Autora
de uma obra extensa e essencial ao panorama da poesia norte-americana
contemporânea, Lyn Hejinian é conhecida, sobretudo, por My Life
(Copenhague & Los Angeles: Green Integer, 2002), um pequeno “clássico”
adotado em escolas, admirado, especialmente, por sua peculiar composição
autobiográfica, organizada em 45 blocos referentes a cada um dos anos de
uma vida.
À medida
que são reconhecidas pelo leitor as marcas típicas de cada uma das
idades, registram-se, em My Life, anotações-eventos
extemporâneas, causando a quebra do falso efeito de englobamento contido
no
livro da
vida.
Tudo se dá
por força de uma mobilidade de elementos, temas e frases que se
repetem e se recriam de um extremo a outro de sua leitura, não cessando
de sobrepor referências à continuidade da vida que “se conta” (em mais
de uma direção, e para fora da órbita de uma simples sucessão).
Surpreende na
leitura do livro a
forma como a poeta reconstrói sua biografia, contando com o substrato da
cultura
ready-made,
do livro de confissão, de experiência totalizada. Da cultura, mesmo, do
livro, tomado como documento em partilha, legado em palavra, através de
um projeto testemunhal transparente, criado numa única, particular via.
A contar de uma autoria. Na linha do tempo.
Discernível se
mostra, nos 45 blocos compactados, precedidos sempre por um aforismo ou
sentença poética, a presença interveniente do autor, compreendido como
montador de uma dinâmica de tempo que se afasta do estrito molde de cada
uma das idades enfeixadas, de ano a ano, pelo livro.
Em
catalogação e cognição, a súmula possível dos
anos de
vida
só pode se dispor por um jogo combinatório e parcelar. Se por um lado há
o específico, o reconhecível no tempo captado em
flashs
impressivos, assimila-se na leitura do livro de Hejinian a
simultaneidade das idades com a época presente de sua escrita,
dependente essa, por sua vez, da retrospecção e da redistribuição dos
signos de toda uma vida, resumida em uma possível primeira metade (45
anos), bem no meio de seu transcurso.
Como se pode ler
nas seqüências iniciais do fragmento 2 de Minha Vida:
Você derrama
açúcar quando
ergue a
colher. Meu pai encheu um velho vaso de farmácia com o que chamou de
“vidros do mar”, lascas de garrafas velhas arredondadas e texturadas
pelo mar, abundantes nas praias. Não existe s o l i d ã o. Isso acaba
por se enterrar
na
veracidade. É como se alguém chapinhasse na água
perdida dos
próprios olhos. Minha mãe escalou a lata de lixo de modo a amassar o
refugo acumulado, mas a
lataria
estava pouco equilibrada, e quando ela caiu quebrou o braço. Ela só
podia aceitar, balançando o ombro. A família tinha pouco dinheiro, mas
tinha um
bocado de
comida. No circo, somente os elefantes eram
maiores do
que tudo que eu podia imaginar. Pedra em forma de ovo
de Colombo,
paisagem e gramática. Ela queria
algo onde o
playground era terra, com grama, sombreado por uma árvore da qual pendia
um pneu que era um balanço, e quando ela encontrou aquilo me colocou
ali. Essas criaturas são compostas e nada do que fazem deve nos
surpreender.
[Como se dedicado
a nós que “amamos ficar surpresos”]
A estrutura
numérica de My Life, em sua formulação compacta, disposta em
blocos de um único parágrafo, que são introduzidos por inserts
conceituais, sob a forma de sentenças-chave, acaba por propiciar um
plano – um suporte espacial para intervenções na idéia e na imagem
do tempo. Quanto mais se lê o livro de Lyn Hejinian mais se torna
próximo seu fundamento compósito. As recorrências ao passado, o registro
do instante e as inquirições sobre o futuro são feitos em todos os
fragmentos, acontecendo no mesmo ato, sem hierarquizações.
Ao incursionar
pelas conjunções cartográficas de uma vida em trabalho de memória e
montagem – para se fazer menção ao título de um autor decisivo da
atualidade poética, o português Herberto Helder –, Hejinian
redesenha a noção
de tempo, subjetividade e escrita autobiográfica. Não estranha o fato de
que esse pequeno livro voltado para o raconto de cada um dos anos
de uma vida (ela, L. H., é de 1941) tenha continuidade com My Life in
the nineties/Minha vida nos anos 90 (2003). Tamanho é o poder de
prospecção de um projeto construído sobre o misto paradoxal de
efemeridade e emergência que funda cada vida.
Curioso é
perceber no projeto (desdobrado no livro de 2003) – a partir de um
modelo, de uma codificação matemática preenchida pelo alinhamento dos
motivos de uma existência – uma re-situação do transcurso do tempo, até
os últimos anos do século XX, dentro da dinâmica de um mapeamento – com
todo seu traçado genealógico – formado por anotações aparentemente
concentradas em torno-de-si (do livro em que se lê Minha Vida).
