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editorial
Vale a pena reler ensaios de qualidade
Por exemplo, Seis Passeios pelos Bosques da
Ficção de Umberto Eco (Companhia das Letras, 1994). Seu capítulo
final, Protocolos Ficcionais, abre com a seguinte pergunta: “Se
os mundos ficcionais são tão confortáveis, por que não ler o mundo real
como se fosse uma obra de ficção?”
A seguir, este comentário: “...a vida com certeza é mais
semelhante a Ulisses do que a Os Três Mosqueteiros –
apesar de nossa tendência a vê-la mais em termos de Os Três
Mosqueteiros que de Ulisses”.
E, ainda: “Já que a ficção parece mais confortável que a
vida, tentamos ler a vida como se fosse uma obra de ficção”.
Eco dá alguns exemplos de interpretação da vida como
ficção. Os mais importantes: as teorias conspiratórias. Por exemplo, a
“explicação” da revolução Francesa como obra de maçons, por sua vez
supostamente inspirados pelos “iluminados” da Baviera, que seriam
continuadores das sociedades secretas criadas pelos sobreviventes da
Ordem do Templo, os Templários, com a finalidade de destruir o Vaticano
e a monarquia francesa como revide por terem sido exterminados por um
papa e um monarca francês.
Uma das variantes dessa teoria conspiratória acabou por
fundamentar e fortalecer movimentos anti-semitas, nazismo inclusive. Eco
rastreia, em Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, a gênese de
um dos textos-chave do anti-semitismo, Protocolos dos sábios do Sião,
desde algumas obras ficcionais do começo do século XIX. Uma delas, a
pseudo-biografia de Cagliostro, Joseph Balsamo, por Alexandre
Dumas. Outras, O judeu errante e Os mistérios de Paris de
Eugéne Sue, o mestre do folhetim. Neles, há conspirações de jesuítas e
de “superiores desconhecidos”, que acabaram transcritas e dadas como
documento real elaborado por conspiradores judeus por um chefe da
polícia política russa, já na virada do século XIX para o XX, para
justificar uma onda de progroms, perseguições a judeus: os
Protocolos dos sábios do Sião. O restante é história bem conhecida,
de dolorosa memória para muita gente.
Essas interpretações da realidade como ficção continuam, é
claro, a ocorrer. Renan Calheiros as reproduziu e continuará a
reproduzi-las ao declarar-se vítima da “conspiração da mídia”. Fazem o
mesmo alguns dos acusados no Supremo pelo “mensalão”, com o devido apoio
de toda uma gama de militantes e intelectuais, com seus panfletos,
missivistas e sites de internet. Não estão apenas lendo o mundo,
comodamente, como obra de ficção, do modo como Eco analisou: pior, estão
lendo o mundo como obra de ficção do tipo mais subliterário possível.
Os conspiradores agora seriam da mídia controlada por
agentes da “burguesia”, do capitalismo internacional, beneficiários da
globalização. A semelhança com o tipo de discurso e de acusação que
fundamentou os pogroms e, logo a seguir, os expurgos estalinistas,
não é coincidência.
Eco pergunta: “Como devemos lidar com intrusões da ficção
na vida, agora que vimos o impacto histórico que esse fenômeno pode
causar?” Literatura não é panacéia, cura para todos os males. Passeios
por seus “bosques da ficção” não são o específico universal. “Não
obstante”, diz Eco, “esses passeios nos habilitam a entender os
mecanismos pelos quais a ficção é capaz de moldar a vida”.
Mais um motivo para, aqui em Agulha, recomendarmos e
examinarmos bastante literatura de qualidade. E também para nos
interessarmos por aquelas obras que respondem a esta outra pergunta de
Eco, recíproca da simplificação da vida através de projeções da ficção:
“Ou, se os mundos ficcionais são tão pequenos e
ilusoriamente confortáveis, por que não tentar criar mundos ficcionais
tão complexos, contraditórios e provocantes quanto o mundo real?”
Leiam os ensaios a seguir. Terão a chance de visitar alguns
desses mundos.
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