editorial
A poesia sempre a poesia
Esta é uma edição em que essencialmente está presente a
poesia, através dos poetas, dos poemas e do olhar poético sobre obras
plásticas e algumas ambientações estéticas vitais para nosso tempo.
Considerando que os editores de Agulha são antes de tudo poetas,
manifestam-se através de seus próprios versos na condição aqui de
editorial. Também sugerem aos seus leitores que visitem esta página na
Banda Hispânica:
www.revista.agulha.nom.br/bhorgonzalez.htm, uma maneira de
afirmar nosso carinho por Otto Raúl González (1921-2007), querido poeta
guatemalteco falecido no mês passado. Em entrevista que lhe fez Lina
Zerón, disse a ela que os poetas vivem muito bem porque sonham muito,
porque são grandes sonhadores. René Char dizia que a poesia se
incorpora ao tempo e o absorve. Evidente que é neste sentido que
cabe referir-se ao sonho dos poetas. Quando um dos editores da Agulha
esteve no México em 2003 para uma leitura de poemas, foi uma grata
surpresa a presença na platéia do poeta Otto Raúl González, que havia
entrevistado por carta um ano antes e ali estava para conhecer seu
entrevistador brasileiro. É sempre estimulante, embora lastimavelmente
raro, quando poetas se encontram para conversar em torno de seus
projetos e reflexões, quando sabem escutar o outro, dando assim uma
dimensão mais potente a este sonho da poesia.
Quando se está
possuído pela tensão romântica
toda viagem é para o
Oriente
o trem de Zurich a
Viena, ao entrar no túnel alpino
a chegada entre altas
ondas ao porto belga, Ostende pela primeira vez
parecendo familiar
por ser o mesmo o vento, a mesma a tonalidade marítima
de que não me
lembrava
ou a descida da Serra
Gaúcha
até a ponte no fundo
do verde
– vertigens
reconhecidas
quando todas as
palavras servem
para dizer o
indizível
quebrar a pedra
permitir que jorre a
fonte
(quando se está
possuído pela tensão romântica)
Claudio Willer
[“Anotações de viagem”, em Estranhas experiências,
2004]
A cidade se
mistura por dentro de todos os seus vestígios. É noite e somos seus
fogos tentaculares. Não há salvação na calmaria, ouve-se ao
longe. Ora, não há salvação em parte alguma. Nem faz sentido esperar a
tempestade passar para sentir-se salvo. Este sentimento não passa de um
estratagema para nos manter apegado à vida. É como embarcar esperançoso
em um último trem para Lost Paradise, onde quer que esteja tal
destino. Aos poucos fomos nos expulsando de nós mesmos, varrendo o que
nos resta, cinzas para um desterro da memória. Freqüentamos estranhas
cidades: o emprego, o sexo, a mecânica social em suas latitudes
desconexas. É preciso um grito de sofrimento para renovar as trevas.
Floriano Martins
[“Autobiografia de um truque”, em Teatro
Imposible, 2007]
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