Felipe Ehrenberg Felipe Ehrenberg
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revista de cultura # 61
fortaleza, são paulo - janeiro/fevereiro de 2008

Felipe Ehrenberg

editorial

Para que o futuro creia em si mesmo

Um dos editores da Agulha acaba de regressar de uma temporada de 50 dias na Austrália, retorno que coincide com a entrada da revista em seu oitavo ano de ininterrupta aventura editorial. Preciosa condição a de livre observador de realidades, que permite comparações não manchadas por vícios maniqueístas. Os leitores da revista percebem este valor ao acompanhar o elenco de matérias e colaboradores até aqui publicados. De igual nascente as manifestações da revista através de seus editoriais. Há muito mais do que cangurus e coalas na Austrália, da mesma maneira como Brasil não se limita a carnaval e futebol.

A grave sintonia existente no Brasil entre corrupção e administração pública sugere pensar que nossa forma de governo é o anarquismo. A maneira como está organizada a sociedade australiana sugere alguma forma de autoritarismo. A rigor, se observado em seus meandros, a sociedade brasileira é essencialmente corrupta, assim como na Austrália se pode falar em uma quase obsessão pela organização. Seria quando menos constrangedor para os brasileiros pensarem que não conseguem sobreviver sem a corrupção. Então não cabe pensar que a organização seja uma forma insubornável de se manter o padrão social que se verifica na Austrália.

Os dois modelos são bastante funcionais nos dois países. Será bastante pensar em um pequeno suborno ou em uma mínima regra de comportamento social. É bem simples: a organização soma, enquanto que a corrupção subtrai. A organização leva a Austrália a ter um zelo por sua história, a cuidar de seu passado com uma atenção que para muitos pode parecer exagerada. A corrupção nos leva a perder a dimensão da história, anulando uma indispensável visão crítica do mundo. É como aquele princípio da guerra, onde não há vencedores. A corrupção nos torna a todos vítimas de sua ilusão. Evidente que tanto pode haver uma corrupção organizada quanto uma organização corrupta. Porém não chegamos até aqui para encerrar o tema sob efeito de um sofisma. Há um vultoso dicionário de eufemismos que define a precariedade existencial que tem configurado o mapa das sociedades contemporâneas. Tampouco adianta buscar evidências no aspecto religioso. Ao longo da história as religiões acumulam tantos saldos violentos quanto as ideologias. Há um ambíguo sentido organizacional e corrupto nas duas vertentes.

A filosofia aqui pode complicar a leitura. Um exemplo bem concreto facilita o tema: um bairro em Sidney, na Austrália, possui um museu dedicado à memória daquela região. Museu de bairro: The Rocks Discovery Museum: www.rocksdiscoverymuseum.com, para os que quiserem visitá-lo pela Internet. Ali notamos o carinhoso apreço por uma torneira velha. No Brasil facilmente isto seria entendido como bairrismo. A história de um país está configurada a partir de seus bairros, de suas pequenas células sociais. De seu sentido de organização e preservação. Evidente que podemos elevar a torneira velha à categoria de um estrelato kitsch. Tudo aquilo que entendemos por cultura de massas já revelou seu espírito corrosivo da essencialidade cultural intrínseca de cada pequena região, o conceito poético da aldeia. Não há como curar-se da ação das grandes redes de mercado internacional. Qualquer reação implica em atividade terrorista. A sociedade de consumo sabe proteger-se e estabeleceu suas regras de tal maneira a definir-se como uma nova moral mundial. O mundo tornou-se perigosamente igual sob muitos aspectos. Porém os conceitos de organização e corrupção permitem ainda uma leitura eficaz de nossos destinos.

