración siempre he considerado que la claridad es el gran objetivo de la poesía y de la crítica de arte. Primer gran principio que Miguel Ángel Muñoz define en sus ensayos sobre pintura. El lector de Muñoz encuentra en su prosa poética un mundo coherente, singularizado, en el que se respira una luz, una manera plástica de ver las cosas, vivirlas y contarlas. Aunque siempre hay un elemento reincidente que asegura el diseño acoplado de este territorio personal. Como su lector he apreciado un comportamiento único en sus poemas, una disciplina apoyada en las posibilidades de dos características concretas: la pintura y el lenguaje.

El lenguaje expone el modo de entender la pintura, y una cierta entidad concreta. La poesía es cruce y conexión que hay entre la experiencia del   autor y sus lectores. El protagonista poético se modela como respuesta a la pintura observada, y nace como lugar de condensación, como escena de encuentro de unas reacciones ante el mundo, que son personales, pero que siempre tienen que ver con la pasión por la pintura.

Ha divagado Miguel Angel Muñoz, con pasión y emoción, en nuevas vías para acceder a los abismos de la conciencia y a la  obra pictórica de múltiples pintores con los que ha trabajado su poesía: Eduardo Chillida, Esteban Vicente, Antoni Tàpies, Abert Ràfols-Casamada, Josep Guinovart, Rafael Canogar, Roberto Matta, Francesco Clemente, Francesc Torres y el mexicano  Ricardo Martínez.  Estos son los artistas con que Muñoz ha creado un diálogo  personal, una unidad artística inédita. Siempre hacia delante, pero con los sentidos abiertos, acariciándolo todo, grabándolo todo en la memoria, preocupado por una razón  concreta, llena de pintura, nostalgia y deseo.

Creo que son pocos los jóvenes escritores que han fijado su radicalidad en entender la pintura a través de la poesía. Lo ha logrado con una progresiva depuración que desemboca en una poética-pictórica, en un lenguaje que permite escuchar no sólo la carne de las palabras, sino también la purificación de las imágenes. Así, ofrece al lector una morada de luz y una razón que él mismo quiere descubrir, palabra sobre palabra: “Palabras que encierran paisajes,/ presión de metáforas;/ cuerpo inmaterial que/ sangra el umbral del lenguaje…”.

[José Hierro]


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