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editorial
O BRASIL QUE TEMOS E O QUE NÃO QUEREMOS
Costuras,
enlaces, intercâmbios culturais, em épocas e ambientes geográficos
distintos, sempre foram enormemente facilitados e em muitos casos de
maneira isolada pelas revistas literárias e revistas de cultura. São
mecanismos comprovadamente eficazes nas aproximações de ambientes que
até então se desconheciam. A seu lado, com menor freqüência, porém com
acentuada influência, encontram-se antologias e compilações. Atuando nos
dois casos e também ampliando este mapa de uma generosidade (não é outra
a matriz desta avizinhação, deste reconhecimento do outro em si mesmo)
apresentam-se os tradutores. Em último termo, é através da leitura e
consequentemente do livro, da publicação periódica, impressa ou virtual,
que os povos se conhecem e reconhecem entre si.
Essas ações, que em muitos casos são gestos solitários,
além de solidários, por vezes se chocam com interesses de classes
dominantes, o que inclui tanto o autismo de governos que supõem
limitar-se ao plano econômico todos os matizes que caracterizam a
essência humana quanto os mecanismos até certa medida pérfidos (ou
radicalmente pérfidos) de uma ala da grande imprensa que ainda vê nos
despojos ideológicos uma maneira de afirmar sua incapacidade de aceitar
o mundo a tentar refazer-se de um amplo saldo de restrições onde ela
também ocupa relativa parcela de responsabilidade. A rigor, o mundo (até
onde existe, apesar das distâncias encurtadas pela tecnologia) carece de
vida própria, aos olhos desta imprensa, que trata de camuflá-lo com
variáveis quase imperceptíveis, de viciá-lo em enfadonhos
lugares-comuns, de induzir-lhe fórmulas de apreensão da realidade,
anulando assim a capacidade de percepção, o diferencial entre
indivíduos, povos e culturas.
Pode-se dizer que sejam antagônicos os desempenhos, em
linhas gerais, de revistas, compilações, tradutores, de um lado, e
governos e grande imprensa de outro. Como não estamos em um campo de
batalha, não é nada agradável ou cômoda tal constatação. Não nos
interessa a ninguém, em circunstância alguma, manter a tônica do assunto
situada na afinação de instrumentos bélicos, na confirmação de um
princípio conflituoso. Deve ser outra a reação a ser esboçada em nosso
tempo. Velhos maquinismos aplicados à discórdia perene não devem mais
ser aceitos entre nós. Há que entender que as mudanças terão
obrigatoriamente que implicar em um gesto crítico de observação atenta à
capacidade de cada parte envolvida reconhecer sua função valiosa dentro
de uma remoção de vícios.
Difícil panorama a ser revisto, sobretudo em um país como o
Brasil, que sempre foi um completo ausente no que se possa referir a um
diálogo, de qualquer ordem, com o que lhe é exterior e, pior, interior.
A nossa vergonha de aceitar o que somos nos levou sempre a inventar um
mundo pleno de fantasias, idealizando um ambiente internacional no qual
éramos aceitos de forma mágica, código delirante acentuado pelo futebol,
o carnaval e o esplendor inexplicavelmente inatingível de uma cultura
que continua forjando magnitudes estéticas de assustadora grandeza.
Claro que já não percebemos, a olhos cegos pela grande imprensa, onde
dormem essas pedras mágicas contemporâneas, quase todas banidas de um
cânone vorazmente mundano e exibicionista.
A cena política, por exemplo, contamina toda e qualquer
possibilidade de diálogo com a cultura hispano-americana. Há uma
presunção mirabolante da parte do intelectual brasileiro de sentir-se
superior ao ambiente cultural que lhe é vizinho. A grande imprensa
explora este nosso complexo e agita a tensão velhaca dessa polaridade.
Assim eliminamos, por exemplo, qualquer possibilidade de aceitar vida
cultural substantiva, historicamente consolidada, participante ativa de
todos os processos artísticos, em países como Cuba, Bolívia e Venezuela.