Associáveis a folhas na floresta (a autora cita Flaubert, em
Minha vida nos anos 90), fragmentos frasais e sentenças se reúnem em
blocos de uma progressão numérica, temporal, concebidos à maneira de
compactos plástico-cinemáticos nos quais a simultaneidade de evocações e
relações se processa como conhecimento do que é impessoal, a atravessar
a proposição autográfica do texto. Nesse possível conjunto – floresta,
matriz arbórea da imagem de totalidade – só se trava contato com a
dimensão discursiva do autobiográfico como experiência extensiva a
qualquer um em leitura, ao modo de um jogo lançado com o tempo e o
espaço que o livro engloba.
No trabalho
esmiuçador de retrospecções e recorrências, de um extremo a outro das
idades aí enfeixadas, a idéia de evolução, assim como a síntese do
tempo, inexistem. Muito antes, pulsa na leitura do “clássico
contemporâneo” de L. H., a indagação constante acerca dos signos e dos
saberes que formam uma única vida em uma extensão que é,
simultaneamente, reiterativa e auto-dissolvente, pessoal e
incognoscível.
Foi um tempo
antes de eu entender o que tinha ocorrido entre as estrelas para que se
formassem as constelações. Eles estavam em um restaurante pertencente a
dinamarqueses. Agora que eu tinha “idade suficiente para tomar minhas
decisões próprias”, me vestia à maneira de todo mundo. As pessoas devem
adular seus próprios olhos com suas vidas patéticas. As coisas sobre as
quais eu falava se seguiram logicamente às coisas que eu tinha dito
antes, embora não suportassem nenhuma relação com o que eu estava
pensando e sentindo. Houve uma vez um homem desonesto que rodava uma
milha irregular – após isso ele escreveu, em um estilo torto
característico do século XIX, uma prosa de ciência com sentenças
cumulativas. O ideal era a propriedade americana, tal como ela a recebeu
de um fazendeiro. O que inclui compra de romances policiais e coletes de
armas. Eu estava mais terrificada com os agentes do FBI do que com os
homens não especificados que seqüestraram, assassinaram e enterraram a
garota da quinta série na colina detrás da escola. Uma pausa, uma rosa,
alguma coisa no papel. Foi nesse tempo que meu pai me proviu com todas
as frases corretas acerca da beleza e da maravilha dos livros. Gado de
cor pastava para o lado da colina, na Califórnia, em grande quantidade
de amarelo único, impossível de ser visto, dessa distância e a essa
hora, em qualquer gradação de luz e sombra. Individualidade é animada
por seu sentido de infinito.
[Escrevi meu nome
em cada um dos livros dele]
Percebe-se, em
My Life, um multidirecionamento de trilhas enunciativas capaz de
reencenar as perspectivas de um eu e das vertentes conceituais
desbravadas pela escrita de poesia na cena do presente. Todas as linhas
estão em pauta, das ocorrências micrológicas do cotidiano até o
tracejamento do campo cognitivo que envolve poeta e poema: formação
cultural (Hejinian é de origem russa), sexualidade, geografia,
espiritualidade, as imagens e os ditos/escritos da arte, os aforismos da
filosofia, os modos de convívio (família, conjuntos imobiliários,
comunidades artísticas), meio-ambiente, arquitetura, escrita-de-si,
tecnologia, cultura planetária. Por meio de minha vida está posta
em inquirição e invenção (não mais entendida como a senha estrita das
vanguardas históricas) a existência do poema agora, para além do embate
e do enlace facilmente resumíveis entre primeira pessoa e a objetividade
formal da linguagem.
Refletindo a
respeito da grande receptividade alcançada pela obra junto à crítica e
ao público, quando da segunda edição (1987) – algo que se deve à fusão
de experimentalismo e comunicabilidade presente no livro –, Lisa Samuels,
poeta e professora da Universidade da Virginia, argumenta que sua
presença no cânone da poesia norte-americana pós-moderna se deve, entre
muitas razões, pelo poder simultâneo de síntese e expansão obtido por
sua linguagem. É como se a “autografia” – como a estudiosa opta por
defini-la – elaborada por Hejinian possuísse uma rara gradação
conceitual e cognitiva, capaz de especular sobre o decurso de uma vida
no mesmo instante em que apreende os processos mais intricados da
imaginação poética e daqueles relativos à passagem do tempo. Um projeto
que trabalha tanto a construtividade, visível na formulação de seus
blocos de prosa poemática, quanto o que Samuels define como
felicidade da invenção na revisitação a cada um dos anos de uma vida
em captura e continuidade.
Não por acaso, à
altura do 34º bloco de Minha Vida, Hejinian pode grafar:
Atrás e para
trás, porque, amplo e a mais. De tal modo esta arte é inseparável da
busca de realidade. O continente é maior do que o conteúdo. Um rio
enreda a península.