Sérgio Lucena Sérgio Lucena
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revista de cultura # 59
fortaleza, são paulo - setembro/outubro de 2007

Sérgio Lucena

editorial

Vale a pena reler ensaios de qualidade

Por exemplo, Seis Passeios pelos Bosques da Ficção de Umberto Eco (Companhia das Letras, 1994). Seu capítulo final, Protocolos Ficcionais, abre com a seguinte pergunta: “Se os mundos ficcionais são tão confortáveis, por que não ler o mundo real como se fosse uma obra de ficção?”

A seguir, este comentário: “...a vida com certeza é mais semelhante a Ulisses do que a Os Três Mosqueteiros – apesar de nossa tendência a vê-la mais em termos de Os Três Mosqueteiros que de Ulisses”.

E, ainda: “Já que a ficção parece mais confortável que a vida, tentamos ler a vida como se fosse uma obra de ficção”.

Eco dá alguns exemplos de interpretação da vida como ficção. Os mais importantes: as teorias conspiratórias. Por exemplo, a “explicação” da revolução Francesa como obra de maçons, por sua vez supostamente inspirados pelos “iluminados” da Baviera, que seriam continuadores das sociedades secretas criadas pelos sobreviventes da Ordem do Templo, os Templários, com a finalidade de destruir o Vaticano e a monarquia francesa como revide por terem sido exterminados por um papa e um monarca francês.

Uma das variantes dessa teoria conspiratória acabou por fundamentar e fortalecer movimentos anti-semitas, nazismo inclusive. Eco rastreia, em Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, a gênese de um dos textos-chave do anti-semitismo, Protocolos dos sábios do Sião, desde algumas obras ficcionais do começo do século XIX. Uma delas, a pseudo-biografia de Cagliostro, Joseph Balsamo, por Alexandre Dumas. Outras, O judeu errante e Os mistérios de Paris de Eugéne Sue, o mestre do folhetim. Neles, há conspirações de jesuítas e de “superiores desconhecidos”, que acabaram transcritas e dadas como documento real elaborado por conspiradores judeus por um chefe da polícia política russa, já na virada do século XIX para o XX, para justificar uma onda de progroms, perseguições a judeus: os Protocolos dos sábios do Sião. O restante é história bem conhecida, de dolorosa memória para muita gente.

Essas interpretações da realidade como ficção continuam, é claro, a ocorrer. Renan Calheiros as reproduziu e continuará a reproduzi-las ao declarar-se vítima da “conspiração da mídia”. Fazem o mesmo alguns dos acusados no Supremo pelo “mensalão”, com o devido apoio de toda uma gama de militantes e intelectuais, com seus panfletos, missivistas e sites de internet. Não estão apenas lendo o mundo, comodamente, como obra de ficção, do modo como Eco analisou: pior, estão lendo o mundo como obra de ficção do tipo mais subliterário possível.

Os conspiradores agora seriam da mídia controlada por agentes da “burguesia”, do capitalismo internacional, beneficiários da globalização. A semelhança com o tipo de discurso e de acusação que fundamentou os pogroms e, logo a seguir, os expurgos estalinistas, não é coincidência.

Eco pergunta: “Como devemos lidar com intrusões da ficção na vida, agora que vimos o impacto histórico que esse fenômeno pode causar?” Literatura não é panacéia, cura para todos os males. Passeios por seus “bosques da ficção” não são o específico universal. “Não obstante”, diz Eco, “esses passeios nos habilitam a entender os mecanismos pelos quais a ficção é capaz de moldar a vida”.

Mais um motivo para, aqui em Agulha, recomendarmos e examinarmos bastante literatura de qualidade. E também para nos interessarmos por aquelas obras que respondem a esta outra pergunta de Eco, recíproca da simplificação da vida através de projeções da ficção:

“Ou, se os mundos ficcionais são tão pequenos e ilusoriamente confortáveis, por que não tentar criar mundos ficcionais tão complexos, contraditórios e provocantes quanto o mundo real?”

Leiam os ensaios a seguir. Terão a chance de visitar alguns desses mundos.

Os editores

Sérgio Lucena

sumário

1 a busca do centro no trabalho de sérgio lucena. raissa cavalcanti
2 a existência ou o milagre absoluto: uma reflexão poética. luís costa
3 a pseudonímia dadaísta em arthur cravan. lucila nogueira

4
abraham b. yehoshúa: el estar más allá de las fronteras... [entrevista]. eduardo mosches
5
alexander calder: precursor del mundo cambiante. federico revilla
6
andré breton, nadja e gérard de nerval: estranhas relações. claudio willer
7
el surrealismo y lo maravilloso. carlos m. luis
8 jannis kounellis: más allá de la belleza [entrevista]. miguel ángel muñoz

9 luis camnitzer: un palíndromo frente al espejo. adriano corrales arias 
10
mario maffioli: "llevar el paisaje por la senda de la abstracción es una de las propuestas que más me han interesado" [entrevista]. alfonso peña
11 mimesis, alteridade e pobreza. luís eustáquio soares
12 pequeno glossário dos lugares da poesia de isabel cristina pires ou introdução à arte de pintar desertos. paulo alexandre pereira
13 rainer maria rilke: amar a uma só voz. joana ruas
14 sempre desafiadores, sempre admiráveis: os desenhos de cruzeiro seixas. franklin rosemont
15 sobre a literatura portuguesa contemporânea. nicolau saião
 

artista convidada sérgio lucena [pintura, texto de jacob klintowitz]
resenhas livros da agulha
projeto dulcinéia catadora ● philip lamantia [por allan graubard] ● thelma guedes [por claudio willer] ● ruy fausto ● alfonso peña [por rodolfo häsler] ● delmira agustini [por gleiton lentz] ● eromar bomfim [por valentim facioli]
música discos da agulha clarinetc attilio mastrogiovanni célia & dino barioni allan grando ● andré juarez [por sérgio mendonça] ● flávio chamis ● dobet gnahoré ● american blues habib koité
poesia
banda hispânica
cumplicidade 1 galeria de revistas  
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cumplicidade 3
galeria de arte

Sérgio Lucena

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editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

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artista plástico convidado (pintura)
sérgio lucena

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jornal de poesia

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ð português]
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