Talvez a equação mais complexa a ser proposta a uma mesa de excelências seja: organizar a sociedade brasileira. Como convencer a uma sociedade que é insuficiente gostar de si mesma se não age em tal sentido; que é indispensável criar uma fortuna crítica de seus valores, conhecer e reconhecer o outro, misturar-se à multidão cultural sem perder o apreço por seus sinais ulteriores? Não adianta ecoar outdoors e jingles institucionais como se o tema fosse assunto unicamente da área das campanhas publicitárias. Cabe recordar que a Austrália foi originalmente uma colônia penal e o Brasil uma rota de fuga. Antípodas que se tocam em algum momento. Porém distinguidos por este duplo conceito aqui evocado: organização e corrupção. É fundamental observar qual o comportamento do Estado diante disto. No Brasil, o Estado é alheio à história, adepto irresponsável da teoria do caos lida em gibis ordinários, e se digladia entre si (os menos corruptos contra os mais corruptos), tatuado pela cultura fashion que sabe com astúcia eliminar a potencialidade do trivial, do cotidiano, da expressão espontânea.

Por efeito perverso de um jogo de linguagem, podemos dizer que organização e corrupção são indissociáveis. Contudo, a despeito de qualquer artifício, Agulha entra em seu oitavo ano bem organizada e livre de qualquer vestígio de corrupção. Por seu acervo de matérias há passado um elenco valioso de leituras de temas vinculados aos aspectos aqui referidos. Obrigado a todos, reforçando nossa cumplicidade e acreditando (ainda) em um futuro melhor.

 

Os editores

Felipe Ehrenberg

sumário

1 a bordo da pintura. diálogo entre sérgio lucena e floriano martins
2 bilingüismo y el registro matemático aymara. boris handal
3 el graffiti: diálogo roto, posibilidad infinita. benjamin gonzález

4
fundación editorial el perro y la rana y la fuerza humanística de la poesía. diálogo entre miguel márquez e floriano martins
5
guillermo fernández: "la aventura humana todavía tiene sentido" (entrevista). alfonso peña
6
la música del pacífico colombiano. germán patiño
7
literatura e jornalismo: marcos faerman. claudio willer
8
moacir amâncio: desafios da poesia (entrevista). álvaro alves de faria
9
o jogo da vida em lyn hejinian. mauricio salles vasconcelos 
10
para ler em voz alta: como se fosse um prefácio. diálogo entre claudio willer e floriano martins
11
rodolfo kronfle chambers: una curaduría en estado puro (entrevista). aleyda quevedo rojas
12
sérgio buarque de holanda e raízes do brasil: a origem de um clássico. luís estrela de matos
13
símbolos torcitários: modus operandi da máquina abstrata muriliana - a faca, a tesoura, o olhar. daniela bunn
14
ulises estrella: el poeta y su mundo. marco antonio rodríguez
15
william burroughs: huésped en el espejo. carlos bedoya

artista convidado felipe ehrenberg [vária, texto de fernando llanos]
resenhas livros da agulha
alfredo hlito [por rodolfo alonso] carlos garcia de castro  claudio willer [por alfonso chase] germán patino ossa  joaquim estevez da guarda [por luiz roberto guedes] josé do carmo francisco  macarena barahona [por alfonso chase] maria estela guedes  saul dias  tomas saraví [por alfonso chase]
música discos da agulha britta persson [por andré assis] cat power [por andré assis] gerardo alfonso [por gerardo alfonso] grupo bahía trio [por germán patiño] maia hirasawa [por andré assis] mário montaut & floriano martins [por mário montaut] marta valdés [por marta valdés] miriam ramos [por nancy morejón & miriam ramos] mary timony [por andré assis]
poesia
banda hispânica
cumplicidade 1 galeria de revistas  
cumplicidade 2
galeria de manifestos  
cumplicidade 3
galeria de arte

Felipe Ehrenberg

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
todos os colaboradores

artista plástico convidado (vária)
felipe ehrenberg

apoio cultural
jornal de poesia

traduções
éclair antonio almeida filho [inglês, francês
ð português]
marta spagnuolo [português ð espanhol]
floriano martins [espanhol
ð português]

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