revista de cultura # 61
fortaleza, são paulo -
janeiro/fevereiro de 2008






 

O jogo da vida em Lyn Hejinian

Mauricio Salles Vasconcelos

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Lyn HejinianAutora de uma obra extensa e essencial ao panorama da poesia norte-americana contemporânea, Lyn Hejinian é conhecida, sobretudo, por My Life (Copenhague & Los Angeles: Green Integer, 2002), um pequeno “clássico” adotado em escolas, admirado, especialmente, por sua peculiar composição autobiográfica, organizada em 45 blocos referentes a cada um dos anos de uma vida. À medida que são reconhecidas pelo leitor as marcas típicas de cada uma das idades, registram-se, em My Life, anotações-eventos extemporâneas, causando a quebra do falso efeito de englobamento contido no livro da vida. Tudo se dá por força de uma mobilidade de elementos, temas e frases que se repetem e se recriam de um extremo a outro de sua leitura, não cessando de sobrepor referências à continuidade da vida que “se conta” (em mais de uma direção, e para fora da órbita de uma simples sucessão).

Felipe EhrenbergSurpreende na leitura do livro a forma como a poeta reconstrói sua biografia, contando com o substrato da cultura ready-made, do livro de confissão, de experiência totalizada. Da cultura, mesmo, do livro, tomado como documento em partilha, legado em palavra, através de um projeto testemunhal transparente, criado numa única, particular via. A contar de uma autoria. Na linha do tempo.

Discernível se mostra, nos 45 blocos compactados, precedidos sempre por um aforismo ou sentença poética, a presença interveniente do autor, compreendido como montador de uma dinâmica de tempo que se afasta do estrito molde de cada uma das idades enfeixadas, de ano a ano, pelo livro. Em catalogação e cognição, a súmula possível dos anos de vida só pode se dispor por um jogo combinatório e parcelar. Se por um lado há o específico, o reconhecível no tempo captado em flashs impressivos, assimila-se na leitura do livro de Hejinian a simultaneidade das idades com a época presente de sua escrita, dependente essa, por sua vez, da retrospecção e da redistribuição dos signos de toda uma vida, resumida em uma possível primeira metade (45 anos), bem no meio de seu transcurso.

Como se pode ler nas seqüências iniciais do fragmento 2 de Minha Vida:

Você derrama açúcar quando ergue a colher. Meu pai encheu um velho vaso de farmácia com o que chamou de “vidros do mar”, lascas de garrafas velhas arredondadas e texturadas pelo mar, abundantes nas praias. Não existe s o l i d ã o. Isso acaba por se enterrar na veracidade. É como se alguém chapinhasse na água perdida dos próprios olhos. Minha mãe escalou a lata de lixo de modo a amassar o refugo acumulado, mas a lataria estava pouco equilibrada, e quando ela caiu quebrou o braço. Ela só podia aceitar, balançando o ombro. A família tinha pouco dinheiro, mas tinha um bocado de comida. No circo, somente os elefantes eram maiores do que tudo que eu podia imaginar. Pedra em forma de ovo de Colombo, paisagem e gramática. Ela queria algo onde o playground era terra, com grama, sombreado por uma árvore da qual pendia um pneu que era um balanço, e quando ela encontrou aquilo me colocou ali. Essas criaturas são compostas e nada do que fazem deve nos surpreender. [Como se dedicado a nós que “amamos ficar surpresos”]

Felipe EhrenbergA estrutura numérica de My Life, em sua formulação compacta, disposta em blocos de um único parágrafo, que são introduzidos por inserts conceituais, sob a forma de sentenças-chave, acaba por propiciar um plano – um suporte espacial para intervenções na idéia e na imagem do tempo. Quanto mais se lê o livro de Lyn Hejinian mais se torna próximo seu fundamento compósito. As recorrências ao passado, o registro do instante e as inquirições sobre o futuro são feitos em todos os fragmentos, acontecendo no mesmo ato, sem hierarquizações.

Ao incursionar pelas conjunções cartográficas de uma vida em trabalho de memória e montagem – para se fazer menção ao título de um autor decisivo da atualidade poética, o português Herberto Helder –, Hejinian redesenha a noção de tempo, subjetividade e escrita autobiográfica. Não estranha o fato de que esse pequeno livro voltado para o raconto de cada um dos anos de uma vida (ela, L. H., é de 1941) tenha continuidade com My Life in the nineties/Minha vida nos anos 90 (2003). Tamanho é o poder de prospecção de um projeto construído sobre o misto paradoxal de efemeridade e emergência que funda cada vida.