Os hermanos – termo vulgar e desrespeitoso com que até mesmo
escritores brasileiros tratam seus pares vizinhos de língua espanhola –
são recebidos no Brasil por uma contingência do mercado editorial
internacional (sobremaneira pela entrada no país de grupos editoriais
espanhóis). Não são seus autores mais expressivos (e mesmo os que são
ali não estão por esta razão) e sim aqueles que seguem uma maquiavélica
cartilha estética que restringe a códigos mínimos de gênero e estilo o
aceitável em termos literários.
Exemplos desta ausência de diálogo acobertada por um
diálogo de mídia é possível localizar nos espaços de média e grande
imprensa dedicados à literatura hispano-americana, e nas festas
literárias, eventos que funcionam ecologicamente como simbiontes,
organismos que tomam parte em uma simbiose, que se apropriam dela, uma
forma de violação de um processo de mudança. Caso a imprensa (de
qualquer porte) se desse ao trabalho de indagar dos autores convidados
para tais eventos como se sentem participando de um processo declarado
de aproximação cultural, seguramente a resposta apontaria para um
mal-estar muito grande, um desencanto, uma surpresa angustiante,
considerando a expectativa imensa, a felicidade intensa e indisfarçável,
da parte de todos eles de virem ao Brasil. No entanto, aqui são tratados
com alheamento, exceção dada às carrancas de proa do ambiente de
livro-mercado internacional.
As distinções traçadas pela curadoria desses eventos ou
pela cartilha de imprensa dos periódicos são todas de ordem
mercadológica (em alguns casos até bem determinadas por uma limitação
política), e não abrangem, em circunstância alguma, como elemento
decisivo, o ambiente estético, a valoração autoral, e menos ainda se
mostram interessadas em estabelecer a integração cinicamente evocada. Ao
vivo, também nossos escritores, prima-donas já aclamadas ou a caminho da
glória, seguem dando ao mundo um ar caipira de alheamento. É uma equação
curiosa esta: não fazemos parte do mundo, mas queremos que o mundo faça
parte de nós. Muitos desses escritores rezam pela cartilha da grande
imprensa e se julgam no direito de referir-se a um delicado ambiente
político vizinho como de restrição das liberdades, orgulhosos de seu
gesto democrático de reconhecer o outro apenas de forma circunstancial.
Há culturas pobres e ricas, bem sedimentadas ou violadas
por aspectos inúmeros, porém o que se passa no Brasil é um caso estranho
de vulgaridade, de indescritível talento para o medíocre, o desprezível
do ponto de vista humano, para a insociabilidade perene se entendida
como ânsia de enriquecimento existencial através do diálogo. É
vergonhosa a maneira como lidamos atualmente com este modismo mal
dissimulado do que chamamos de aproximação da cultura hispano-americana.
Não compreendemos – porém o pior é que não temos interesse algum em
compreender – o que se passa nesta relação acima referida entre duas
partes: os que atuam na construção de uma identidade cultural e os que
se empenham no fortalecimento de barreiras que impedem a visibilidade de
novas conexões de enriquecimento humano.
Especificamente no que diz respeito aos escritores
brasileiros, já é suficientemente sem relevo nosso grau de
comprometimento com a tradição lírica e suas relações ambientais em
planos políticos, estéticos etc., o que nos obriga moralmente a rever
toda a nossa história, com seus fascinantes heróis da
modernidade, em muitos casos uns facínoras… Agora temos diante de nós
uma nova oportunidade: o desafio de transformar este modismo em um
momento muito especial de conhecimento e reconhecimento, não somente da
realidade cultural hispano-americana, como também de nosso papel em tal
ambiente, o que somos, o que realmente representamos. Isto inclusive nos
ajudará a entender melhor até mesmo aqueles autores que incorporamos ao
nosso cotidiano de mesmices ou simplesmente deixamos para trás.
Editores da Agulha têm
participado de eventos dentro e fora do Brasil onde comprovadamente se
verifica este hiato persistente, uma relutância incivil, estúpida e
excessiva da parte de nossos escritores de manifestarem-se, de deixarem
de ser dissimulados, de apontar o que lhes dói, as suas razões de ser.
De outra maneira, ao menos que parem de dizer que são parceiros deste
claro modismo: o interesse da grande imprensa pela literatura
hispano-americana.
Os editores |