 Curioso é perceber no projeto (desdobrado no livro de 2003) – a partir de um modelo, de uma codificação matemática preenchida pelo alinhamento dos motivos de uma existência – uma re-situação do transcurso do tempo, até os últimos anos do século XX, dentro da dinâmica de um mapeamento – com todo seu traçado genealógico – formado por anotações aparentemente concentradas em torno-de-si (do livro em que se lê Minha Vida). Associáveis a folhas na floresta (a autora cita Flaubert, em Minha vida nos anos 90), fragmentos frasais e sentenças se reúnem em blocos de uma progressão numérica, temporal, concebidos à maneira de compactos plástico-cinemáticos nos quais a simultaneidade de evocações e relações se processa como conhecimento do que é impessoal, a atravessar a proposição autográfica do texto. Nesse possível conjunto – floresta, matriz arbórea da imagem de totalidade – só se trava contato com a dimensão discursiva do autobiográfico como experiência extensiva a qualquer um em leitura, ao modo de um jogo lançado com o tempo e o espaço que o livro engloba.

No trabalho esmiuçador de retrospecções e recorrências, de um extremo a outro das idades aí enfeixadas, a idéia de evolução, assim como a síntese do tempo, inexistem. Muito antes, pulsa na leitura do “clássico contemporâneo” de L. H., a indagação constante acerca dos signos e dos saberes que formam uma única vida em uma extensão que é, simultaneamente, reiterativa e auto-dissolvente, pessoal e incognoscível.

Felipe EhrenbergFoi um tempo antes de eu entender o que tinha ocorrido entre as estrelas para que se formassem as constelações. Eles estavam em um restaurante pertencente a dinamarqueses. Agora que eu tinha “idade suficiente para tomar minhas decisões próprias”, me vestia à maneira de todo mundo. As pessoas devem adular seus próprios olhos com suas vidas patéticas. As coisas sobre as quais eu falava se seguiram logicamente às coisas que eu tinha dito antes, embora não suportassem nenhuma relação com o que eu estava pensando e sentindo. Houve uma vez um homem desonesto que rodava uma milha irregular – após isso ele escreveu, em um estilo torto característico do século XIX, uma prosa de ciência com sentenças cumulativas. O ideal era a propriedade americana, tal como ela a recebeu de um fazendeiro. O que inclui compra de romances policiais e coletes de armas. Eu estava mais terrificada com os agentes do FBI do que com os homens não especificados que seqüestraram, assassinaram e enterraram a garota da quinta série na colina detrás da escola. Uma pausa, uma rosa, alguma coisa no papel. Foi nesse tempo que meu pai me proviu com todas as frases corretas acerca da beleza e da maravilha dos livros. Gado de cor pastava para o lado da colina, na Califórnia, em grande quantidade de amarelo único, impossível de ser visto, dessa distância e a essa hora, em qualquer gradação de luz e sombra. Individualidade é animada por seu sentido de infinito. [Escrevi meu nome em cada um dos livros dele]

Percebe-se, em My Life, um multidirecionamento de trilhas enunciativas capaz de reencenar as perspectivas de um eu e das vertentes conceituais desbravadas pela escrita de poesia na cena do presente. Todas as linhas estão em pauta, das ocorrências micrológicas do cotidiano até o tracejamento do campo cognitivo que envolve poeta e poema: formação cultural (Hejinian é de origem russa), sexualidade, geografia, espiritualidade, as imagens e os ditos/escritos da arte, os aforismos da filosofia, os modos de convívio (família, conjuntos imobiliários, comunidades artísticas), meio-ambiente, arquitetura, escrita-de-si, tecnologia, cultura planetária. Por meio de minha vida está posta em inquirição e invenção (não mais entendida como a senha estrita das vanguardas históricas) a existência do poema agora, para além do embate e do enlace facilmente resumíveis entre primeira pessoa e a objetividade formal da linguagem.

Felipe EhrenbergRefletindo a respeito da grande receptividade alcançada pela obra junto à crítica e ao público, quando da segunda edição (1987) – algo que se deve à fusão de experimentalismo e comunicabilidade presente no livro –, Lisa Samuels, poeta e professora da Universidade da Virginia, argumenta que sua presença no cânone da poesia norte-americana pós-moderna se deve, entre muitas razões, pelo poder simultâneo de síntese e expansão obtido por sua linguagem. É como se a “autografia” – como a estudiosa opta por defini-la – elaborada por Hejinian possuísse uma rara gradação conceitual e cognitiva, capaz de especular sobre o decurso de uma vida no mesmo instante em que apreende os processos mais intricados da imaginação poética e daqueles relativos à passagem do tempo. Um projeto que trabalha tanto a construtividade, visível na formulação de seus blocos de prosa poemática, quanto o que Samuels define como felicidade da invenção na revisitação a cada um dos anos de uma vida em captura e continuidade.

Não por acaso, à altura do 34º bloco de Minha Vida, Hejinian pode grafar:

Atrás e para trás, porque, amplo e a mais. De tal modo esta arte é inseparável da busca de realidade. O continente é maior do que o conteúdo. Um rio enreda a península.

Mauricio Salles Vasconcelos (Brasil, 1956). Poeta e ensaísta. Autor de livros como Sonos curtos (poesia, 1992), Rimbaud da América e outras iluminações (ensaios, 2000), e Stereo (ficções, 2002). Contato: vasconcelosmauricio@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Felipe Ehrenberg (México).

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